Quarta-feira, Junho 04, 2008

derrapagem ..


O estado ultrapassou em 800 milhões de euros a melhor das perspectivas para uma determinada “obra” – obra que tem o nome pomposo de despesa pública irregular e eu assim de repente, penso em quantas foram já as vezes que este tipo de escândalo veio a lume sem que nada se conclua no borralho, parecendo até que o mais diligente bombeiro está de serviço 24 sobre 24 horas.
Além disso, penso ainda, se é irregular ou ilegal como já o li porque diabo continua a acontecer e a engrossar listas de números com muitos zeros. Mais: num país com dois milhões de pobres e em que metade destes vive com menos de €8 por dia, como pode alguém vir desvalorizar o que quer que seja, que se prenda com esta ou outras quantias. É preciso soletrar? Oitocentos milhões de euros. Tem troco?
800 milhões de euros a mais, ou a menos, que vão obviamente ser investigados para daqui a uns meses aparecer um pomposo relatório, registado, assinado e lacrado (será que ainda se usa isto?) informando os tontos ainda desconfiados que está tudo bem, tudo regular, e não há abusos de parte alguma.
Como o outro. O dos combustíveis. Mas esse tem uma atenuante, num país em que este tipo de iniciativa demora normalmente qualquer coisa com ano e meio, até que todos se esqueçam ou confiando que todos se esquecem, convenhamos que aquela coisa aberta não sei por quem para aferir das responsabilidades de outro alguém foi feita em tempo record, com algumas horas de sono perdido e muita cafeína. Não podia dar bom resultado que nenhum deles é menino universitário habituado a noitadas.
800 milhões de euros, e eu penso na quantidade de crianças a passar fome, idosos sem apoio e sem mesada que já passaram a idade, escolas degradadas, estradas esburacadas, prédios a cair e gente a viver na rua. 800 milhões de euros assim levemente justificados «Tratando-se de um número que impressiona, temos de ter uma visão relativa do que ele representa - 1,1 por cento da despesa total da administração pública», afirmou Teixeira dos Santos.
Uma visão relativa. E vem-me à memória a máxima de Protágoras “o Homem é a medida de todas as coisas” .. e vem-me à memória que a relatividade que o senhor advoga não enche barrigas com fome, medida pela qual se deveria pautar qualquer governante.
E vem-me ao espírito a quase certeza que tudo isto não passa de um sofisma. Nada mais.

6 comments:

Luísa disse...

Se é notícia de hoje, Once, já sei que me vou exaltar logo à noite. Esta gente não tem um pingo de vergonha. O Estado é o pior dos gestores – não há obra que não registe fabulosas derrapagens - e, mais grave do que isso, o primeiro dos prevaricadores: paga mal e a más horas, tem a seu cargo milhares de trabalhadores precários em situação manifestamente irregular, não cumpre as suas próprias leis sobre ambiente e condução automóvel, e é, como todos adivinhamos, um poço de corrupção. E depois, ainda nos vem com moralizações. Minha querida Once, emigramos?... :-)

mike disse...

Um sofisma um bocado relativo. Ou será um nada caro? E são dois a perguntar: emigramos Miss Once? Sabe virar frangos?

O Réprobo disse...

Querida Once,
os números são sempre uma abstracção que erradica o Humano do seu âmbito. Quando manipulados por políticos que precisam de eleições para sobreviver, junta-se outra abstracção, a da Realidade do sofrimento que se tenta esconder.
Remédios? Dar-lhes um empurrão bem concreto ajudava, desde que não fosse para lá pôr outros iguais.
Beijinho

PSB disse...

Cara Once
Este tipo de escândalos é tão frequente entre nós, que os próprios já o acham natural e o relativizam com o maior dos descaramentos. Infelizmente tenho que concordar com o Paulo, não por ser ele, claro, mas por não acreditar que outros que venham tenham outra moral. É sempre só mudança de moscas...
Quando os políticos forem responsabilizados materialmente pelas suas negligências com os dinheiros públicos, pode ser que passem a ter mais cuidado com o que fazem e... com o que dizem.
Um beijinho

ana v. disse...

O pior é que estas "distracções sem importância" nos vão fazendo derrapar a todos... para o abismo do terceiro mundo. Estarmos na Europa é um ínfimo pormenor, completamente irrelevante.

Once In a While disse...

o ar de "no care" com que tentam justificar o injustificável Querida Luísa, como se tudo não passasse de "peanuts", assombra-me confesso.
Quanto ao emigrar Querida Amiga, já por duas vezes tive oportunidade de o fazer, e não sendo totalmente Lusitana, a "coisa" ainda ficaria mais fácil mas .. continuo a achar que ainda pode ser que .. e a vida tem-me sorrido também, confesso.
Beijinho


Um Sofisma Caro Mike quando a acção premeditada pelo sujeito é efectuada de má-fé, mas com tal "arte" que convence o mais precavido. Um crime, portanto.

Quanto aos frangos Meu Amigo não creio me safaria, por aqui é mais "fish&chips" (risos)


que é o que sempre temos feito não é Caro Paulo? Retirar um peça e colocar outra precisamente igual em tamanho, forma e conteúdo.


Quando forem responsabilizados materialmente Caro Pedro? Isso seria ouro no bolso do contribuinte .. :)


ora nem mais Querida Ana .. um simples acaso geográfico :)