sexta-feira, maio 30, 2008

Dias Mundiais



era bom que pudessem ser todos não era?
E é .. crente que sou está na nossa mão.



Bom fim-de-semana *

Reflexões (I)


Cair na inconsciência pura de que “se me amas respeitas os meus gostos e eu faço o que quero porque não me apetece prescindir de nada que me dê prazer”, é um erro.
Um erro porque na vida temos de saber investir. Investir nos relacionamentos se, obviamente, os quisermos manter. Sejam eles quais forem. Investir, cuidar, mimar, regar e alimentar como se de um pequeno jardim se tratasse. Toda a gente sabe que quando o jardineiro se descuida, a árvore morre.

E o investimento, para além do na bolsa em queda no nosso pobre mercado financeiro, pauta-se em grande parte por cumplicidades, cedências e agrados. Cedências de pequenas coisas que é indiferente que façamos ou não e só as fazíamos porque mais não tínhamos com que ocupar o tempo, e cedências em coisas maiores que em nome do amor que sentimos, abdicamos, não necessariamente em prejuízo de nós, mas obrigatoriamente em fomento de ambos. Se isto acontecer de parte a parte, temos caso.
A minha avó ensinou-me na vida e desde muito cedo a fazer um simples exercício .. change places, put yourself in the other’s shoes ou try it on another angle. É fácil. Se amo e quero preservar este amor, se para mim a harmonia é essencial, se o bem-estar físico e psicológico da pessoa que está comigo me é importante, porquê continuar a dar crédito a pequenas e malévolas atitudes que sei, porque sei e bem, vão magoar, humilhar e fazer sofrer a quem quero bem.
E que me quer bem. Que sei me quer bem.

Ás vezes achamos que isto é uma perda de personalidade. "Eu? Tão independente e altruísta a perder-me em detalhes para agradar? "
Não é agradar. É construir. E no pedra sobre pedra tem de haver algo mais .. tem de haver cimento. Caso contrário esboroar-se-á tudo qual castelo de areia em onda de arremesso.
Sem base.
Sem substância.
Sem nada.
E aí .. bom aí podemos continuar alegremente cantando e rindo, dedicar-mo-nos ao que nos dá prazer, sem concessões, sem cedências, sem prejuízo de coisa alguma.

Mas .. sozinhos com o nosso umbigo que de repente, deixou de parecer tão atractivo como era.


quinta-feira, maio 29, 2008

nonsense.. too much nonsense ;)


Dia de consulta no dentista da princesa é sempre acontecimento que me concede pelos menos noventa minutos de espera, num folhear de trabalho se tive a infelicidade de ter de o levar para casa, ou uma ou outra revista daquelas que abundam nos escaparates das salas de espera. Pego em duas ou três, cujos títulos não decoro, e dedico-me a folheá-las enquanto a princesa equilibra um jogo com uma parceira que tem metade da sua idade.
E fico a saber coisas que, de facto tenho de dar a mão à palmatória, não me interessando rigorosamente nada me concedem a “oportunidade” de dar umas boas gargalhadas:
A senhora que no outro dia teve um acidente, sem danos, que fez parar os noticiários e refazer as gordas das gazetas, está grávida de alguém que ainda é casado com outra infeliz e portanto aparece em fotografia de camisola de manga à cava, barriga à mostra a comprovar que fala verdade, ela que ultimamente tanto tem sido acusada de mentir.

Há uma actriz, da qual não sei o nome, que desrespeitando o contrato que a “prendia” a uma qualquer estação de televisão, bateu com a porta na cara das filmagens de uma série, que vou querer ver, provavelmente para me decepcionar dado que li o livro mas ainda assim, mas dizia, bateu com a porta na cara das tais filmagens e passou-se para outro canal de televisão. A sorte é da substituta, contrariando a máxima pouco decorosa da anedota que sobre estas versava. Substituta que, diga-se à laia de passagem, me parece muito melhor actriz que a primeira.
Digo eu sem ter visto nada em que qualquer delas actuasse.

Por causa da gravidez real de uma outra actriz do nosso écran (não vale perguntarem-me qual o canal) a novela em que a mesma participa vai ter de ser totalmente alterada, lamenta-se alguém que me parece o autor da dita. Da novela claro, não da actriz. Ora ainda bem que assim é penso na minha ingenuidade. Pior seria se algo que se tivesse passado na novela lhe alterasse profundamente, e assim em laivos de tristeza, a sua vida pessoal.

E assim passei quinze minutos .. o que quer dizer que tenho ainda para aí uns sessenta para “queimar”, querem que continue ? ;)

quarta-feira, maio 28, 2008

a way to go ..


A manhã está luminosa como convém a uma manhã de Maio .. Maio o Mês das Flores, numa Primavera tardia para gáudio de quem não gosta da estação.

A manhã está luminosa, o céu claro de um azul bebé pontuado por nuvens rareadas que mais parecem pedaços de algodão imóveis, sem vento. A minha rádio favorita passa o Pacific Rhythm e reparo na repetição do termo ao passar as docas, o Costa Pacífica atracado e seguro num cais sem ondulação aguarda os passageiros sonhadores de outras paragens, mar fora sem perigo, algo que gostaria de fazer penso, logo eu que a única forma de poder deixar de ver terra é de avião. De barco seria incapaz. Aglomeram-se no cais as caixas de mantimentos que providenciarão a despensa daquele colosso nas próximas semanas para que os seus clientes tenham a fruta fresca ao pequeno-almoço e o pequeno marisco cozido nos lanches ajantarados. Homens em fato-de-macaco, tão pequenos perante as enormes gruas que se multiplicam cais fora, numa azáfama própria de quem vive a concretizar sonhos. Sonhos de escape, partir para longe, esquecer?

A manhã está luminosa e hoje minha Avó vesti a camisola de caxemira que me deste há quase vinte anos. Aposto que o calor tépido que senti é parte do teu abraço, aquele abraço mais apertado e mais especial que me davas sempre neste dia. Um abraço sussurrado num “it will be a good year, my dear”, e será talvez por isso que desde há muito desejo os Parabéns começando com “que seja um bom ano aquele que agora começa”.
Porque é no dia de aniversário que viramos a página. Ao contrário dos que fazem balanços na passagem do ano civil, eu gosto de os fazer em primeiro lugar quando me apetece, e depois, quase por “obrigação” de pensamento no dia em que nasci. E já vão alguns em cima do ano que nasci. Foi um bom ano este que agora acaba. Optimista e realista num misto de entusiasta prudente, acho que tenho conseguido retirar da Vida, este percurso por vezes em estrada lisa e bem sinalizada, outras cheio de obstáculos invisíveis, a possibilidade de dizer hoje: foi um bom ano.
A manhã está luminosa, como convém.
E o sorriso da princesa logo de manhã cedo num Parabéns Mamã, abrilhantaria a manhã mais chuvosa.

Que o próximo seja igualmente um bom ano, ainda que possa não concretizar aquilo que me fez sonhar .. neste.

terça-feira, maio 27, 2008

Tricky Quiz



Pergunta inocente, como quem oferece um gelado e quer saber os sabores preferidos.
What philosophy do you follow, como se a seguir nos dessem um remédio para a vida ..
Desconfiada à partida de tudo o que sejam testes de cruzes, neste caso de bolas, preencho com algum desconforto as respostas entre o totally agree e o strong disagreement para chegar à conclusão que me apetece naquela frase específica acrescentar mais um ou dois pontos (na melhor das hipóteses), que me parecem fundamentais e que sei influenciarão (deveras) o efeito a obter.. ;)
What philosophy do you follow? E o resultado já esperado, que tenho a obrigação de me conhecer, é um forte, imenso e de percentagem acentuada Existencialismo, seguido pelo fiel Utilitarismo e alguma dose de Nihilismo (o meu outro eu a tentar assomar .. quieto!) ;)
Não é fácil.
Mas é a verdade ;)

"Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does. "

what about ..


Pede o Amigo Réprobo a minha Hate List.

Detenho-me no tempo que a fase de nuvem negra e carregada bem por cima da minha pobre cabeça levar-me-ia a desancar este Mundo e o Outro num exercício pouco ponderado de menina crescida, que sou, contudo tão mais fácil de resolver.
Em primeiro lugar, não gosto do termo detesto e detesto o termo odeio. Energia mal centralizada naquilo que nos faz mal, nos faz sofrer, sentimentos por vezes aprofundados numa tentativa de sofrer ainda mais .. o self_pity do nosso descontentamento levado a extremos? Já por lá andei .. talvez seja isso mesmo.

O que odeio eu? Alguém? Alguma coisa? Dedico-me a reflectir sobre os meus “ódios” que não são mais que situações desagradáveis com as quais tenho por vezes de conviver .. e agora que penso nisso, com as quais já convivi mais, adquirida que foi a “coragem” de as afastar simplesmente do meu caminho.
Situações? Perguntam Vós e bem .. e que situações serão essas oh tu já que escreveste meio_post sem nada dizer. Ora começa logo aqui, nesta minha incapacidade de responder directa e linearmente ao que se pergunta, por exemplo. Depois segue a lista com o “terrível” defeito que alguns humanos têm (e por humano, a minha cadela fazia o mesmo .. risos) de apertarem o tubo da pasta de dentes pelo meio. Segue-se o papel no chão, seja em que situação for, mas se for na praia então, exaspero. A estupidez. A estupidez humana fundamentada nesta postura tão na moda do “no care”, irrita-me. O ter de me repetir, hoje mais controlado por defeito profissional, tirava-me completamente do sério há uns anos atrás. Esbarrar nas incongruências das estórias em que me fazem acreditar chega a tirar-me o sono. Tomarem-me por tonta ou subestimarem a minha capacidade de raciocínio idem, idem. A falta de humanidade acaba a pequena lista, e ainda bem que me disseram que eram só seis (!) os pontos a focar. A falta de humanidade na fila do supermercado, na preferência do estacionamento, no segurar a porta e no se faz favor ou no obrigada. A falta de humanidade no silêncio aos bons dias, nas pequenas e “low_cost” atitudes que podemos ter com quem precisa, quem carece, quem sofre e pena.

E no muro, no muro que erguemos ao nosso redor, como se soubéssemos, tivéssemos a certeza absoluta que nunca estaremos do outro lado.

segunda-feira, maio 26, 2008

Feira, Livros e .. :)


A Feira do Livro está linda, o dia de uma tímida Primavera ajudou, ainda que grossas e brancas nuvens a parecer o que quisermos que seja, ensombrassem o sol fraco que insistia em brilhar. Pavilhões em cores vivas, gente simpática e sorrisos por todo o lado, num até que enfim, supus.

Mãe e filha em alegre caminhada com objectivos definidos quanto à aquisição daquele livro específico e outros que se desenham no desejo de ler assim que os olhos são pelo título atraídos.
Passeio de mão dada, calmo, no meio da multidão, três passos e pára, olha, toca, lê introduções para seguir mais três passos, sem cansaço. Alheamento à excepção da mão na mão com direito a queijadas e garrafa de água, e a princesa de conversa com Maria do Rosário, a gentil autora dos Detectives Maravilha, série e livros que devora, o Nº 14 na mão à espera do desejado autógrafo. “Gostas de ler?” pergunta-lhe sorrindo, e ao “Imenso!” como resposta levanta os olhos do que escreve a eito numa interrogação divertida perante tal convicção de gente pequena “Hum .. sério?” reforça, ao que a princesa sorri na afirmativa e a mãe pede intimamente ao céu que não lhe pergunte que livros já leu na sua ainda pequena vida, ou não saímos daqui e lá se vão os três passos, pára e observa, continua ;)
A mãe de novo distraída, na procura da Editora que a levou à Feira e a princesa puxa pela manga da camisa, “mummy aquele senhor chama-te” .. o senhor era o amável editor que demonstrou há uns tempos largos algum interesse pelas letras desta aprendiz, tivesse ela a capacidade de lhe apresentar algo de sequência lógica feito. Não tem.
E já mudou de ideias?” atira-lhe .. “Ah .. pois, as ideias” respondo sorrindo, na despedida.
Finalmente a Relógio d'Água e a pergunta sobre o livro procurado. A desilusão na cara da princesa que lhe queria fazer uma surpresa no aniversário mas não sabia onde procurar o livro de que a mãe tinha falado, e afinal era tão simples, ali estava ele! O senhor por detrás do pequeno balcão divertido com a situação, passa-lhe um catálogo com os contactos “se a mamã continuar com estes gostos .. ri-se .. para o ano já sabes onde encontrar a prenda de aniversário!” Mais três passos, pára, lê, eu tenho este mãe, e aquele também, continua, mais três passos.
Às Histórias de Portugal e às Universais a Mãe abana a cabeça, não porque não ache interessante e enriquecedor mas porque aquela ou outra versão similar já existem no reino lá de casa. Lidas, ainda por cima.
A princesa escolhe então o Castelo dos Livros, depois de muito analisar títulos e introduções. Porquê? Pergunto-lhe, ao que abrindo o livro, lê-me:
quem escreve um livro constrói um castelo e quem o lê habita-o” .. posso, mummy?

A Feira está bonita e a Obra, esse castelo imenso que habitamos sempre que a ela nos dedicamos, muito bem representada.
Mas o momento alto, ou não fosse esta diarista uma intimista, foi quando nos deitámos na relva, mãe e filha em partilha silenciosa, ela a invadir o castelo a que chama seu, eu a desvendar a brilhante tradução que António Pescada fez de Turguéniev.
As duas, em sossego, até o Sol se pôr.

sexta-feira, maio 23, 2008

e a boa notícia é ..















que a Feira do Livro abre dia 24 de Maio :)

Bom fim-de-semana *

quarta-feira, maio 21, 2008

.. surprise *

Couro de cor

Sombra de som de cor

De malmequer

De malmequer de bem

De bem me diz

De me dizendo assim, serei feliz

Serei feliz de flor

De flor em flor

De samba em samba em som

De vai e vem

De ver de verde ver

Pé de capim

Bico de pena, piu de bem-te-vi

Amanhecendo assim perto de mim

Perto da claridade da manhã

A grama, a lama, tudo

A minha irmã

A rã, o sapo, o salto de uma rã
(Gal Costa)

Passa sem parar esta lá em casa ultimamente. Decorada em trejeito de Língua Brasileira e Familiar, a princesa brindou-me ontem, de surpresa, à chegada, ainda mal tinha colocado o casaco no cabide e as botas na despensa, com uma coreografia de sapatilha calçada ao som desta Música, entoando a letra na sua voz ligeiramente grave. Honestamente? Fabulosa! ;)

Adoro Surpresas eu *

Tenham um .. hum .. adorável, sim pode ser, adorável Holiday *


PS_ Claro que se eu soubesse como colocaria a versão musicada.
Mas não sei. Nestas coisas sou pouco mais que ignorante ;)

terça-feira, maio 20, 2008

laçadas..


.. alguém que amo disse-me há um tempo que na vida damos, com as pessoas que nos rodeiam, nós e laços.
Nós com o filhos, os únicos bem apertados sem folgas de marinheiro, aprendidos na técnica do escutismo, fortes e seguros que sirvam ao mesmo tempo de porto de abrigo onde sempre regressar. Elos robustos, que inspirem segurança, carinho e liberdade, esta tabelada na liberdade que reconhecemos aos outros e assim ensinamos. Vínculos valentes, de valentia forçada por vezes feita, quando a nós, pais e acima de tudo humanos, nos apetece igualmente verter uma lágrima, porque sim. Ataduras. Possantes. Cheias de vida. A Vida que proporcionámos num querer de prole, que assumimos ao primeiro pontapé sentido ainda no nosso interior, e nunca, mas nunca destituímos. Nós.

Gostei tanto da explicação que me aventurei na pergunta para a qual sabia de antemão a resposta a receber. E os laços? Laços de enfeite, de embrulho de prenda comprada na antecipação da surpresa? Laços espessos enfeitados, puxados e repuxados em caracol? Laços de cabelo de menina pequena, cetim brilhante, ataviando fartas cabeleiras? E os Laços?

Os laços, respondeu, damos com todos os outros na vida. Laços por vezes coesos daqueles que não desmancham facilmente, e até dos outros que quando sentimos desfazer apertamos uma ponta, exaltando a nova laçada. Outros? Bom, outros lassos em laço de pouco querer feito.

Gostei tanto da explicação que me aventuro a escrevê-la.
Não tão bem como a ouvi que de expressão de olhos sorridentes e serenos foi feita.

Mas ainda assim ..

porque ..



Que tristeza é essa que te faz chorar?
Que tão terrífico se passou que te coloca essa mágoa nos olhos, outrora brilhantes e confiantes?
Que mal vem ao Mundo assim de repente e em vagas de lágrimas que caiem grossas, imparáveis, cara abaixo sem que nada faças para as travar?
Não o consegues, adivinho, é mais forte que tudo, e o peito soluça em estertor anunciando uma morte calculada, provavelmente desejada.
Que tristeza é essa que te ensombra o sorriso, outrora aberto e confiante de quem sabe o que quer?
Que angústia é essa?

Quando se está triste está-se porque, advogam as leis que na consequência colocam uma causa, coisa arrumada, matemática e sem sentir.
Mas tu não o sabes explicar.
Choras simplesmente e à vista de todos.
Sem pudor.
Como se já não interessasse.
Interessa?


Porque só esta semana já me cruzei com três mulheres que choravam.
E o meu sentir fica de luto quando isto acontece.

segunda-feira, maio 19, 2008

.. sorriam

A princesa em festa de anos de uma amiga de sempre, marcada no polidesportivo de uma das nossas Universidades no Centro da Cidade. Sábado de tarde, tarde de sol, amena, e a mãe a equacionar voltar tudo para trás e aproveitar as três horas disponíveis para desfazer o monte de roupa para passar a ferro que se acumula sem vergonha no cesto, ou finalmente aquela volta que a despensa precisa e merece.
Ideias rapidamente afastadas, livro debaixo do braço e a convicção de que o jardim estaria ainda como se lembra. Pequeno, acolhedor, dos poucos ainda bonitos, no centro da cidade.
A princesa entregue em alegres brincadeiras e saudades de quem há muito não se vê, até logo, até logo, e a mãe sentada num dos bancos do jardim, que continua como se lembra, livro debaixo do braço. Sozinha. O Livro tem-na surpreendido agradavelmente, Luís Naves na sua primeira aventura literária, ele que todas as semanas lhe dá textos magníficos num blog conhecido da praça ;) .. ar levemente ausente, livro agora no colo em observação ao redor.
Concentra-se finalmente não sem antes se ter apercebido do deslevo com que é cuidado aquele espaço, o chão limpo, madeira dos bancos arranjada e bem pintada. Flores e pequenos canteiros por todo o lado e uma árvore frondosa com sombra simpática que a acolhe sorrindo ao sabor de uma brisa suave que não chega a despentear cabelos.
Concentra-se e reinicia a leitura interrompida na noite anterior.

Não sabe quanto tempo passou até que aquela voz que provavelmente soaria há algum se tornasse realidade audível, sobressaltando-a ligeiramente como quem acorda de um sonho acordado.
Sim? Pergunta sorrindo e a expressão que a acolhe é de puro espanto.
O rapaz à sua frente, olhos azuis imensos que no espanto parecem ainda maiores. A expressão é cansada, roupa puída mas limpa, sapatos maiores que o número a calçar, cabelo louro em desalinho e um pedaço de cartão na mão.
O seu olhar interrogativo, livro ligeiramente afastado, desbloquearam-lhe a fala. Falava de Sida disse a medo, e há muito que ninguém me dirige assim um sorriso, senhora. Corou ligeiramente. O pedaço de cartão empunhado à sua frente, como que a protegê-lo. Os olhos pregados nos meus à espera.. de outro sorriso?
Equacionei as hipóteses. Outro sorriso que em nada me custava, custar-me-ia a leitura de um livro que poderia retomar em breve. Que estava a gostar de ler, no alheamento daquele jardim deserto, numa tarde de Sábado sem princesa. Sozinha. Outro sorriso alimentaria a alma daquele ser que ora num pé ora em outro, se equilibrava à minha frente, meio corado, mal vestido, carente de atenção. Sem nada pedir em troca.
Sorri de novo. As pessoas andam muito ocupadas nas suas vidas .. proferi consciente do chavão. Sente-se, convidei.
Sentou-se, a medo, e completamente chegado ao ponto oposto do banco de madeira.
Mais um pedaço e cai, pensei.
A conversa surgiu solta como se conhecidos fossemos.
Confessou-me ser seropositivo, abandonado pela família, ao cuidado de uma qualquer associação da nossa Cidade. Contou-me como passa os dias tentando alertar as pessoas para o perigo da sida. Além do cartão, de sua autoria, que me mostrou orgulhoso das palavras gritantes escolhidas para chamar a atenção, havia um pequeno saco preso à cintura com uma série de panfletos que distribuía a quem passava. Principalmente nas escolas, refere, é necessário alertar os jovens para isto, menciona como se jovem já não fosse. Mas ninguém me liga nenhuma, conclui tristemente, olhos no chão, as pessoas não querem saber, sabe? Passam como se eu fosse invisível. Na maioria dos dias é assim que me sinto. Invisível. Por isso o meu espanto há pouco ao abordá-la. O seu sorriso senhora. Já ganhei o dia com o seu sorriso, desculpe, estou a abusar, de novo corado, de novo olhos no chão.
De novo aquela sensação de que padeço vezes de mais. A falta de auto estima alheia é algo que me incomoda. Seja na forma de um seropositivo, de uma colega de mal com a vida, de uma amiga de mal com o amor.
Aperto-lhe a mão na despedida. Faz menção de lhe depositar um beijo, ficando a meio, respeitoso.

Falei-lhe da vida que nem sempre é a que sonhamos. A que queremos. E a que merecemos.
Mas da obrigação premente que temos de a tentar amenizar, vivendo-a. Ganhaste um dia uma corrida tu .. digo-lhe pela juventude que me inspira.. Não está ainda na hora de deitares fora o troféu.
O meu sorriso passou para aqueles lábios sofridos, de menino homem a caminho do nada. E partiu sereno, costas direitas, e mão a ajeitar o cabelo em desalinho.
Oxalá consiga entregar os panfletos do dia, pensei, e com isso acordar uma ou outra consciência, ele que sofre na pele e na alma o resultado de ter tido a sua adormecida.

Quanto a vós meus Queridos e Pacientes Leitores .. sorriam *

sexta-feira, maio 16, 2008

oh yes they will ..



“things will go wrong in any given situation, if you give them a chance”
Mr. Edward A. Murphy, who else? .. ;)

So, don’t !

And have a charming week end you all*

.. haja quem

Sem saber ler nem escrever..
Sem saber ler nem escrever ajuda a filha a fugir ao genro, de cada vez que entra em casa avinhado. Esconde os netos debaixo da cama, tranca a filha na casa de banho minúscula, oxalá ele nunca se lembre de lá a procurar.. “ a porta é de papel, não sei que será se lhe dá um encosto”
Sem saber ler nem escrever, metro e meio de gente encurvada e “mais baixa, menina, estou muito mais baixa do que era”, enfrenta então o colosso, em voz de mel terna como quem embala um menino, fervendo por dentro na vontade que voe a frigideira que tem na mão na direcção do crânio do borracho. Cozinha-lhe os ovos mexidos como ele gosta, cheios de sal e com um pouco de leite, que há que ensopar todo o vil espírito que consome há horas no bar do Alfredo. “Amanhã já tenho outra conversa com ele”, conta-me enquanto dobra a roupa, perfeitamente engomada no cesto da passagem. “Conversa de homem para homem” (sorrio da expressão) .. “se ele pensa que enriquece à custa dos Meus está enganado”.
“Velha, só tu me entendes! E ninguém faz ovos como tu!” rosna-lhe a “besta” .. “era só o que faltava, a minha filha fá-los muito melhor, fui eu que ensinei e ela tem ainda a mão firme na gemada”. “Anda come-os e cala-te para te ires a deitar meu sem-vergonha!” é o máximo que lhe diz, ainda arrepiando caminho quando o vê olhá-la de modo ameaçador.
Isto não pode continuar Dª Alice, digo-lhe mansamente que sei que não gosta que se metam.
Gosta assim de desabafar, como se fosse com ninguém, enquanto me afaga a mão, mas isso não me dá direito a sugerir-lhe o que quer que seja. “Pois não, Menina, Pois não. Que fazer? Olhe, aturar e cara alegre. Enquanto eu for viva lhe garanto que não toca nos Meus. Ai não toca não que ainda tem cara para levar umas bofetadas.” .. levando-me a pensar quantas será que já levou, quantas evitou, em quantas se envolveu para “salvar” os “meus” como diz cheia de propriedade e preocupação.
Sem saber ler nem escrever.
Vela pela vida dos seus e por quem lhes faz mal.
Tudo com o mesmo deslevo, a mesma voz mansa e terna, mesmo fervilhando por dentro. Mesmo sofrendo.
Haja quem vele por ela.

quinta-feira, maio 15, 2008

que te diz?

(envergonhado e humilde ensaio, tentativa de coisa nenhuma, que me soube bem)


Que te diz, que te diz?
Que te traz o vento que abraças?
Em sorrisos que abarcas
Este mundo e mais ainda
O mar
O rio
O verde

Que te diz que te diz?
Que te traz a tempestade?
Feita de raios de lua
Que te diz o mocho?
Que te sussurra a coruja?
Que te diz que te diz?
A pérola que trazes no coração
Tão brilhante e tão pura
Que chego a sentir amargura
Sabê-la por mãos errantes

Que te diz que te diz
Dir-te-á que te amo?
Que te quero e venero?
Dir-te-á que te engano?

Dir-te-á que me engano.

Crescendo (XXV)


A propósito deste post do Miguel, no Combustões, a quem e de quem já me confessei leitora assídua e admiradora, lembrei-me de um episódio recente no reino lá de casa.
O fim-de-semana estava de sol e calma. Programas não nos faltam, e a ida à Biblioteca Nacional estava na ordem do dia, pedido antigo de quem quer ver ao “vivo” uma carta de Foral, “por favor Mamã”. Contudo, um teste de Ciências da Natureza ensombrava o horizonte próximo para quem tem de fazer uma concessão ao estudo.
Este ano tem.
Não me lembro de ter estudado com a minha filha desta forma até agora. Uma primária brilhante de menina de quadro de honra sem muito trabalho, sem muito tempo dedicado aos livros de estudo, que aos outros..
Depois, o 5º ano não começou da melhor forma como o atestam os desabafos que na altura fui deixando por aqui. Ciências da Natureza não é uma disciplina fácil para uma menina que aos 10 anos de idade quer ser historiadora ou escritora, agora, tendo já passado por pianista, bailarina, (o que pratica) e ainda Professora de Ensino Especial. Mas fiquemos na possibilidade mais recente: Historiadora ou Escritora. “Para que é que eu preciso de saber isto?” É a pergunta mais frequente quando se estudam chaves dicotómicas ou revestimentos de pele. “Não vou usar nunca isto na minha vida mummy!” É outra expressão quando se abordam os reinos animais e vegetais e os outros que “não são carne nem peixe e nem se vêem, portanto!
Claro que quando lhe devolvo a pergunta sobre as pesquisas que faz das biografias dos Reis ou o porquê de encomendar no simpático e prestável Circulo de Leitores um livro que se intitula Mundo Antigo, faço-o por provocação, e recebo invariavelmente a resposta de olhos faiscantes “É história Mummy!” .. claro que é História, a mesma que a Mãe gostaria de ter seguido em termos de formação Académica, não fossem as vicissitudes da vida que me atiraram para uma via completamente diferente. E de facto, isto do “runs in the family” tanta vez em vão invocado, toma contornos reais. No nosso caso, quase “assustadores” ;)
O fim-de-semana de sol e calor, nuvem ligeiramente ameaçadora em forma de teste de Ciências da Natureza, e a princesa a adiar a visita à Biblioteca, a ida à praia e a brincadeira com a amiga, para nos sentarmos em solene sacrifício à mesa da sala, ladainha sem interrupção, as fases de uma ETA, os comburentes combustíveis e os outros, a estratosfera e a troposfera, e por aí fora que vos poupo. Prometo.

Trabalho. Muito trabalho.

Acho eu, que fiz o quinto ano do liceu há uma eternidade, demasiado trabalho.
Aprecio-lhe a dedicação enquanto vai fazendo apontamentos da matéria abordada. Sei que é uma matéria da qual não gosta. O esforço é portanto ainda maior dado que menor é a disponibilidade mental em se envolver.
Ontem, ligou-me a meio do dia, coisa que já raramente faz, numa gritaria capaz de furar tímpanos, com a notícia que no teste de Ciências de Natureza tinha tido uma nota inédita.
98% Mummy, 98%!

quarta-feira, maio 14, 2008

preocupada ..



(DN on_line)

Não sei o que pensam vocês sobre isto.
A mim, além de me preocupar muito e enervar ligeiramente a empatia visível entre os dois Chefes de Estado, fico ainda algo ansiosa sobre como vamos nós fazer isto a troco de um copo de leite .. perdão, desculpem, é petróleo, isso sim.


E a título de justificação desta minha apreensão deixo-Vos alguns headlines breves e recentes sobre a situação no nosso País:

Mais de dois milhões de pobres
Um dos maiores índices de pobreza infantil
20% da população portuguesa com rendimentos mais baixos recebe apenas 5,9% do rendimento líquido nacional
A chamada pobreza subjectiva afecta 44% da população masculina e 35% da população feminina
Uma percentagem considerável de famílias endividadas em 120% do seu rendimento líquido mensal
Escolas, hospitais e outras estruturas em falta.
Desemprego.

Não sei o que pensam vocês sobre isto.
Mas eu estou-me perfeitamente nas tintas para que o Senhor tenha fumado um cigarro num avião que fretou para a viagem a Caracas.
Preocupa-me sim que lá tenha ido.

.. pedaços


.. parada na fila respeitosa e pacientemente, aguardo o andar lento e cadenciado de quem está a ser atendido. De quem pergunta e volta a perguntar pequenas dúvidas que parecem grandes problemas. As funcionárias por detrás dos guichets esforçam-se em sorrisos e disponibilidade mesmo que por vezes uns olhos em alvo advirtam o mais observador que a paciência, esse bem pouco material e tão necessário, está a entrar no que costumo chamar “red line”.
À minha frente uma senhora curvada, lenço pelas costas, vestida de negro, cabelo branco, liso, bem preso num carrapito que me faz lembrar a minha querida Tia Rita, sempre bem-disposta, cozinheira de uns pasteis de massa tenra como nunca voltei a comer, que nos abraçava a todos com o sorriso que nos estendia ainda mal tínhamos começado a subir a rua.

Sentados nos bancos de espera aguardam particularmente pessoas de idade e grávidas. Mesmo com uma fila própria para elas são tantas, que ocupam dois bancos de pau corridos, desconfortáveis, desdobrando-se em posições que lhes permitam algum conforto. As barrigas maiores mexem-se mais. Sorrio lembrando-me da expressão que utilizava na altura .. “tenho criança até à garganta, isto já não tem graça nenhuma!”, como que zangada comigo mesma, para gozo e risota dos amigos. Lembro-me bem do Verão em que a princesa nasceu, 40º à sombra, e eu a trabalhar até ao último dia com a hierarquia aos gritos que se me acontecesse por ali alguma coisa ele não saberia o que fazer! Como não? perguntava-me intimamente, tens cinco filhas, for Christ!
Volto a concentrar a minha atenção na senhora de idade à minha frente. Solta-se do fato negro um leve perfume a lavanda e reconheço imediatamente o cheiro das gavetas da minha Avó. Pequenos sacos de folhas secas para as quais na altura não tinha ainda nome, era confeccionados no Inverno, com laços de cetim a prender as minúsculas pontas, tecidos floridos e cheirosos, que, quando prontos, arrumávamos discretamente nas gavetas. Nada de cheiros muito intensos para não mascarar o perfume diário. Mas perfeitamente reconhecível naquela figura à minha frente que começava a dar sinais de cansaço ora apoiando-se numa perna, ora em outra. Volto a sorrir porque me lembro agora das filas intermináveis em que já estive, da quantidade de tempo imensurável que se perde a tratar deste papel, pedir aquele adiamento, pagar a outra conta. E lembro a princesa, pequena companhia destes infortúnios, sentada nos meus pés, pequenita e paciente. Aposto que esta senhora gostaria de ter como se sentar.
Engraçada esta coisa da memória. Assim, em fila de espera obrigatória, porque a voz da menina que me atendeu o telefone aquando o pedido de explicações me disse taxativamente e com todas as letras “não, não pode ser pela Internet, a senhora tem de cá vir” acabo por me prender em pequenos detalhes que me rodeiam, que me lembram outros tantos.. A senhora avança e sai da fila, desistiu, pensei. À pergunta “posso ajudar?” respondo-lhe com um Bom Dia e apresento os papéis que me levaram ali. “Não é hoje minha senhora, responde-me simpática a menina do guichet. O seu processo está marcado para 2ª feira. Vai ter de voltar, se fizer o favor”.
Voltarei. É evidente. O interesse é meu. Mas primeiro vou ali comprar um calendário, uma agenda, bloco ou folha de papel que me poupe a outra .. ou talvez não.
Pode ser que volte a encontrar tão frutuosa companhia que me permita recordar enquanto espero .. respeitosa e pacientemente.

terça-feira, maio 13, 2008

trials ..


Mais um desafio do Amigo Réprobo .. desta vez, algo complicado como “definir-me”. Se me conhecesse melhor nunca me colocaria uma tal questão meu Amigo, mesmo disfarçado de Inquisidor (risos).
Portanto, vou escrevendo à laia de aviso, definir-me em palavras é coisa de “pano para mangas compridas” não por qualquer assomo de vaidade mas simplesmente porque a minha incapacidade de resumo é brutal.
Ainda no outro dia, a título do que acredito “runs in the family” a Professora de Português da princesa me dizia “..delicioso ler a sua filha mas o resumo do Capítulo que lhe pedi, virou livro” .. sorri, meio envergonhada, porque sei que a incapacidade dela foi herdada. E sou eu a responsável.
Seis palavras que me definam e uma imagem.
Credo.
Já atentaram bem na quantidade delas que já escrevi até aqui? Imensa.
Para dizer o quê concretamente? Nada.

when you judge the others you are not defining them .. you’re defining yourself” ..

.. não são seis, que ainda sei contar, mesmo sem saber ser sucinta, abreviada, concisa, lacónica, precisa e sumária ;) mas são as que melhor definem a minha postura perante esta prenda que recebi há uns anos: a Vida

sexta-feira, maio 09, 2008

Happy day .. joyful Life *

Este fim-de-semana é especial.
Não por ansiar enriquecer com qualquer dos sorteios que prometem milhões, não porque me ausentarei na viagem dos meus sonhos, ou porque finalmente poderei comprar o que quer que me faça muita falta, agora assim de repente não me lembro de quê, mas algo haverá certamente, não porque nada que se prenda com algo material, realizável ou a realizar.
Este fim-de-semana é especial.
Pelos aniversários que permitiu numa feliz coincidência (e não me digam que as não há), irmã e sobrinho celebram o dia de Nascimento no mesmo dia. E poderia até ser irmã de um lado, sobrinho de outro, mas não, é mesmo irmã (quase filha) e sobrinho e afilhado (quase neto).
Este fim-de-semana é especial.
E hoje, num recordar destes 26 anos que passaram mais depressa que aquilo que quereríamos? Ou talvez ao ritmo natural .. vem-me à memória a imagem da garota rabina, olhos negros perlados por umas pestanas de assombro, enérgica e teimosa com só eu sei (risos) .. em abraço apertado. Recordo um bibe constantemente sem botão, já na altura a aversão perante qualquer tipo de fardamento era notável. Recordo uma cicatriz feia e profunda, fruto de inquietude que caracterizava tudo o que se propunha conseguir. E recordo tanto mais, felizmente partilhado, felizmente vivido.

A Ti .. e ao teu Filho, que a Vida vos sorria sempre .. e mesmo quando uma lágrima teimosa seja necessária, deixem-na secar e lembrem-se: todo este percurso, a que chamamos vida, nada mais é que uma Dádiva.
Aproveitem-na.


Desejo-vos a todos um brilhante fim-de-semana *

a propósito ..

disto e disto e ainda disto também.

..”if the misery of our poor be caused not by the laws of nature, but by our institutions, great is our sin”

Charles Darwin (1809/1882)

quinta-feira, maio 08, 2008

Fiend, wicked, cruel .. Monster!

O advogado de Josef Fritzl, Rudolf Mayer, afirmou que o seu cliente «não é nenhum monstro mas uma pessoa», mesmo que para alguns o que ele fez ultrapasse os limites do compreensível».

Claro.
“O Senhor Fritzl não é nenhum monstro”. Não no sentido de “green eyed”, por exemplo, como o Mestre explicou o ciúme .. não no sentido “Senhor dos Anéis” com orelhas pontiagudas, pelos por todo o lado e dentaduras terrificas e amareladas a inspirar o nojo. Não no sentido “Pirata das Caraíbas” aos quais ainda hoje afasto o olhar.. Não no sentido daqueles que em criança, algumas crianças achavam que residiam debaixo das camas e dentro dos roupeiros. Ou dos outros, simpáticos e peludos, objecto de um dos melhores filmes infantis de todos os tempos.
“O Senhor Fritzl não é nenhum monstro”. Não no sentido abstracto da questão.
Antes fosse.
Poderia ser que na aberração de tudo o que sei este senhor perpetuou durante 24 anos se tornasse, como que por passe mágico de quebra de feitiço, uma personagem simpática.
“O Senhor Fritzl não é nenhum monstro”.
Durante 24 anos, prendeu e abusou a sua própria filha, numa prática que havia começado tinha a criança apenas 11 anos.
Durante 24 anos, gerou filhos, à filha, em catadupa alguns dos quais, ao que percebi, foram por ele criados, numa perfeita encenação de abandono materno, no andar de cima da casa onde se passava esta abominação.
Durante 24 anos, consciente e premeditadamente, ausentou-se em temporadas, justificadas pela profissão, para poder adquirir os mantimentos necessários à manutenção de duas famílias, uma consideravelmente maior que a outra, sem levantar grandes suspeitas.
Durante 24 anos, manteve a sua prole trancada numa cave. Sem ar, sem Luz, sem nada.
Mais: Manteve-a trancada numa cave, abusando, punindo, matando.
24 anos! Quase um quarto de século. Uma vida.
“O Senhor Fritzl não é nenhum monstro”, avisa-nos comedido o seu Advogado, a quem admiro a capacidade de defender o indefensável.
Não é.

Mas acredito que em todas as noites do seu cativeiro a sua filha tenha desejado que fosse.
Um monstro de pesadelo, a quem o abraço paterno e o “pronto, pronto, já passou” fizessem evaporar.

Porque é este o Papel de um Pai.



ver a brilhante interrogação da Cristina Ferreira de Almeida, aqui

quarta-feira, maio 07, 2008

Este hoje é para ti Pai


A Beira é solidez, mulher vergada no campo,
homem fora o dia todo, atrás de rebanho.
Menina no rio lavada, trouxa de roupa à cabeça,
pé descalço no mato, arranhadela.
A Beira é terra bravia pintalgada de giesta
passeio de fim de dia, cheiro a pinha e eucalipto.
Amora doce, silva que arranha os braços queimados do Sol.
Azeite dourado em lagar, vinho pisado em canção
calça arregaçada, trabalho árduo em brincadeira aliviado.

A Beira é a ovelha tresmalhada, preocupação de pastor, cão leal em palhota de céu de estrelas,
Penhasco, vereda, caminho de cabra.
É calor abrasador, frio de neve que greta a pele, samarra de pele curtida, contra a intempérie.

A Beira é seara madura, dourada do vento
e terra em verde milho semeada.
Horta pequena, alface, couve e batata
Casinhoto de pedra, lareira acesa e queijo acabado de coalhar
.. ordenha, leite quente e saboroso, cheio de nata a boiar.

A Beira é recordação de infância,
momentos partilhados,
alguns sofridos,
alguns zangados.

Mas hoje, neste dia, a Beira é tua, Pai.

segunda-feira, maio 05, 2008

considerandos.. de experiência feitos.


Tenho acompanhado a polémica sobre as raças de cães consideradas perigosas. Vejo o horror das feridas abertas por aquelas dentes afiados e assustadores, imagens a que não nos poupam os nossos canais de televisão principalmente à hora do jantar. De cada vez que o assunto é abordado, privada ou publicamente, lembro-me da minha cadela de raça Doberman. Objecto de uma oferta há muitos anos atrás, foi conscientemente escolhida no meio de uma ninhada calma. O único "bebé" que me rasgou de imediato a meia de seda fina, foi a sortuda que me acompanhou a casa (risos).
Uma cadela meiga, zelosa, confiante na sua dona, muito brincalhona (demasiado, por vezes) que se rebolava na relva com os meus irmãos, na altura crianças pequenas, perante o olhar horrorizado de todos quantos, desconhecidos e desconhecedores, assistiam às “brincadeiras”. Cadela possante, vigorosa, de corpo atlético muito culpa dos verdadeiros exercícios a que a submetia, e ela a mim, em alegres correrias nas praias desertas do Guincho aos fins-de-semana. Cadela protectora, que intimidava qualquer aproximação mais afoita quando a passeava de madrugada no local quase deserto onde residia. Cadela que me fazia sentir totalmente protegida a qualquer perigo viesse ele de um assobio desajeitado ou de alguma tentativa de aproximação. Nunca tive de lhe refrear os ânimos ou controlar as atitudes perante terceiros, excepto, quando em uma ocasião, tentados a invadir o quintal sem autorização fui alertada pelos gritos de duas personagens que, conseguindo saltar o gradeamento para o lado de dentro, não havia como sair fugindo ao bloqueio que a Tema (não me perguntem o porquê do nome) lhes fazia, sem ladrar, rosnando baixinho a uma distância razoável. Lembro-me de a ter chamado em voz baixa, ao que obedeceu prontamente e de me ter dirigido aos incautos. Era por brincadeira, acabaram por me confessar. “Costumamos saltar os jardins, por brincadeira”, afirmaram em conjunto. Na altura nada fiz além de muitas festas na minha guardiã e um “muito bem!” sonoro para que percebesse que era isso que eu esperava dela. Dentadas à parte, bastava a sua figura, pelo negro e lustroso arrepiado na espinha e aquele rosnar de quem avisa “nem mais um passo”!

Obedecia-me à voz, ao sinal dos dedos. Perdi horas a treiná-la sem ter de lhe ensinar quase nada que não tivesse nascido com ela. A protecção da casa, a protecção da dona. E o andar ao meu lado, coisa que enquanto cachorra era completamente impossível. Adulta, acompanhava-me o passo, esperava à porta do café e do supermercado e raramente se "ofendia" com os olhares castradores dos que passavam para o outro lado do passeio no cruzamento. Inclusive pareceu-me ver-lhe um pequeno “sorriso” quando um dia uma alma mais corajosa, não sei se por tolice, me abordou perguntando-me se eu sabia que tinha uma arma na trela e que mais cedo ou mais tarde teria de a mandar abater. Agouro, felizmente, caído em saco roto.
Foram vários os dogmas que tive de desfazer.
As conversas, na altura, com o veterinário dos cães que tive durante a minha infância e adolescência, ajudaram-me bastante a compreender esta raça e a desculpar o que dela e em nome dela se fabricou na mente de alguns.
Nunca tive uma má experiência com a minha cadela.
Mas tive várias com os vizinhos da zona onde vivia. Pessoas que diariamente a provocavam com paus e pedras no gradeamento, para que mais tarde se pudessem queixar que era violenta e ladrava muito.
Nunca a minha cadela foi violenta. Mas várias foram as vezes em que a violência de palavras e actos lhe “caíram” em cima.

Não quero com isto desculpar em nada o objecto das noticias que vêem actualmente a lume sobre os ataques de pitbull’s e outros considerados perigosos. Até porque a raça da minha Tema nem está nessa lista. Mas, tendo vivido com a condenação pública e injustificada, sei, por experiência, que muitas vezes o julgamento rápido e o tiro no escuro, provocam considerações e movimentações que vão para além do razoável suportar.

Por nós e pelos nossos animais.

sexta-feira, maio 02, 2008

.. momentos de leitura (V)

A doce Pinderiquice, mais um texto assertivo e “sem papas nas teclas”, do Miguel, no Combustões.

Silent Tsunami, do Rui Perdigão, no Vida das Coisas, tema igualmente abordado, com brilho, pelo l. rodrigues na sua ignorância não especializada.
Não deixa de ter graça (amarga) constatar que fora da blogosfera não se ouve falar, por aí além, destes temas. Há até quem os desvalorize numa tentativa de não "apanicar" - termo que demorei a entender ao que se referia.
E o povo continua alegre e rindo .. circo, tanto circo, mais circo .. digo eu que “não posso” com o mal dos outros.

Num registo totalmente diferente e talvez para fazer lembrar a cépticas e preocupadas como eu que há Sonhos, indeed ;) .. As Crónicas de Uma Viagem do Mike, na sua desconversa cheia de um detalhe que me encanta e me transporta como se o viajante fosse eu.

Desejo-vos boas leituras e um excelente fim-de-semana *

Crescendo (XXIV)

Where are you princess? – pergunto-lhe da cozinha na intenção de lhe pedir qualquer coisa ..
A escrever no meu diário mummy! – responde-me do quarto, ficando o meu pedido na intenção ;)
A princesa mantém um diário actualizado, penso que, à semana. Caderno grosso cheio de folhas e capa amarela presa por um elástico, muito parecido com o diário das nossas viagens, qual exploradora do insondável pré-adolescente. Mantém-no há dois anos e foram já várias as vezes que mo entregou num Mummy queres ler? Ao que lhe respondo, queres que leia? Acenando a cabecita e ficando a observar-me atenta às expressões que vou fazendo .. escreve cheia de detalhe sobre tudo e sobre nada, há quem diga que sai à mãe, e consegue de um acontecimento relativamente simples e sem grande importância extrapolar para a generalidade, analisando as suas próprias atitudes face a uma qualquer eventualidade que tenha merecido honras de registo.
Está contudo a crescer a princesa lá de casa. E ontem o “mummy queres ler?” foi substituído por um “mummy lê aqui, por favor, e diz-me se sou eu que estou errada!” desespero em busca de aprovação que ela sabe, porque me conhece como ninguém, que nunca é gratuita ou inerente à relação.
Desta vez o problema prende-se com a actuação de meia dúzia de meninas tolas que infernizam a vida das mais novas na escola.
Meninas “idiotas” como eu as apelido que se dedicam a “roubar” os lanches, as senhas, os bonés e tudo mais que sabem irrita as pequenas do 5º ano, só descansando quando as vêem a chorar.
No refeitório, iludem a vigilância para pregar partidas em que invariavelmente uma das visadas fica sem comer.
E gozam. Maldosamente gozam a corda de saltar, herança de uma primária recente, o jogo do elástico ou as escondidas que ainda pautam o tempo livre de intervalo. Montam verdadeiras perseguições às pequenas à espera quem sabe de um intervenção adulta .. já esteve mais longe confesso, mas nestas coisas gosto de a deixar resolver as questões desde que, obviamente, não me pareçam sérias em demasia.
A falta de justiça porque as outras são mais fortes, maiores e mais velhas, empurram e magoam, provoca na minha uma fúria quase “cega” e uma reacção cheia de palavreado do tipo “se fosse contigo, não ias gostar” ao que recebe invariavelmente uma resposta torta e mal-educada.
Queda-se na impossibilidade de utilizar os mesmos advérbios pouco próprios, e na semana passada acompanhou uma dessas pequenas ao Conselho Directivo para, final e tardiamente, apresentar uma queixa.
Era esta incursão na autoridade a que lhe custa recorrer não fosse o termo “queixinhas” banido do nosso vocabulário, que deu origem a registo no Amigo Diário.
Recebidas por um professor, expõem o que as consome e identificam os elementos destabilizadores e aterradores, no caso. É-lhes dito que há outras queixas, e que por várias vezes os encarregados de educação foram chamados à escola. Voltam à fila do refeitório e são interpeladas por uma funcionária que as segue para identificar "in locco” as "más" da fita.
São elas sim, diz a minha filha em voz clara, desafiando o temor.
A reacção das visadas não se fez esperar.
Que nunca mais se metem com elas. Que nunca pensaram que tivessem tal coragem. Que por norma as “minorcas” calam-se e não “bufam”!

Tristes educadores estes que nos povoam a realidade e nos fazem conviver com a prole que inconscientemente e sem escrúpulos vão espalhando pelo Mundo.
Demasiado ocupados nas suas vidas pequenas sem perceberem que a vida "infantil" que geraram se dedica a infernizar vidas alheias.

Vai para eles, Pais, a minha pena hoje.
E um voto: que não venham a ser vítimas da maldade dos monstrinhos que (não) educam.