Sexta-feira, Maio 30, 2008

Reflexões (I)


Cair na inconsciência pura de que “se me amas respeitas os meus gostos e eu faço o que quero porque não me apetece prescindir de nada que me dê prazer”, é um erro.
Um erro porque na vida temos de saber investir. Investir nos relacionamentos se, obviamente, os quisermos manter. Sejam eles quais forem. Investir, cuidar, mimar, regar e alimentar como se de um pequeno jardim se tratasse. Toda a gente sabe que quando o jardineiro se descuida, a árvore morre.

E o investimento, para além do na bolsa em queda no nosso pobre mercado financeiro, pauta-se em grande parte por cumplicidades, cedências e agrados. Cedências de pequenas coisas que é indiferente que façamos ou não e só as fazíamos porque mais não tínhamos com que ocupar o tempo, e cedências em coisas maiores que em nome do amor que sentimos, abdicamos, não necessariamente em prejuízo de nós, mas obrigatoriamente em fomento de ambos. Se isto acontecer de parte a parte, temos caso.
A minha avó ensinou-me na vida e desde muito cedo a fazer um simples exercício .. change places, put yourself in the other’s shoes ou try it on another angle. É fácil. Se amo e quero preservar este amor, se para mim a harmonia é essencial, se o bem-estar físico e psicológico da pessoa que está comigo me é importante, porquê continuar a dar crédito a pequenas e malévolas atitudes que sei, porque sei e bem, vão magoar, humilhar e fazer sofrer a quem quero bem.
E que me quer bem. Que sei me quer bem.

Ás vezes achamos que isto é uma perda de personalidade. "Eu? Tão independente e altruísta a perder-me em detalhes para agradar? "
Não é agradar. É construir. E no pedra sobre pedra tem de haver algo mais .. tem de haver cimento. Caso contrário esboroar-se-á tudo qual castelo de areia em onda de arremesso.
Sem base.
Sem substância.
Sem nada.
E aí .. bom aí podemos continuar alegremente cantando e rindo, dedicar-mo-nos ao que nos dá prazer, sem concessões, sem cedências, sem prejuízo de coisa alguma.

Mas .. sozinhos com o nosso umbigo que de repente, deixou de parecer tão atractivo como era.


11 comments:

fugidia disse...

Concordo, querida Once,
mas a dificuldade não está em concordar; está em saber aplicar bem, na prática, o que nos transmite neste seu post.
Porque o equilíbrio de "cedências" e de "investimento" numa relação a dois é muito difícil de alcançar e a aprendizagem que é necessário que cada um de nós faça, ao longo da vida a dois, significa, demasiadas vezes, um desgaste mortal.
Um beijinho.

Once In a While disse...

.. se o desgaste é mortal querida Fugidia não valerá a pena, digo eu que acho que sei o que quero.
A morte é a única certeza que temos na vida, não vale jogar na antecipação.

Mas claro que uma coisa é ler / escrever / sentir .. e outra é aplicar e ter disso o retorno que quando amamos (amigos, homem, filhos) merecemos.

Outro para si *

Nocas Verde disse...

Como a minha querida cafezinha dizia algures
A man is not an island
Concessionar, ceder, transigir, deverão ser (diz a Verde que, à custa dos anos que leva em cima, acha que também sabe como fazer) sopesadas dia a dia, hora a hora.
Que reflexão acutilante e, como sempre, verdadeiro.
beijinho, café
e muito bom fim de semana

mike disse...

Miss Once, já lhe aconteceu ler coisas e não ter palavras para emitir sequer o mais pequeno comentário? Seja pela escrita, seja pelo conteúdo? Pois, bem me parecia... (risos)... só a mim é que isso acontece. :)
Hum... o meu umbigo já não me parece atractivo, por isso... (mais risos).
Gostei de a ler, Miss.

Luísa disse...

Querida Once, esta é uma reflexão que faço muito e me deixa invariavelmente apoquentada. Não tanto em relação à vida familiar, que acho fácil na sua «naturalidade», mas ao relacionamento social. Penso que devia investir mais na amizade e contrariar esta tendência que tenho para uma certa misantropia, se bem que algumas das suas manifestações – a aversão a telefones, por exemplo – sejam já um traço de personalidade, com origens genéticas, quase diria. Já ao exercício sugerido pela sua Avó - «change places, put yourself in the other’s shoes, try it on another angle» - não costumo furtar-me… embora, às vezes, não se note. :-)

Once In a While disse...

in fact Dear Green .. no man is an island but sometimes i feel like am living in one. ;)
Kiss Kiss


Já sim Caro Mike .. não é único o Sire :) e não, não vou pedir para ver (risos)
Obrigada *


Querida Luísa .. eu vou começar a postar os seus comentários sabia? (sorrindo) .. eu que me isolo que me farto a escrever sobre o tema como se entendida fosse. Compreendo-a lindamente .. lindamente.
Beijinho para si *

ana v. disse...

Querida Once, é impossível negar-lhe a razão. Embora o meu curriculum não abone muito a meu favor, eu também acho que a arte da jardinhagem é essencial. Sempre a pratiquei entusiasticamente, mas é desanimador quando a relva não reage à rega e teima em amarelar...
E aí é que está o busílis da questão: a seca é fatal, e só é evitável quando há dois jardineiros e dois jardins em simultâneo. Mas é tão raro que isso aconteça!

Beijinhos, Once. Continue a brindar-nos com estas reflexões, bem regadas a sensibilidade e sabedoria.

PSB disse...

Cara Once
Que tema tão delicado... mas bem exposto com tacto e sensibilidade.
Concordo consigo e com os comentários em geral. A relação a dois é uma construção dia-a-dia, viva e eterna, sem ser necessária a anulação individual. Que é o que a torna desafiante. Quando alguém se apaixona por outra(o), para além da natural atracção física que despoleta a aproximação, é o ser em si, na complexidade da sua própria personalidade, que atrai. Querer anulá-la ao longo da relação a dois é um contrasenso.
A construção do Amor a dois implica, por isso, para além de 'amor', inteligência permanente, para que saibamos ceder e aceitar ('perder') umas vezes e impôr ('ganhar') outras.
O que nem sempre é fácil. Depende sempre do que entendermos ser importante.
E concordo com a Ana. Os jardineiros têm que ser dois, a trabalhar em equipa.
Um beijinho

Once In a While disse...

Querida Ana, achei graça ao Curriculum eu .. :) e dois jardineiros com dois jardins distintos lembra-se os Sparks num "i married myself and we are happy together" ;) Mas .. acho que o que todos procuramos nos nossos relacionamento é o equilibrio e a harmonia .. seja lá de que forma for ;)
Beijinho


Caro Pedro, o seu parágrafo que começa com a "construção do Amor .." é uma das minhas máximas .. mesmo que nem sempre posta em prática :)
Obrigada *

O Réprobo disse...

Querida Once,
um dos mais persistentes mistérios do egotismo é fortalecer-se quer da muita satisfação de desejos, quer da reiterada recusa deles. Como contrariar esta erva daninha que ameaça desviar a nutrição conveniente da planta?
A meu ver, só manipulando com habilidade as tendências "umbiguistas". Se a Coisa Plantada insiste em olhar demasiado para o seu, acentuar a noção de que o fim primeiro dele foi ligá-la, pelo cordão umbilical, a outra Pessoa; e que daí dependia a Vida. Ou seja, detectar em cada foco de interesse, mesmo nos menos predispostos, a capacidade de fazerem crescer e subverterem a exclusividade do próprio capricho.
Beijo a mão que tão bem conduz

Once In a While disse...

Caro Paulo gostei particularmente da analogia que faz de um relacionamento a um nascimento .. da ligação entre dois (quaisquer) idêntica à da mãe com o filho e deste com quem lhe deu origem .. talvez se tudo fosse visto por esse prisma as dificulades de relacionamento cedessem lugar ..

Obrigada :)