sexta-feira, abril 11, 2008

inspiração de momento ..



A Luísa não só tem uma sensibilidade invulgar na escolha das cores e cheiros a reter, como um bom senso inigualável nas letras que escolhe da nossa Língua Mãe.
E, ainda por cima, partilha tudo isto connosco :)
Luísa, para si esta pequena inspiração de momento.

fotografia, pedida emprestada, daqui



E a Dª Emília, por detrás da janela de cortina de renda corrida, sempre se perguntou porque diacho haveriam de ter pintado aquele pequeno prédio à sua frente de amarelo. As portadas verdes nas janelas faziam-lhe ligeiramente lembrar as grandes portadas de madeira que fechavam as janelas da casa dos senhores há tantos anos atrás. Já nem se lembrava quantos. Mas aquele amarelo..
Tenho de ir ao pão, pensava, enquanto alinhavava o tecido leve para mais uma cortina branca e imaculada com que brindava as janelas velhas de madeira carcomida. Mas a subida, aquela subida íngreme e escorregadia do orvalho da noite custava-lhe cada dia mais.
Há quantos anos tinha vindo para a grande cidade .. perguntava-se .. há quantos anos vivia ali naquele casinhoto de duas pequenas salas e uma cozinha que hoje lhe dava mais trabalho que sei lá com os canos a gotejar e o lavatório sempre entupido por razão nenhuma .. há quantos anos chamava aquela a sua casa, o seu ninho, sabendo que nunca a trocaria por outra qualquer em outro local qualquer.. impensável abandonar a sua rua.
.. a Ermelinda, sua vizinha do lado havia já fechado o dela e abalado para casa da filha, para os lados do Cacém, dispondo de um quarto novo a estrear só para ela e uma cozinha que fazia inveja à dos melhores hotéis da cidade, pensava ela convicta de nada dado que nunca tinha sequer entrado em algum. Telefonavam-se uma vez por semana, a Ermelinda encantada com o neto acabado de nascer mas a confidenciar-lhe saudade da árdua subida que ambas percorriam para ir ao pão.
Ai o pão ..! que me esquece o pão ..

Bom fim-de-semana *

9 comentários:

Mike disse...

E por culpa da Dª Emília, não, da Dª Ermelinda, quer dizer, da Miss Once, não, do pão... ai que me perco... da escrita inspirada de momento da Miss Once... agora sim (risos)... deu-me a fome (risota)...

Luísa disse...

Querida Once, confrontam-se, de facto, na cidade, vários mundos de incompreensão – mas, felizmente, também de tolerância – no que respeita a visões estéticas e maneiras de estar na vida. A estranheza da D. Emília perante a cor amarela do prédio fronteiro é extraordinariamente típica. Como o é a sua vaga «nostalgia» de um dia-a-dia mais «asséptico» num prédio novinho em folha dos subúrbios. É lamentável mas muito realista na Lisboa antiga o detalhe dos canos que gotejam, do lavatório entupido e das consequentes infiltrações. Neste expressivo quadro, «invejo» a sugestão de bairro popular, de uma vizinhança familiar e prestável. E a ida ao pão, que imagino pela manhazinha, ainda lavada do orvalho e impregnada de um cheiro a manteiga e bolos quentes. Obrigada pela sua inspiração… :-)

Once In a While disse...

mike .. :)

Luísa .. gostei muito do seu comentário ao meu comentário sobre a sua fotografia :) temos equipe (?) risos ..
Beijinho e bom fim-de-semana .. eu vou ocupar a manhã do meu à procura desse cheiro de meninice que me lembro bem .. bolos, manteiga e pão acabado de cozer ;)

cõllybry disse...

Sempre bom de ver a amizade declarada...também eu não gostava do amarelo, mas aprendi a gostar...
Doce é a hstória da DªEmilia...

Doce meu beijo e meu rastooooooo

Aqui em poemas_____

http://haflordapele.blogspot.com

Aqui em pensamentos

av disse...

Delicioso texto, Once, a casar na perfeição com a belíssima fotografia da Luísa. Boa parceria, não há dúvida!
Um beijo a ambas

fugidia disse...

Sim, excelente parceria...
E agora que me estreei, foram logo dois comentários de assentada :-)
Um bom fim-de-semana :-)

Once In a While disse...

collybry declarada e manifesta a amizade ou não fará qualquer sentido .. :)

Querida Ana grata por essas palavras eu .. beijinho *

Cara Fugidia :) em primeiro lugar bem vinda a estas linhas * Obrigada pelo seu contributo *

O Réprobo disse...

Querida Once,
sigo inteiramente o que reconhece à Arte da Luísa, agradeço-Lhe a Sua, aqui expressa, adicionando ainda um reconhecimento extra - o de tratar o prédio como amarelo (até no sentido desconforme do sindicalismo) e não como limão, tal o receio de Outras Amigas...
No que toca à moral da história, sublinho que, em matéria de desilusão com os percalços domésticos tornados quotidianos, precisamos de escapatórias... como de pão para a boca!
Beijinho

Once In a While disse...

Caro Réprobo ao limão associo a acidez e sei-as "docinhas" estas vizinhas :)
Quanto às escapatórias só lhe posso dar razão .. que seríamos sem uns segundos das mesmas por dia ..
Grata.