segunda-feira, junho 09, 2008

O Fim


Este diário vai de férias.
E a par do pedido de férias a que todos temos direito, ainda me apresentou em papel timbrado e de assinatura reconhecida na presença, um pedido de licença sem vencimento e sem prazo. Comunicou-mo durante o fim-de-semana, olhar meio ausente e triste, de uma enfiada, papel estendido, sem permitir interrupção, como se quisesse despachar-se de algo doloroso, sem grandes questões de parte a parte.
Não foi uma conversa à volta de uma chávena de chá como costumam ser as nossas conversas, uma conversa amena, como quase todas as que tivemos neste último ano e meio, por vezes perigadas por um laivo de discussão quando não pensamos os dois da mesma forma. Raramente.
Apenas uma comunicação. Olhei-lhe as malas arrumadas, com o que de necessário se torna levar. Uma escova de dentes nova que a antiga está a precisar de substituição, dois ou três “dvds” gravados de tudo o que aqui foi dito, escrito e comentado, que é de memória fraca e quem sabe um dia não lhe dão as saudades de tudo reler. Uma camisola grossa de lã densa, daquelas à laia de marinheiro que para onde vai o frio de rachar é gélido e de neve feito. Um bom par de botas, que lhe custaram os “olhos da cara” confessa-me, e eu repetindo-lhe, como já tantas vezes lhe disse, que não sei que diabo quer essa expressão dizer. Nunca vendi os meus.
E, acrescenta passando literalmente por cima do meu aparte, como tantas outras vezes em que nos desentendemos, botas boas para a caminhada que o espera. E para onde pensas ir, pergunto-lhe, sabendo que me vai certamente responder com um qualquer comentário idiota: Quando chegar, saberei! – responde. ..Eu não disse?
Na mochila que colocou às costas espreita um peluche. Sorrindo confidencia-me que o “retirou” de cima da cama da princesa. Quer a memória viva da menina que lhe tem abrilhantado a vida, deliciando-o. Os meus olhos humedecem-se e consigo entendê-lo. Viveu-a. Vai certamente sentir-lhe saudade. Vejo-o afastar-se em passos pequenos, ainda relutantes, como se não soubesse muito bem se ir … se ficar.
Estendo-lhe o braço de mão aberta e vejo-o abanar a cabeça sorrindo.
Já fechaste tantos cadernos, minha amiga. Sou só mais um.


Regresso ao aconchego da minha memória e penso em todos os cadernos que já enchi de letra miúda, a título de tudo e de nada. Principalmente de nada. Penso na sensação de chegar à ultima página, sabendo que aquele está completo ainda que fique a meio. Quase sempre ficam a meio. Este é mais um. Ele tem razão.
Lembro-me, de quando o iniciei, ter facultado o endereço a dois ou três Amigos, convicta que seriam os únicos a ler-nos até um outro Amigo me alertar que teria de ser muito ingénua para nisso acreditar. E era.

Foi lido este pequeno diário. Por outros olhos que os meus.
Partilhei, emocionei-me e emocionei, ri e sorri ao mesmo tempo que consegui ver os vossos risos e sorrisos, sei que surpreendi, sei que desiludi. Como na vida. A lá de fora.
E acima de tudo aprendi. Muito. Terei ensinado?

O grato que é saber-Vos meu Leitores, ninguém pode mensurar.
Só eu.
Afianço-Vos que é infindo.

A todos, o meu Bem-Haja *

7 comentários:

fugidia disse...

Não posso acreditar, querida Once :-(
Mas porquê?
:-(

Não calcula o bem que me faz lê-la diariamente (e o que me custa não "tê-la" ao fim-de-semana...): a sua serenidade, o seu bem escrever, a sua doçura.
Por favor, inicie outro caderninho e dê-me a "morada", sim? Eu que escrevi diários desde os dez anos sei que, por muitas pausas, recomeçamos sempre. Sempre.

Um beijinho enorme.

Helder Robalo disse...

Poderia sempre armar aqui uma confusão brutal, ralhando a bom ralhar pela decisão tomada. Mas, que direito tenho eu de o fazer?

Agradeço-lhe antes, do fundo do coração, as experiências partilhadas, as emoções transmitidas e as lições ensinadas. Mesmo em silêncio, sobretudo nos últimos tempos, não deixei de passar por aqui.

Bem haja por tudo.

E um enorme beijo, com todo aquele carinho beirão que tão bem conhece ;)

Torquato da Luz disse...

Indeferido.
Não quero crer.
Um bj.

Luísa disse...

Tenho muita pena, minha querida Once… mas já estou também ansiosa por saber o que será a sua próxima aventura. Porque não me parece que nos vá deixar. Apenas, talvez, tentar um formato ou uma disciplina diferentes. Será? O importante é que não se esqueça de que estamos aqui, à sua espera. Nem do enorme prazer que dá, nestas coisas da criatividade, começar de novo. :-)
P.S.: Aguardamos, portanto, notícias.

ana v. disse...

Ohhhhh, querida Once... assim de repente??
É espantoso como se pode criar uma amizade (sem aspas, por estranho que isto pareça) com alguém de quem não se sabe sequer o nome! Se me dissessem esta frase há pouco mais de um ano, antes de ter um blog, tenho a certeza de que me havia de rir. Hoje já não. Por alguma razão acabamos por pertencer a um determinado círculo restrito neste mundo virtual, composto de pessoas com quem temos afinidades evidentes (quer se apresentem por trás de um nick ou com o seu próprio nome), conversamos com elas diariamente e trocamos até confidências, muitas vezes embrulhadas em metáforas mais ou menos engenhosas. Damo-nos a conhecer, conhecemos. É quase impossível que isso não aconteça, neste convívio tão próximo e tão livre de barreiras. Por isso nos custa tanto quando algum de nós resolve sair do círculo, ainda que esteja no seu pleno direito.
Nunca a vi, Once. Não sei quem é nem sequer como se chama. Mas sinto - não estou a dramatizar nem leia isto como uma chantagem - que se vai embora uma amiga. Uma amiga que me vai fazer falta. Espero sinceramente que volte, um dia destes.

Um grande beijo e tudo de bom para si

Nocas Verde disse...

Quebro a minha regra de não postar nem comentar em casa.
Se leres isto vês pelas horas que (felizmente) estou em casa.
Aprendi-te a não contrariar. Não se contrariam forças da natureza. E por muito palerma que seja esta afirmação, é o que és.
Se vieres cá ler este comentária da tua (agora) mais pobre amiga verde sabe que acato e compreendo. Mas não entendo.
Ou entendo mas não compreendo. Ou... blragh! Tu sabes! Posso dizer-te a bien tot... em vez de adeus?
Espero que sim.
vou ali ver como se escreve a expressão... já fui. Acho que é assim que se escreve
A bien tot, Cafezinha, a bien tot

Once In a While disse...

Meus Amigos .. dúvidas eu tivesse, que não as tenho, do vosso carinho e companhia ..

.. são dificeis os tempos que me esperam .. não seria justo para ninguém continuar por aqui.
Muito menos para mim.

Fica um beijo em cada um de Vós ..