quarta-feira, abril 30, 2008

I wish ..


Sei o que se celebra amanhã, e até sei porquê.
Conheço a raiz do Movimento, a primeira conquista em 1840, a segunda a ferro e fogo em 1856, o Desastre de Chicago, mais tarde o de Paris, os inocentes que morreram a lutar por algo que hoje é, para a maioria dos trabalhadores que conheço, um dado adquirido que nos oferece um feriado, este ano a meio da semana, coisa sempre simpática, uma pausa merecida, uma ida à praia ..

Sei o que se celebra amanhã.

Mas ciente que estou que nada fiz na minha geração para o merecer, e porque gosto de saber porque recebo prendas inesperadas, venham elas mascaradas do que quer que seja, deixo aqui o meu manifesto, a minha assinatura e o meu desejo que dentro em breve se celebre igualmente a erradicação deste tipo de trabalho. Sem horários, sem direitos e sem deveres.






Que em vez da luta por “8 hours work, 8 hours rest, 8 hours fun” a multidão grite:
No Child Labour”!
Porque o direito que adquirem quando nascem garante-lhes um futuro feliz.

Nada mais.

terça-feira, abril 29, 2008

Vai chover. Vai tu ..!



Tenho acompanhado no blog da revista Ler, que ao que sei e congratulo voltou a ser editada em papel, a polémica ao redor da organização da Feira do Livro de Lisboa com a APEL e a UEP em alegres galhardias de quem esquece o fundamental.
Prosas convincentes brotam dos discursos dos vários responsáveis pelas duas organizações adversárias na organização, pouco organizadas afinal. Prosas carregadas de acusações às posturas de cada uma das partes: tu queres marketing, eu quero público, tu queres livros e eu publicidade.
O Fundamental tal como o Essencial do Pequeno grande Príncipe parece invisível aos olhos que se gladiam pelo protagonismo de poder vir a dizer “Fui eu!”.
O Fundamental é o Livro, o fazer chegar o livro, o dar e o vender o livro.
O Fundamental somos nós que todos os anos, sol ou chuva ou ambos, engrossamos as vendas do recinto na procura daquela obra, daquele título e daquele autor que sabemos, ali de certeza, encontrar.
O Fundamental, são as simpáticas sessões de autógrafos, na possibilidade assim feita realidade de vermos, conversarmos e conhecermos quem nos modela o imaginário em leituras pelo ano fora.
O Fundamental é o respeito pela Obra impressa e publicada, fruto por vezes de sacrifícios que vão para além do nosso entendimento, penas não expressas nas páginas que nos encantam, lágrimas e dores que, se perpassam nas linhas que lemos, nos fazem chorar também, ou por vezes sorrir.
O Fundamental é a Obra, assim atirada em guerras de “sou melhor que tu”, obra rica em ensinamentos esquecidos e desprezados nestas querelas sem sentido.

Por Ela .. fica o meu desejo que se entendam.

Obrigada


Anuindo ao pedido da princesa, Belém – Museu dos Coches.
Disfarço o riso quando a vejo tirar o bloco de apontamentos e a caneta da pequena sacola a tiracolo e atentamente percorrer os quadros dos nossos Ilustres Antepassados, apontando datas, detalhes, ficando por vezes parada a olhar porque daquele Rei, Rainha ou Princesa já falou nas aulas mas ainda não lhe sabia os contornos.
O ambiente do museu, já centenário, e o sussurro dos visitantes, maioritariamente estrangeiros, a meia-luz que dificilmente passa naquele labirinto de tons dourados e bordeaux, contribui para a aura de antiguidade, quase mistério, como se de repente tivéssemos sido todos transportados para, por exemplo: 1640! Mummy .. a restauração da independência face aos “Filipes”, sabes por quem?
D. João IV, o Restaurador, respondi-lhe, deixando-a "furiosa".
Passa por nós uma funcionária do Museu, parando dois passos à frente e observando a conversa. Mira a princesa de apontamento em punho como se fosse desaparecer a preciosa informação a que estava a ter acesso e sorrindo, começa a acompanhar-nos o passo lento, relatando algumas particularidades que não estão no livro de História, numa verdadeira visita guiada aos detalhes de uma raiz que é nossa, deixando a minha filha encantada e tão absorta que o bloco voltou à sacola.
Tudo o que ali está exposto tem uma história, um uso, um autor e um utilizador, e é fácil, pelo ambiente recriado, imaginar os Infantes nas pequenas cadeiras com rodas inventadas em Itália, ou a Rainha acenando ao seu povo em agradável passeio na liteira ornada a vermelho e dourado.
Cada coche serviu um propósito, sendo o eleito o denominado “da Troca das Princesas” com direito a novo apontamento no precioso bloco dada a originalidade da situação. As pequenas caleches de passeio fizeram as delícias da princesa que sem esforço se imagina ali. O Coche dos Meninos da Palhavã pelo objectivo com que foi construído fê-la rir, perante o olhar ajuizado da nossa Guia. De facto, hoje em dia, como entender que os filhos Bastardos do Rei teriam um coche próprio e diferente dos outros?

Acolhidas à saída, por um sol brilhante que nos transporta de novo à realidade, fazendo piscar os olhos, deixámos no sossego da penumbra séculos de história, figuras graves retidas em telas, e um beijo repenicado à Ana Paula, pela sua amabilidade, conhecimento e disposição.

Se há por aqui quem faz o que gosta .. ali há, sem dúvida alguma, quem gosta muito do que faz.

Obrigada!

segunda-feira, abril 28, 2008

..momentos de leitura (IV)

E gostando do que leio, porque não o apontamento à laia de cábula para ser fácil reler .. outro vicio por aqui ..

As mil portas do Inferno do Miguel, no Combustões

Pó que m’avia de dar, do José, no Desinfeliz de Juízo

Minha Casa é palafita, da Sine em Entre o Sol e as Brumas

Observatório, do Pedro Silveira Botelho, na Porta do Vento


Entretanto, passa a pertencer à lista Lateral a Poesia de Torquato da Luz no seu Ofício Diário .. um Diário cheio de letras, poemas, imagens maravilhosas que combinam entre si e nos proporcionam uma paz de sorriso feita. Obrigada *

Repetindo-me ..


Penso logo existo, e a coisa deveria funcionar assim linearmente, quanto baste.
Penso logo existo, e assola-me a dúvida sobre que penso eu para provar a existência.
Penso logo existo, e instala-se o desconforto da existência não pensada ou será do pensamento inexistente?
Penso logo existo, e deixo-me ficar enroscada na tentativa de dar forma ao pensamento .. existência? pensando em como o praticar para o tornar visível, sensível, existente?

Penso logo existo, e perde-se a memória em todos quantos conheço que existem sem pensar, que não pensam por existir, que nem tão pouco questionam a existência.
Penso logo existo, e penso e repenso, estoiro-me a pensar, pobres neurónios em debandada de um cérebro cansativo .. ou será cansado?
Penso logo existo, e de repente apetece-me, sem pensar, existir em pensamento alheio que me torne .. inexistente.



Texto já editado.

quinta-feira, abril 24, 2008

Crescendo (XXIII)

No ano passado, por esta altura, a coisa tinha corrido assim e este ano, diligentes os professores pediram aos pré adolescentes do 5º ano que escrevessem uma folha A4 sobre o que para eles é “Ser Livre”.
Sem cravos e bandeiras desenhadas no papel, uma simples composição cheias de linhas sobre algo que para eles, infantes de uma era tão distante, é normal, relativamente simples e puramente real.
A princesa do reino lá de casa, avisada pela professora que era só uma folha A4, “uma mesmo, menina!” reforça, conhecendo-lhe as incapacidades de resumo, banho tomado e pijama vestido, escreve afincadamente, pernas dobradas em cima da cama (tenho de me lembrar de lhe corrigir esta postura, mesmo quando me responde que na secretária não tem inspiração (risos))
May I? pergunto-lhe sorrindo, vendo-a virar a folha concentrada.

Ser Livre
Ser livre é confiar, brincar e correr
Ser livre é poder chorar e poder rir quando me apetecer
Ser livre é estudar, e perguntar o que não sei
Brincar ao faz de conta
Agora sou um Rei!
Ser livre é ouvir e poder não concordar
É escolher e crescer
Fazer amigos e conversar
Diz a mãe, sempre obedecer.
Ser livre é ser como sou e não consigo imaginar como será se não for assim.
Feliz Dia da Liberdade!

Abstive-me de mudar uma vírgula caindo na tentação de lhe corrigir a rima forçada.
Está lá tudo. O que aprende. Comigo e com os outros.

E despeço-me meus Amigos antes que a “baba” vos inunde os teclados.

quarta-feira, abril 23, 2008


Lamento sonoro que me acorda noite a meio
Uma porta bate em fúria
Um grito exprime o cansaço da vida
estou farta, quero morrer!”
Tapo a cabeça. Não quero ouvir.
Chora a criança, em terror, acordada

Pés batem com força, fuga em desespero
Abre-se o estore, uma janela de vidro bate de impulso e oiço os estilhaços no chão
Oxalá estejam calçados, lembro-me de desejar
O choro da criança insiste, a criança insiste no choro
Na esperança de os fazer parar.
Estou farta, quero morrer! Grita a voz esganiçada de raiva e de dor
Uma chave roda a fechadura, abre-se a porta para a rua
Os gritos sobem de tom
As palavras perceptíveis
traição apanhada, mentira escondida, vida arruinada
Dou-me, de repente, conta que deixei de ouvir a criança
Prudente, desistiu.

terça-feira, abril 22, 2008

Aarde .. Lurra .. Zemlja .. Yer .. Eirde .. Terra, Mãe-Terra



Segurou o pequeno globo num misto de temor e excitação que lhe fazia tremer os pequenos dedos rechonchudos e limpou-o cuidadosamente.
Muito cuidadosamente, quase em afagos disfarçados. Lá dentro, em tons transparentes de ventos idos, pequenas sementes de uma vida verde desconhecida pontuavam uma terra castanha que adivinhou molhada .. cheirosa.
Seres minúsculos atarefavam-se em direcção a nada, vidas corredias, nervosas, estranho pensou o garoto .. para onde vão?
Um barulho, que em surdina ensurdecia, oprimia o silencioso suspiro que o globo soltava de quando em vez. Um suspiro dorido, profundo e calado.
Calado pelas máquinas de um amarelo vivo, muitos maiores que os pequenos seres que lhe prenderam a atenção. Que fazem? perguntou-se, no mesmo instante em que percebeu que arrancavam, com ares ferozes, as pequenas sementes verdes que tinha visto nascer lá mais em cima. E a terra.. aquela terra castanha que achava cheirosa de chuva, transformava-se no mesmo instante num deserto árido, rachado em rasgos que pressentiu de dor.
Calado por outras máquinas, desta vez em tons de cinza e negro, que lançavam uns fogos coloridos que o fizeram sorrir a principio, até perceber que onde caiam aqueles fogos coloridos transformavam em cinza e chama tudo em redor. E pequenos corpos daqueles seres, jaziam pelo chão sem ninguém os levantar. Horror, pensou o garoto, virando de propósito o pequeno globo para afastar tais visões.

Em algumas zonas uma nuvem de fumo negra pairava ameaçadora ensombrando o sol pintado a amarelo e suspenso em fio de pesca imperceptível. Como é que não a vêem, indagava-se de novo, observando atentamente aquela vida estranha, segurando o pequeno globo com todo o cuidado.
Indiferentes os pequenos seres continuavam as suas labutas, quais formigas minúsculas, ocultas.

Um brilho de vidro azul e branco chamou-lhe a atenção. O mar explicara-lhe o Pai quando lhe trouxera aquele tesouro. “até isso destruíram” ouvi-o comentar com a Mãe ao jantar, julgando-o absorto. Como assim destruíram, apeteceu-lhe perguntar .. sabia contudo que a pergunta iria colocar nos olhos do pai aquela sombra triste e amarga que lhe via com frequência. Pergunto amanhã, na escola, pensou.

Era lindo o seu tesouro. Já tinha ouvido falar dele nas aulas de História Antiga e Noção Civilizacional. Havia ali ainda uma vida, pensou .. uma vida cansada, mas que ele na ingenuidade dos seus 12 anos acreditava ainda esperançada. Oxalá eu pudesse ajudar esta Tero, desejou escutando de novo aquele lamurio triste, profundo .. arrepiante

Hey! Gritou abanando o Globo com força, como se o pudessem ouvir os minúsculos e indefinidos seres que via de um lado para o outro em azafamas que lhe pareciam tolas. Hey! Não vêem que estão a magoá-la?!
Pareceu-lhe, por impossível que possa parecer, que por uma milésima de segundo algo parou no buliço do seu tesouro .. ilusão .. milésima de segundo mais tarde e tudo retomou o seu ritmo alucinante de quem parece não escutar, não ver .. não sentir.

É verdade não é Mãe Terra? Magoam-te os teus filhos ..

segunda-feira, abril 21, 2008

atch...


afastando-me por um tempo .. para evitar o contágio .. :)

sexta-feira, abril 18, 2008

a propósito de .. tudo

"The etymology of Secret Mantra is as follows.
"Secret" indicates that these methods should be practised discreetly. If we make a display of our practices, we will attract many hindrances and negative forces. This would be like someone talking openly and carelessly about a precious jewel they possessed and, as a result, attracting the attention of thieves.
"Mantra" means "protection for the mind". The function of Secret Mantra is to enable us to progress swiftly through the stages of the spiritual path by protecting our mind against ordinary appearances and ordinary conceptions." Joyful ath of Good Fortune, by Geshe Kelsung Gyatso

Confesso curiosidade por tudo o que me é diferente.
Às vezes “espicaçada” por algo que leio, vejo, ou simplesmente pela necessidade de entender. Enquanto assim for, não me posso queixar. Sinal que os pobres neurónios ainda reagem :)

Porque quis entender, procurei.
Acredite-se no que se acreditar, a explicação não pode ser mais simples e pura.

Have a “sheltered” week-end *

albeit ..

Finalmente uma “sala de fumo”.
Cansados e acredito ligeiramente desgostosos por terem de nos ver fumar na rua em frente à porta principal, os patrões decidiram-se por uma sala de fumo, aprumada a preceito com o exaustor obrigatório por lei, a saída de ar respectiva, cadeiras e sofás espalhados, um ar confortável onde só falta uma planta (coitada) e algum som, como gostamos de reclamar.
E a sala de fumo assim num edifício de escritórios partilhado por anónimos e alguns conhecidos, facilita o desaparecimento de algum anonimato. E gera, por assim dizer, situações verdadeiramente engraçadas e surpreendentes. Passamos a saber de cor o nome de todos os daquela direcção que está sempre em silêncio quando se entra no 3º piso e que marca fuma o senhor da contabilidade sempre tão metido consigo. Trocam-se galhardetes entre os que já se conhecem melhor, e por vezes “cai” um silêncio constrangedor quando alguém, que não sabemos quem é, entra na sala de cigarro em riste. Colaborador, prestador ou visitante? Na incógnita, cala-te boca que as paredes têm ouvidos ..
Há dias, sentada metida com os meus botões e fazendo acrobacias com o fumo do cigarro tinha por companhia uma das meninas da limpeza, simpática, prestável e estrangeira. Não gostando muito de silêncios forçados, sorriso para aqui e outro para ali acaba a contar-me que é de Kiev onde deixou uma filha de 17 anos entregue à avó. Veio para ganhar dinheiro e pagar os estudos da filha, que assim que terminados, virá ter com ela. Que não vê a hora de isto acontecer, tais as saudades e a distância imensa que as separa. Consigo avaliar a situação à luz da minha experiência de mãe. Mas não consigo medir este afastamento. Esta ânsia. Felizmente.
Tentando puxar o assunto para outro campo, que lhe vejo os lindos olhos azuis mais luminosos que o costume, louvo-lhe o português perfeitamente perceptível com um sotaque cerrado e pergunto-lhe, rindo, que “diabo” está a fumar. Uns cigarros brancos, finos, com um cheiro adocicado que me faz lembrar o mentol. Ah .. são cigarros da minha terra. Trouxe-mos uma amiga que veio há pouco de visita à família. Custam €0.30 o maço mas lá não se podem comprar.

Soube dias mais tarde que a “Laila”, a menina da limpeza prestável, simpática, que nos despeja os caixotes de lixo à hora do almoço e nos lava as chávenas de café, que veio da cidade de Kiev em busca de uma forma que lhe permitisse facultar à filha o término dos seus estudos e à mãe uma existência confortável, é engenheira informática no seu país.
Uma engenheira que não pode dar 0.30€ por um maço de cigarros.
E isto levou-me a pensar na quantidade de portugueses que têm igualmente tido de partir em busca de melhores condições de vida. Recordei o caixa do balcão do banco que me confidenciava ter o curso de Direito. A minha própria irmã Arqueóloga de paixão numa área totalmente oposta, mas, como ela diz e bem, felizmente com trabalho, o filho mais novo da Dª Matilde, vizinha de bairro, formado em gestão ao volante de um eléctrico da Carris. Recordei ainda, na minha pequena e limitada realidade, as queixas de muitos que não fazem o que querem, aquilo para que estudaram, não há emprego que chegue para todos, queixam-se os mais novos, desalentados.
E recordo o sorriso meigo da “Laila” cujo único objectivo é continuar a trabalhar (muito) para assegurar que um dia, daqui a algum tempo, mas um dia possa de novo abraçar a filha e tê-la perto de si.

Vivendo a vida pensando no que gostaria de fazer?
Ou aprender a encontrar na vida que se vive, motivos para dela gostar?
Sem dramas.

quinta-feira, abril 17, 2008

Devils, mostly ..

My meaning is that if the shape of anything be worth man’s thought to picture to man, it’s worth his best thought, explica John de Burgos ao Abade.
(Rudyard Kipling in The Eye of Allah)

A história, em dois séculos antecipada por este escritor de quem já me confessei leitora, não acaba bem. Estamos em plena Idade Média e John de Burgos descobre, no Cairo, a primeira versão do microscópio que lhe dá a conhecer o que apelida de vida paralela à Vida, e motivos crescentes para as suas iluminuras.
Procura apurar a representação dos diabos para o seu Great Luke e carece de ideias realistas para a mesma.
And what seek you this journey?’
‘Devils, mostly,’ said John, grinning

Prudente e conhecedor dos tempos que vive, sem com eles se atrever a discordar em voz alta, após a constatação de que portas se abririam à ciência e à arte com aquele pequeno engenho, portas essas contestadas pelas esperadas reacções de uma época obscurantista, o Abade destrói a preciosa lente, sabendo que o Mundo não está ainda preparado para as revelações que a mesma poderia proporcionar.


Concentro-me na frase “digna do pensamento .. ao representá-lo .. digna do melhor esforço ..” e não posso deixar de sorrir ao aperceber-me da sapiência e simplicidade que a revestem.
O melhor esforço .. não no convencimento de massas, não no ópio inteligentemente distribuído ao povo, não no circo montado com esgares de palhaço rico a quem afinal, faltava o pão.
O melhor esforço, honrado e condigno, para o bem da Humanidade.
Mesmo em sacrifício.
O pensamento do homem como um “detalhe” para o bem de um todo? Ou será cada Homem O todo que constitui o detalhe deste Universo que julgamos conhecer?
Gosto de me pensar como parte, mesmo preservando, por vezes “à força” a minha individualidade. Parte integrante de um Mundo que acredito tenderá a melhorar.
Parte integrante de um Mundo que assim, em conto metafórico na pena fina de alguém que admiro, me dá a conhecer mais um pensamento simples.

quarta-feira, abril 16, 2008

Guilt!

Já sabem ao que reajo.
Nem bem nem mal. Simplesmente reajo. Ao desafio.
O bichinho instala-se sobre o beiral do neurónio direito, qual pássaro em busca de poiso, inquieto e curioso e lá vou para a página branca de papel tentando, por vezes em missão impossível, fazer com que aquilo que penso tome forma naquilo que escrevo e seja perceptível para quem me lê. ("invejo", por vezes, a vossa paciência .. )

não sei o número do meu telemóvel mas sei sempre onde o coloquei e não perco meia hora à procura ..” gaba-se o meu caríssimo e mui prezado comentador Mike, numa estroinice levemente irónica, a resvalar para o “toma, toma!” que lhe adivinho no fim, língua de fora qual criança .. !

Sortudo! Pensei de imediato, enquanto me passam pela memória os preciosos e matutinos minutos em busca da chave do carro, dos óculos escuros e do “bendito” telefone. Minutos que o relógio inflexível escoa mais depressa que outros quaisquer pois sabe-me de antemão atrasada para os horários a cumprir.
Se ao menos eu colocasse tudo sempre no mesmo sítio, exclamo com frequência, exasperada comigo mesma, perante o sorriso complacente da princesa que opta, quase sempre, por resolver o problema do transporte indo buscar a 2ª chave do carro. Que sabemos sempre onde está. É ela que a guarda.
Os óculos por norma seguram o cabelo enquanto me esforço nas bolsas laterais do cadeirão, espreitando por cima do micro-ondas ou mesmo no cesto de cosmética do toillet. Não se riam. Já os encontrei por lá vezes sem conta. A eles e a outras coisas ainda mais inverosímeis.
Comandos? Acho que para nós mulheres com capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, resolver outras tantas e ainda preparar aquela refeição, aprontar a criançada, passando pelos trabalhos de casa e pela sopa, espreitando a soufflé no forno e abrindo a porta à vizinha intrometida, acho, e estou certa que comigo é literalmente assim, que alguém nos devia colocar um comando na mão e um mapa de possível arrumação do mesmo, em vez de um bebé chorão para brincarmos, em criança.
Comandos e a sua localização geográfica na minha sala de estar arrasam a minha pouca constância de fim de dia. A pouca que ainda me resta para me concentrar em coisas simples como utilizar cada um para ligar o aparelho a que pertence. É comum o sobrolho carregado e um sibilante termo menos próprio mas inaudível, ao aperceber-me que a aparelhagem não liga, rebuscando os fios que lhe pendem por detrás à procura de qualquer mau contacto, quando afinal o que estava errado era o facto de ter o comando da box tv cabo na mão.
Perante as gargalhadas “trocistas” de uma princesa já perita em tudo o que diga respeito a aparelhos e seus funcionamentos, optei recentemente por incumbi-la de tudo ligar e desligar.
E o certo é que além de haver agora uma fila aprumada de comandos pretos e cinzentos na prateleira do móvel, não tornei a ouvir o retroceder de uma fita de VHS enquanto tento desesperadamente ligar o dvd que nem luz acende!


Não é uma tese. Mas é um dos reconhecimentos mais “difíceis” que fiz até hoje. ;)

terça-feira, abril 15, 2008

Quão só?

Now, without thinking further, he would go home to his room.
He would lie in the bed and finally, with daylight, he would go to sleep.
After all, he said to himself, it's probably only insomnia. Many must have it.
(Ernest HemingwayA clean well-lighted place)

Pergunto-me .. Quão só estamos?

Entro no café de manhã e vejo-os quase todos os dias .. dois homens, de alguma idade, mesas separadas, em frente a uma torrada e um copo de leite branco .. não olham a televisão ligada aquela hora para a noticia madrugadora, nem o jornal, diligentemente colocado ao fundo das mesas. Sozinhos.

Numa outra mesa, “disfarçada” pela coluna que separa a zona de balcão da das mesas, uma rapariga distrai-se diariamente a jogar no telemóvel. Sozinha.

No restaurante, à hora do almoço, a rapariga a quem tenho acompanhado a evolução da gravidez, senta-se invariavelmente na mesma mesa, fixa a televisão numa necessidade de se manter alheada da conversa animada dos grupos que vão enchendo o local. Sozinha.

A senhora de idade que pede uma sopa e um cesto de pão, ocupa a mesa mais recôndita, agarrando com força um saco e uma pequena bolsa, e fita as unhas enquanto come. Sozinha.

Ao fim-de-semana aparece “o sem abrigo das tranças” como diz a princesa que já aprendeu a não o temer mesmo apertando-me a mão com mais força quando saímos do café e lhe entregamos um saco de papel com uma sandes de queijo. Lança-nos um meio sorriso e murmura algo imperceptível, seguindo o seu caminho, sozinho.

Há um garoto sozinho no recreio. Perguntei-me várias vezes porquê explica a princesa, até que percebi que ele gagueja muito mummy .. devem com certeza fazer troça disso e ele diz que prefere brincar sozinho.

A criança que aguarda ao portão a chegada da princesa, chega pelas 07h45 para as aulas que começam meia hora depois. A face ilumina-se num sorriso quando me vê estacionar, curiosa abordei a princesa que me explica que ela sai de casa e atravessa o bairro à hora que os pais saem, “mas vem sozinha, mummy .. “

Na esplanada que gostamos de frequentar ao fim de semana depois do passeio matinal à beira rio há já três caras conhecidas. Pessoas de idade, olhos fitos na água, por vezes levemente distraídos com a algazarra dos mais pequenos.
Por vezes um sorriso triste no meio de rugas, que aposto não apareceram sozinhas.

segunda-feira, abril 14, 2008

nonsense ..

Dez minutos de escrita automática, pedem no formulário cheio de logótipos e linhas de tracejado interceptado, coisa que me irrita só de pensar que tenho de colocar cada letra em seu traço, laborioso, inalcançável .. e para nada.
Ninguém lê assim, às pausas, só se estiver com soluços!

Dez minutos de escrita automática, diz o senhor em pé, junto à secretária que ocupei sem que alguém mo tivesse indicado, e de pé ali o homem na minha frente qual torre, e eu a pensar ele não vai querer que eu faça isto na frente dele pois não?
Queria.

Dez minutos de escrita automática, como assim automática, e sobre o quê? Sobre tudo, sobretudo sobre nada, responde o colosso, sorriso feito de janelas abertas, brancas para deixar entrar o sol que brilha lá fora.
Ele vai mesmo querer que eu o faça aqui e agora, pensei, voltando a concentrar-me no formulário imenso, nome, sobrenome, morada, telefone directo e indirecto mais site de Internet, e-mail e telemóvel.
Perdi dez minutos de escrita, automaticamente escrevendo, no preenchimento de dados pessoais, coisa que me exige um esforço adicional de memória dado que nunca me escrevo, nunca me telefono e não sei o endereço electrónico do meu diário de cor.

Ah .. mas sei-lhe o conteúdo de salteado? Servirá?

sexta-feira, abril 11, 2008

inspiração de momento ..



A Luísa não só tem uma sensibilidade invulgar na escolha das cores e cheiros a reter, como um bom senso inigualável nas letras que escolhe da nossa Língua Mãe.
E, ainda por cima, partilha tudo isto connosco :)
Luísa, para si esta pequena inspiração de momento.

fotografia, pedida emprestada, daqui



E a Dª Emília, por detrás da janela de cortina de renda corrida, sempre se perguntou porque diacho haveriam de ter pintado aquele pequeno prédio à sua frente de amarelo. As portadas verdes nas janelas faziam-lhe ligeiramente lembrar as grandes portadas de madeira que fechavam as janelas da casa dos senhores há tantos anos atrás. Já nem se lembrava quantos. Mas aquele amarelo..
Tenho de ir ao pão, pensava, enquanto alinhavava o tecido leve para mais uma cortina branca e imaculada com que brindava as janelas velhas de madeira carcomida. Mas a subida, aquela subida íngreme e escorregadia do orvalho da noite custava-lhe cada dia mais.
Há quantos anos tinha vindo para a grande cidade .. perguntava-se .. há quantos anos vivia ali naquele casinhoto de duas pequenas salas e uma cozinha que hoje lhe dava mais trabalho que sei lá com os canos a gotejar e o lavatório sempre entupido por razão nenhuma .. há quantos anos chamava aquela a sua casa, o seu ninho, sabendo que nunca a trocaria por outra qualquer em outro local qualquer.. impensável abandonar a sua rua.
.. a Ermelinda, sua vizinha do lado havia já fechado o dela e abalado para casa da filha, para os lados do Cacém, dispondo de um quarto novo a estrear só para ela e uma cozinha que fazia inveja à dos melhores hotéis da cidade, pensava ela convicta de nada dado que nunca tinha sequer entrado em algum. Telefonavam-se uma vez por semana, a Ermelinda encantada com o neto acabado de nascer mas a confidenciar-lhe saudade da árdua subida que ambas percorriam para ir ao pão.
Ai o pão ..! que me esquece o pão ..

Bom fim-de-semana *

quinta-feira, abril 10, 2008

no news whatsoever ..

Carolina Salgado, testemunha principal num processo rocambolesco que atenta o carácter humano, teve ontem um acidente de viação sem consequências de maior, e portanto, direito a página de destaque nas notícias via net que consulto diariamente. Gostava eu, simples e pouco exigente leitora, de ver abordados com tamanha tenacidade, pormenor e sentimento de relato, os problemas que realmente afectam o nosso país, que me perdoe o jornalista ..

A Tocha que é Olímpica e não chinesa, foi desviada por protestos dignos que espelham a preocupação de muitos, o desconforto e a revolta de outros tantos. O que eu gostava, humanitária aspirante a anónima, é que passada a “moda” todos continuassem revoltados, preocupados e em busca de soluções.

Sílvio Berlusconi afirma do alto da sua sapiência que as mulheres de direita são mais bonitas. Aborrecida com o redutor que isto representa, olhei-me ao espelho para tentar perceber que quererá o senhor dizer. Nada, concluí, vejo-me sempre de frente eu.

O secretário de estado do ambiente afirmou que para cumprir as normas comunitárias relativas à qualidade do ar, as portagens à entrada das cidades são “incontornáveis”.
Em nada me espanta isto .. se até as rotundas o são na maioria das vezes.

Haverá um Mille Collines no Zimbabué? Hope so ..

quarta-feira, abril 09, 2008

Crescendo (XXII)


Mummy, sabes que o Castelo de S. Jorge é o coração de Lisboa Medieval? Mãe, Lisboa Medieval é ainda mais bonita que a cidade que se vê quando atravessamos a ponte, lembras que estás sempre a dizer-me quando regressamos, atenta na paisagem, a nossa cidade é linda! Mãe .. adorei a visita de estudo. Fomos à Sé e ao Paço Real que já não é o original, subimos e descemos todas as ruas, a Professora ia reproduzindo o que se tinha passado ali e quando, sabes que a Igreja de S. Domingos é a mais bonita de todas as que eu conheço mãe e muito importante, foi lá que o povo aclamou o Mestre de Avis como regedor do reino, mãe? Regedor é mais ou menos Rei não é? Ahh e na Associação dos Amigos dos Castelos tirei imensos apontamentos para o trabalho! Mãe .? ajudas-me a compor isto tudo? Eu leio-te o que escrevi, pode ser?

(tudo isto de um só fôlego)

A princesa na descoberta de uma raiz que lhe pertence.
Encantada. Lembro-me que na visita a Guimarães foi quase emocionada que percorreu o berço da nação aliando ao que visitava todos os ensinamentos da disciplina de História, e aprendendo outros tantos.

Agora estou em falta com um último pedido.
Ir à Biblioteca Nacional ler uma carta de foral verdadeira.
Pode ser uma qualquer mummy mas eu quero ver sem ser no livro. Sabes que era um pedaço de papel que fazia feliz uma população inteira?
Que simples mãe.

Que simples, filha.
E a felicidade está nas coisas mais simples, dizia alguém .. *

terça-feira, abril 08, 2008

descontentamento


Parada na fila da caixa do supermercado, ligeiramente alheada do que me rodeia, em conversa com a princesa sobre mais um livro na mira “Guia das Adolescentes”, coisa engraçada com respostas certeiras a algumas dúvidas existenciais de quem entra pela primeira vez nesta fase, receitas fáceis que até a mim me dão ideias, jogos e downloads seguros, conselhos e dicas q.b..
De repente, em outra fila, um tom agudo e maldoso na voz de uma madonna maquilhada de mais, gritante de mais sai a frase “mas a criança está no carro e não na sua barriga pois não?!” rindo em seguida, galhardia galhofeira e ridícula, tirada ainda mais a despropósito tendo em consideração que a interpelada era uma avó de avançada idade que empurrava um carrinho de bebé ao mesmo tempo que lhe tentava equilibrar os sacos com as poucas compras que levava.
Olhei ao meu redor, não sem antes me ter apercebido do olhar aflito da princesa que me aperta a mão com mais força. Risinhos grotescos de quem não arreda um pé para ceder o lugar. Alguns miram o tecto do supermercado como se de repente os anúncios das promoções tivessem voado e lá ficado colados. Outros a ponta do sapato, provavelmente lamentando não lhe terem dado aquela puxada de lustro necessário antes da saída de casa. Será que alguém ainda engraxa sapatos? ..
A madonna continua a rir, caricata, e a avó de semblante triste e ligeiramente corada de vergonha parada no final da fila que, por acaso, tinha um sinal prioritário de acompanhantes de crianças, grávidas e idosos.
Ela idosa. Ela acompanhante de criança de colo.
Ela escorraçada, desumanamente escorraçada, por um ser que eu, gostando pouco de juízos (em voz alta), me apeteceu apelidar, em tom igualmente estridente, de vil.
Faço um sinal discreto à avó, cedendo-lhe o meu lugar na fila e passando para o final da mesma.
E lamento ..
Lamento profundamente ter de me ver rodeada de gente cada vez mais estúpida.
Polidez e urbanidade .. onde estão?

segunda-feira, abril 07, 2008

Crescendo (XXI)

Sentadas nos degraus do Centro Cultural de Belém, depois de um jantar na esplanada numa noite quente que adivinha uma Primavera estival, mãe e filha comem um gelado e admiram o cartaz que anuncia os espectáculos presentes a que gostam de assistir, tentando tomar uma decisão sobre que bilhetes comprar.
Relembram tudo o que já viram por ali, sendo que as preferências da princesa vão quase sempre para o “mundo ao contrário” encenado e apresentado pela neta de Chaplin .. e para os Tap Dogs vistos há anos atrás, e para os recitais de piano que adora escutar de olhos fechados. Agora há jazz, de que gosta sem adorar, cansa-se por vezes dos álbuns que a mãe põe a tocar, preferindo os cantados aqueles que só tocam “mummy, sem voz não percebo nada da música”.
Lambuzam-se de gelado de baunilha e frutos silvestres, combinação suficientemente enjoativa para servir de justificação ao “acho que não me apetece mais” ;) .. diligente pega nos recipientes e vai em busca de um caixote de lixo.
A mãe ainda sentada nos degraus acende um cigarro, ficando a olhar o céu estrelado e limpo no que parece ser uma das primeiras noites da nova estação.
De repente um abraço, um encosto de cabeça com cabeça e uma pergunta que a engasga:
“Mãe, nunca te aconteceu teres perguntas para fazer e saberes que ninguém, mas ninguém mesmo te pode responder?”

sexta-feira, abril 04, 2008

boas leituras ..

Li, esta semana, por esta rica blogosfera entre tantas outras coisas que gostei, algumas que não gostei nada, umas que comentei gostando e outras que igualmente gostando me limitei a ler .. mas dizia, li esta semana duas coisas, por aqui, que me tocaram.
Uma pela beleza no "arrumar de letras", pela sensibilidade, pela leve ironia que pressinto, pela verdadeira arte. Por ser tão, mas tão verdade o que ali está descrito. E como está descrito.
Li e reli este texto várias vezes, quase a ponto de o decorar.
E gostava de lhe chamar “meu” ;) Ana, obrigada.
Outra pela coragem. A coragem do relato. Ou só o relato em si, como se de função se tratasse, sem ser preciso mais nada.
O serviço do jornalista ao serviço da informação que assim, em linhas simples e concisas, vai transmitindo a quem queira ler. Sem complexos. Sem capas. Sem partidos.
Só (a meu ver) o que se passa e como se passa.
Nada mais. Boa sorte Fábio Zanini.

.. e bom fim-de-semana, de sol *

Há muita patetice na forma como se relata a história, afirmava o saudoso Professor de História da Antiguidade.
Muita patetice, muita desintegridade, pouca imparcialidade por parte dos meus colegas que parece têm de defender os seus pontos de vista enquanto vos fazem relatos de factos importantes que tendes de saber. Aprendei!

Vieram-me à memória as frases deste meu já ido Professor, pessoa admirável, justa e exigente. Postura que todos apreciávamos nas aulas que, de interessantes ao início se tornaram “viciantes” ao fim de poucas semanas.

Tenho a agradecer-lhe a forma como ainda hoje desconfio de relatos empolgantes, fantásticos, heróicos .. numa palavra .. abrilhantados.
Mas referia isto a propósito de uma leitura recente, descoberta numa das pequenas feiras de livro da nossa cidade. O Livro dos Destinos, um relato memorialístico de Anne Wiazemsky sobre o percurso da sua própria família, antes, durante e após a Revolução bolchevique de 1917.

Nada patético este, Professor ..

quinta-feira, abril 03, 2008

..e continua .. ;)

A pergunta “mummy, vê aqui se esta borbulha é acne” fez-me cair da cadeira em trambolhão de uma vida.
Acne? Indaguei-me ainda antes de lhe ver a minúscula borbulha que ameaçava crescer-lhe no queixo.
Como assim acne? Perguntei de novo apalpando o miúdo ponto branco visível na pele branca e perfeita.
Acne sinónimo de mudança de idade, de crescimento, de mais um duro corte no cordão umbilical que eu, só eu e em segredo, acho que ainda mantenho alimentando-a de vida?
Acne, sinónimo de saídas nocturnas, pedidos para pernoitar em casa alheia de amigas que são sempre as melhores, meu pobre coração ansioso até que a oiça rodar a chave na fechadura do lar seguro?
Acne significativo de férias já não juntas, acampamentos com amigas e amigos, idas à praia sem a supervisão da mãe?
Acne de um hoje para amanhã, este é o meu namorado, e eu siderada, pregada ao chão de olhos arregalados a tentar perceber como é que tão depressa passaram os anos que a separam do meu colo protector?
Não princess, decididamente isso não é acne. Não pode ser acne. Proíbo-o!

(por acaso não era .. mas tenho de me preparar rapidamente para tudo isto não tenho?) ;)

quarta-feira, abril 02, 2008

Mãe "sofre" .. ;)

Repete-se a falta de humanidade e respeito pelos animais na bienal não sei de onde, nem quero saber. A avaliar pelo desrespeito pela raça humana já nada me espanta .. ou talvez espante.
Oiço nas notícias que a marca de Vodka mais famosa do mundo (a marca, não o vodka) foi vendida por cinco mil milhões de euros (quanto é isso?).
Mais .. apresentada como novidade bombástica diz-se no mesmo telejornal que os venezuelanos podem agora ficar hospedados em hotéis desde que paguem em usdollars ou em euros. Pergunto-me para quantas estadias daria o valor que se pagou pela marca de vodka .. pergunto-me para que quer o venezuelano ficar hospedado num hotel quando não tem dinheiro para colocar comida na mesa.
Adiante ..
Mugabe .. esse facínora prepara-se muito provavelmente para falsear os resultados de uma "eleição" que segundo as sondagens o atira para uns “míseros” 33% à cabeça do seu país .. país? Com 80% de taxa de desemprego e uma inflação que nem consegui pronunciar de estapafúrdia aquilo já não é um país. De tão rico e próspero seria à partida dificil acabar com ele. Não duvido que Mugabe o consiga .. em breve.

Concentro-me no estudo da disciplina de História – a favorita da princesa – resumos de matéria dada que a professora e Directora de Turma, previdente e atenta, lhes pede que passem a limpo. A letra fina, ainda a raiar a infantilidade da primária mas já com laivos de personalidade na escolha da forma das letras, apressa-se pelo caderno fora.
Fala alto enquanto copia.
A sociedade do século XIII dividida em três grandes grupos sociais: Povo, Clero e Nobreza.
Tem um verdadeiro fascínio pelos Monges Copistas – responsáveis quiçá por tudo o que ainda lemos hoje – e aprecia as nuances que pautam a vida do clero secular – próximo do povo, ajudante do povo, preocupado com o povo. A Nobreza não lhe diz nada. “Só combatiam mummy” e viviam dos impostos que o povo pagava. Quando nada havia a combater, entretinham-se com bailes, grandes banquetes e torneios. "Fúteis" exclama de sobrolho franzido.
Pousa a caneta de repente e dispara: “Onde é que está a justiça desta sociedade mãe?” Os Nobres e o Clero – mais ricos – não pagavam impostos e podiam aplicar a justiça à excepção da pena de morte (coisa que a aflige). O Povo que tinha de assegurar o seu sustento e o dos restantes grupos sociais, tinha de pagar impostos e não tinha nada a que chamar “seu”. “Felizmente que hoje já não é assim, pois não mummy?” .. Penso demoradamente como diabo lhe vou explicar que infelizmente, e em certa medida, ainda é pior.
Desligo a televisão e tenho com ela uma conversa que sei lhe vai desfazer a quimera de viver numa sociedade muito mais justa que a do século XIII.

Mãe sofre ;)

terça-feira, abril 01, 2008

desabafando? .. também

Sabes que alguma coisa vai mal quando vês na televisão que uma aluna agrediu a professora.
Não interessa, como já ouvi e li, que a professora devia ou poderia ter feito tudo de forma diferente. Uma aluna agrediu uma professora.
Algo vai mal.
Depois algo vai pior quando o país inteiro onde vives, entre iguais, se disponibiliza a crucificar a rapariga de 13 ou 14 anos, de um penada e em voz uníssona num quase “mata, mata” dos tempos idos, à espera do polegar do todo o poderoso.

Sabes que não está tudo a rolar quando a par das declarações do primeiro-ministro que garante ter ultrapassado a chamada crise orçamental e se propõe a baixar o imposto de valor acrescentado em 1%, ouves o alerta da DECO sobre a existência de mais de cem mil famílias, da chamada classe média, em verdadeira situação de incontinência financeira.
Pergunto-me, se estas famílias pertencem à considerada classe média, como estarão os pobres deste triste Portugal. Escusam .. infelizmente sei como estão.

Sabes que há qualquer coisa a “jogar fora do baralho” – pode muito bem ser o Joker .. a princesa lá de casa diz que é uma carta que não serve para nada – quando o Governo se preocupa com o “piercing” que possas eventualmente ter a ousadia de fazer numa qualquer parte do teu corpo mas ignora as manifestações das populações que clamam há meses por um melhor, e já agora de portas abertas, sistema de saúde. O mesmo Governo que desvaloriza a morte em ambulâncias, em hospitais, ou por mera falta de assistência, como se tudo se tratasse de “danos colaterais”. São-no de facto, mas irreversíveis.

Tens a noção que precisas de saber melhor que “raio” se passa afinal quando vês na televisão que cem mil professores de todos os ciclos, de todas as escolas, públicas e privadas, se associam numa mesma luta, numa mesma reclamação que afinal – espanto dos espantos – não tem nada a ver com o que se pretende passar.
E mais .. a tua atenção sobre o problema que os fez ir para a rua .. aos 100 mil que de camisola preta andaram na rua, é rapidamente afastada pelo mediatismo que mereceu uma única dessas professoras.


Podemos fingir que não vemos, não ouvimos e não falamos, mas não temos como ignorar (nem que seja à noite com a cabeça na almofada) que as nossas crianças passam demasiado tempo em computadores, clubes de amizades virtuais fáceis e gratuitas com todos os bónus que estas “relações” acarretam, chats de conversa que se acredita ser anónima, jogos violentos, mundos paralelos e pesquisas sem controle.
Podemos culpar a escola, o tempo e a falta dele, o patrão, o carro que avariou, o buraco na estrada ou o vizinho .. sabemos ou não que é a nossa geração que preparará a seguinte? .. de nada nos servem os erros do passado se não pretendermos aprender com eles.
.. O que fazemos? .. se há coisa que ainda não aprendemos a fazer é a reciclagem da história .. só assim se entende que se esqueçam valores como a Liberdade .. Respeito .. Humanidade .. coisas pesadas não é? E viver de acordo com elas então ..
.. só assim se entende que no usufruto de uma liberdade legítima mas que achamos ser só “nossa” se invada a liberdade alheia, com direitos de conquistador.
.. só assim se entende, por exemplo, que haja quem, na posse das suas faculdades e da “liberdade” que lhe assiste, se ande a passear na rua com cartazes gritantes de “God bless Hitler”.. triste povo sem memória.

Mas, voltando à nossa realidadezinha de dia-a-dia, há decididamente algo que te faz pensar quando uma garota de 15 anos, da tua própria família, estudante exemplar e menina educada, te desabafa que quer as melhores notas, o mais depressa possível, porque o único objectivo é ir para fora “prima .. tenho mesmo que ir para fora .. todos sabem que aqui será impossível!” todos sabem ? ela, com 15 anos, sabe .. e nós? Vamos deixar que partam?
Que "mundo" estou eu a preparar para a minha filha, pergunto-me ..