segunda-feira, março 31, 2008

in pieces ..

Via-a sentada nos degraus de acesso à areia, a um canto encostada, de livro aberto no colo, dedos a acariciar as folhas. Este meu vicio feio de ler lombadas alheias, qual curiosa, deu-me o título da obra “Infelicidade Maravilhosa”, lembrando-me imediatamente de me terem já feito a sinopse da obra.
Infelicidade não pode ser algo de maravilhoso digo eu tentando arrumar tudo em prateleiras de lógica cientifica. A não ser que .. A não ser que de infelizes procuremos aprofundar o sentimento num self-pitty desastroso .. a não ser que não consigamos preencher esta breve existência com algo que pelo menos uma vez nos faça vibrar, apaixonar, viver. Algo esse que em momentos de infelicidade servirá para a memória de um calor, de uma partilha.
A não ser que o maravilhoso da infelicidade seja o sobreviver-lhe em acto heróico de soldado ferido. A não ser que ..

Absorta nestes pensamentos, reparo que lhe chamo a atenção. Livro aberto sobre os joelhos a minha aproximação permitiu entrever uma fotografia no meio das páginas abertas, puídas nos cantos como se manuseadas até à exaustão. Levantou os olhos e mirou-me com um sorriso triste nos olhos que percebi cansados de chorar.
É o meu filho – balbuciou. Era – corrigiu.
Não sei que impulso me fez sentar no degrau partilhando um silêncio que adivinhei chorado, olhando o mar revolto cujo brilho feria a vista. Pensei na minha filha, longe, em férias alegres com os primos e Padrinhos. De relance passaram-me na memória todas as crianças que conheço e a felicidade que é conhecê-las, partilhar-lhes o crescimento, amá-las. As minhas próprias lágrimas salgadas do vento marinho assomaram. Não fiz esforço algum em retê-las. Olhei a fotografia para ver o que adivinhara: uma criança linda. Não o são todas? Olhos negros perlados por umas pestanas estranhamente compridas, sorriso travesso nos lábios e cabelo revolto. Como aquele mar.
É lindo o seu filho, tem um ar feliz – murmurei.
Obrigada, respondeu. Sabê-lo feliz é tudo o que desejo. E poder partir para junto dele também.

Deixei aquela mulher entregue à sua tristeza. Desespero que não sei, não quero sequer saber descrever, acariciando as páginas de um livro que não comprei porque não gostei do que sugere.
.. a infelicidade pode ser maravilhosa? – talvez no desejo de partir para acabar com ela.
Dorme em paz anjo pequeno *

sexta-feira, março 28, 2008

partilhando ..



Tenho-me deliciado com a descoberta ou lembrança de grandes nomes da música (confesso o meu género predilecto .. hum há que tempos que não escrevia esta palavra ;) que Mr. Mike tem tido a gentileza de nos dar a conhecer por aqui ..
.. de esporádica passou a diária a visita a um determinado Desinfeliz que tem muito mais juízo que o nome indica, é isso mesmo Caro José, o que é bom é para se ler ..
.. esta porta, aberta e convidativa, deu-me a conhecer a escrita da Ana .. atenta, sensível, bem humorada e muito interessante. Confesso que adorei ler-lhe a memória de um certo passeio num jardim :)
Caro Hélder, parabéns pelos escritos, diferentes de tudo o que lhe conheço. Curiosa, vou espreitando o desenrolar *

Desejo-vos um bom fim-de-semana e fica o lembrete "alterar os ponteiros do relógio" .. Welcome Spring *

quinta-feira, março 27, 2008

maybe ..

"If the lost word is lost, if the spent word is spent
If the unheard, unspoken Word is unspoken, unheard;
Still is the unspoken word, the Word unheard,
The Word without a word, the Word within
The world and for the world;
And the light shone in darkness and
Against the Word the unstilled world still whirled
About the centre of the silent Word.

O my people, what have I done unto thee.

Where shall the word be found, where will the word Resound?
Not here, there is not enough silence" TS Eliot


Maybe our greatest fright .. other than loneliness, further than death, more than the unsuccessful searching for the verbs to have, to possess, to take advantage .. as if .. maybe our greatest aim .. learning to learn from the silence.

Maybe ..

quarta-feira, março 26, 2008

..porque

por mais que me esforce não consigo entender isto


A carruagem avançava em marcha lenta, penosa.
O cheiro a pessoas e bichos era insuportável no espaço pequeno e abafado. Um cheiro que a faria vomitar houvesse algo no estômago há muito vazio.
Sentada, muito apertada, junto à janela perdia-se na paisagem que passava devagar lá fora. Campos outrora cultivados de verde e amarelo de onde certamente lhe acenariam e sorririam ceifeiras de lenço garrido na cabeça. Tractores brancos e vermelhos a lavrar as grandes extensões, preparar a terra para o cultivo dos cereais, cereais pão. Coisa tão rara que lhe havia esquecido o sabor. E animais no pasto, um pasto verde para vacas, ovelhas, cães pastor em alegres correrias. Tão diferentes dos que agora pendiam em trelas e coleiras nas mãos daqueles guardas.
Um pasto verde onde agora tudo era negro, seco, fumegante e desolador.
Certamente teria sido assim.
Decerto que aqueles campos de passagem, à sua passagem para um destino incerto e sem futuro, já haviam sido dourados de seara pronta ou vestidos de verde-milho. Acreditava nas histórias que o avô lhe contava sobre o mundo antes deste mundo. Não era perfeito, como ele sempre frisava, mas era livre, verde, havia terra para cultivar, escolas para aprender, pão na padaria e carne no talho.
Por vezes, contava ele, o pai e a mãe tinham de se sacrificar para que a comida chegasse para ele e para os irmãos. Ela gostava de ter tido assim uma família. Mesmo em sacrifício. Prendia-se, como que à força e para nada esquecer, em todos os detalhes da narrativas. Que herdava do irmão mais velho os calções e os sapatos. Que quase sempre levava pão e leite na merenda da escola. E custava-lhe a acreditar que houvesse naquela altura um céu azul, um mar para tomar banho no Verão, matas onde se podia brincar, pessoas e carros e crianças nas ruas .. sem medos. Impossível, uma vida sem medo.
O avô contara-lhe esta história vezes sem conta. Tantas quantas as que ela lhe pedia. E os seus olhos cegos pareciam brilhar à luz da pequena vela de cada vez que começava com “quando eu era pequeno ..” ela embevecida, sonhadora, embalada pela voz quente e meiga do avô que não conseguia imaginar menino, embarcava para um mundo desconhecido, pouco provável, muito pouco real. O mundo em que o avô havia vivido não era o seu. Quem sabe um outro planeta, chegou a acreditar.

.. a carruagem avançava numa marcha lenta, penosa.
Lá fora, no céu negro e sem luz, pássaros enormes, para os quais não tinha nome sobrevoavam em circulo o gradeamento que viu abrir-se à sua frente. Um gradeamento pesado, electrificado e guardado por coisas iguais aos gorilas que via no único livro que ainda tinha.
Desceu, trémula, os enormes degraus, deparando-se-lhe uma multidão igual a si mesma. Olhos encovados, faces escanzeladas, bocas de fome. Roupas rasgadas, descalços. Milhares de mulheres. Centenas de crianças.
Uma enorme tabuleta gritava em letras vermelhas o nome daquele inferno.
Auschwitz
.. oxalá o avô tivesse chegado ao fim da história. Contado como acabara aquele mundo onde ela gostaria de ter vivido.

Talvez pudesse, de alguma forma, perceber o sentimento que lhe dizia ter o seu acabado também.

terça-feira, março 25, 2008

freedom.. can you spell it?




A luta pela liberdade tem aqui a bonita idade de 49 anos feitos este mês.
Mãe, Pai e provavelmente Avó e Avô, já muito viu ao longo do seu quase meio século de existência.
.. secou muitas lágrimas, enterrou muitos mortos, viu nascer muitos filhos, e assistiu, impotente, à prepotência e arrogância de quem mais pode porque é simplesmente maior e mais forte.
foto daqui

A luta pela liberdade tem aqui a bonita idade de 49 anos.
49 velas em cima de um bolo feito de corpo dorido e amassado e coberto de sangue.

Quantos mais litros será preciso derramar até que os deixem viver .. em paz ..

segunda-feira, março 24, 2008

regressando ..




devagar ..


ainda a saborear .. os dias passados, relembrar as conversas, o cheiro a lenha a arder ..



e o momento .. em que de mão dada lhe perguntou "é ali que está o teu Pai?" .. e ela respondeu .. "é" .. sorrindo da calma que a invadia enquanto mentalmente deixava um beijo naquele pequeno e florido cemitério.



Obrigada por teres estado *


sexta-feira, março 14, 2008

Back to the roots .. (again? .. indeed) ;)


.. é para que vamos de novo.
Nunca nos cansamos. Anualmente reservamos em primeiro lugar os dias da Madrinha.
E por Madrinha entenda-se a minha “irmã” mais velha.
E por Madrinha entenda-se a terra. A raiz.
Sempre lamentei secretamente aquelas pessoas que não têm terra para ir. Nem os cheiros a recordar. Os cheiros da terra.
À minha história valeu-me o percurso de quilómetros de um Pai aventureiro decidido a casar com uma menina da cidade para ter essa fortuna.
Uma terra onde ir. Um joelho esfolado. Um cheiro a reter.
Uma raiz a prezar, a recordar e a transmitir.
É para lá que vamos de novo e o desassossego toma conta, como em todas as idas.
As malas abertas em cima das camas, estará frio, calor? Mais um telefonema para se saber com detalhe. Como se fosse necessário. Um cachecol quente rivaliza com pilhas de camisolas de manga curta, que agora que já sabemos andar de bicicleta haverá muito suor a derramar ;) o livro que se está ler, blocos e canetas para brincar com a prima às meninas de liceu (apressada a gente pequena), mais uns autocolantes para a troca, tudo bem arrumado.
Estou desejosa mummy.. também eu princesa, também eu.

Desejosa de te ver as faces coradas e o apetite devorador, os joelhos esfolados e os dedos sujos de tinta enquanto tentas pintar um ovo de Páscoa. Desejosa das conversas enroladas numa braseira que não se apaga, da chávena de chá que sei me espera já na mesa e do pão doce, único.
Desejosa do abraço do reencontro, de matar a saudade que não desarma, de acordar sobre uma vista que corta a respiração de todas a vezes que assomo à varanda. De me perder a contar azedas, daquelas que ainda se podem comer, ou de me espantar com o crescimento daquela árvore que parece plantámos há tão pouco tempo. De apanhar fruta directa da árvore, mesmo quente e enjoativa, e de ficar sem unhas a descascar as laranjas de casca dupla e “camisa” impossível de arrancar. De ver o céu estrelado, que lá parece muito mais estrelado, e muito mais negro também.
E de me deitar estoirada de nada .. só de ar.
Desejosa da .. terra.

A todos uma Santa Páscoa ..e um até breve :)

quinta-feira, março 13, 2008

encore the .. If ;)

http://en.wikipedia.org/wiki/Rudyard_Kipling

Rudyard Kipling – 30th December, 1865 – Bombay

Prémio Nobel da Literatura em 1907 – o primeiro britânico a receber tal distinção, autor, poeta e jornalista, “mimado” por George Orwell como “o profeta do imperialismo britânico”.

Aclamado pela critica como possuidor de palavra poderosa, invulgarmente assertiva, a par de especiais dotes de narrativa, ainda hoje inspira apaixonados debates sobre o significado dos seus escritos.
Homem viajado, vida rica em aventura e conhecimento, colabora em 1886 na Civil and Military Gazette de uma forma tão compulsiva que chegou a chamar-lhe “my first and only true love” .. para mim referia-se à escrita da qual se confessava totalmente dependente. Amor esse presente, acima de tudo, nos escritos infantis, alguns inspirados na sua própria passagem por colégios, outros provavelmente no ambiente que o rodeava como é o caso do afamado Livro da Selva e as aventuras do pequeno Mowgli.
Nenhum dos seus trabalhos é fácil de “etiquetar”. Onde alguns lêem exaltação à pátria, outros interpretam um olhar cínico sobre o patriotismo e a autoridade. Há quem defenda alguma (por vezes, muita) maledicência e critica mal interpretada, corrente contrariada por quem invoca a sua visão acutilante e alguns (muitos, certamente) anos à frente da época que viveu.
Não é normalmente assim com todos os que nos deixaram o seu legado? Pergunto eu ..

.. se calhar por estarem tão à frente nas suas épocas exercem este fascínio nesta .. ? Fascínio pela história de vida, ficcionada ou não, e pela palavra escrita .. testemunho real, inalterável.
O poema IF de Kipling, o qual tive a ousadia de “invadir” para responder a uma brincadeira de um blog friend, originou, na respectiva caixa de comentários, um pedido de tradução, "disfarçado" de elogio ;)
Ponderei. Raramente faço retroversões. À excepção das para a princesa ;) que aprende naturalmente uma língua familiar à mãe. De família.
A palavra perde força, significado, o pensamento encarrega-se de fazer uma interpretação por vezes “à letra” e lá se vai a obra.
Mas arrisquei. Não como o leio na língua original, mas como o sinto.
Que me perdoe Mr. Kipling .. ou provavelmente, reconhecendo-lhe o bom humor que transparece nos seus contos, sorrirá onde estiver num ..you’re on your own Lady ;)



Se conseguires manter a lucidez,
Quando à tua volta todos a perdem e disso te culpam
Se conseguires em ti crer quando todos duvidam,
E ainda assim ser complacente com tais dúvidas.
Se conseguires esperar sem desesperar,
Ou ser caluniado sem recorrer ao embuste
Ou ser odiado sem que ao rancor cedas caminho,
E ainda assim não seres nem vaidoso nem pretensioso

Se conseguires idealizar sem que os sonhos te dominem
Se conseguires pensar sem fazer de um pensamento O objectivo,
Se conseguires cruzar-te com o Sucesso e com a Tragédia,
Sem te deixares levar pela emoção
Se aguentares escutar a verdade que proferiste,
Por velhacos, deturpada em armadilha para ingénuos,
Ou observar tudo pelo que deste a vida, destruído
E vergado, tudo de novo construíres com o que te reste
Se conseguires juntar os ganhos de uma vida
Arriscá-los num lance de "cara ou coroa",
Perder, e de novo começar,
E nunca, sobre a perda, suspirar.

Se conseguires forçar o teu coração, nervo e tendão
A servirem-te, ainda que já não sirvam
E a aguentar quando já nada em ti existe
Que a Vontade que te diz “persiste!”
Se conseguires falar a multidões
e manter a tua honestidade
Ou conviver com Reis
sem desprezar a humildade
Se de amigos e inimigos te defendes
Se todos para ti contam como iguais
Se conseguires em cada minuto penoso
Ver sessenta segundos imortais

Tua é a Terra e tudo ao teu redor
E – o essencial - tu serás um Homem, meu filho!

quarta-feira, março 12, 2008

If ..

Se .. desafia-me o amigo Réprobo .. se eu fosse.
Logo a mim que de “ses” tive a minha dose na vida .. tendo quase, quase conseguido eliminar esta coisa taxativa, que nos inibe, nos coíbe e nos limita a cenários que, normalmente, nada têm de real.
Mais .. provocam-nos a ausência do gozo e da vivência da nossa própria realidade, por vezes fantástica outra menos menos, mas a nossa. A própria.
E perdemos .. perdemos imenso tempo, demasiado tempo a tentar equacionar os “ses” do nosso caminho, esquecendo-nos, vezes demais, de o percorrer.
Ou até mesmo de voltar atrás quando isso se torna imperativo.
Claro que me alongarei por aqui se não me mandarem calar e como vos sei corteses .. termino ;), até porque se trata de um jogo, uma hipotética versão de nós na diversidade..

Mas meu amigo não lhe vou responder por mim .. vou “plagiar” Mr. Rudyard Kipling que usando e abusando de If’s, nos dá a todos uma lição de vida. Uma lição de Pai.

If you can keep your head when all about you

Are losing theirs and blaming it on you;

If you can trust yourself when all men doubt you,

But make allowance for their doubting too:

If you can wait and not be tired by waiting,

Or being lied about, don’t deal in lies,

Or being hated, don’t give way to hating,

And yet don’t look too good, nor talk too wise;

If you can dream—and not make dreams your master;

If you can think—and not make thoughts your aim,

If you can meet with Triumph and Disaster

And treat those two imposters just the same:

If you can bear to hear the truth you’ve spoken

Twisted by knaves to make a trap for fools,

Or watch the things you gave your life to, broken,

And stoop and build ’em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings

And risk it on one turn of pitch-and-toss,

And lose, and start again at your beginnings

And never breathe a word about your loss:

If you can force your heart and nerve and sinew

To serve your turn long after they are gone,

And so hold on when there is nothing in you

Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,

Or walk with Kings—nor lose the common touch,

If neither foes nor loving friends can hurt you,

If all men count with you, but none too much:

If you can fill the unforgiving minute

With sixty seconds’ worth of distance run,

Yours is the Earth and everything that’s in it,

And—which is more—you’ll be a Man, my son!


Ah .. e se pudesse escolher algo a ser que ainda não tenha sido, mesmo que por breve instante de sonho num “se..” abominável e intrigante, talvez escolhesse um diário de bordo :)

terça-feira, março 11, 2008

2004, Março, 11

ATENTADO
Crime, delito, violação, insulto, provocação, ofensa, agressão, sacrilégio, desacato


Chega?
Acredito que sim. Mas também acredito que por mais palavras hediondas que se utilizem na caracterização nada supera o sofrimento, a perda, a injustiça e a impotência perante a morte. Uma morte assim, vidas arrancadas.
Em nome de credos inexistentes.
Em nome de nada.
E para nada.


Un fuerte abrazo de solidariedad a todos *

..era

Sistemática, nomenclatura, filos, sub-filos, classes, famílias, géneros e espécies.
Plantas que de xerófilas podem ainda ser hidrófilas e higrófilas, fungos, protistas e moneras, reinos e células por todo o lado, seres pluri ou unicelulares e outros ainda sem núcleo distinto.
Há os que se alimentam de outros, os que produzem o seu próprio alimento, os tem têm e os que não têm clorofila. Os que se alimentam de matéria em decomposição e outras coisas nojentas que se podem observar num microscopio do qual têm de ser decoradas todas as peças principais, tais como, braço, espelho, parafuso macrométrico primo direito do micrométrico, lamelas e outras coisas com cheiro a laboratório e a hospital.
Está tudo tão arrumadinho mummy .. exclama a princesa do nada, não nos vejo é a nós em lado nenhum ..! Nós? sim nós. Os Homens!! (risota geral)


A princesa com teste de ciências e a mãe?
Bom, a mãe tinha pedido um dia ou dois não era?
Era .. ;)

segunda-feira, março 10, 2008

days .. :)






Há imensa coisa sobre o que escrever hoje. Deparo-me com notícias sobre os mais variados temas e isso a acrescer à minha tendência para rebuscar raízes, inventar e contar histórias, pedaços de mim ficcionados ou não, daria pano para mangas de veste papal.

Camacho demitiu-se, o meu Sporting perdeu, uma falsa bomba em Felgueiras provocou um caos bem real, tentativa de rapto na casa do Gaiato, prevê-se o regresso do mau tempo e o nosso Primeiro desvalorizou a manifestação dos professores. Parêntesis aqui nesta, para expressar a minha simples opinião: se o nosso Primeiro valorizasse os professores penso que nem teria havido manifestação, mas adiante ..

Há centenas de coisas sobre o que escrever, mas perdoem-me que fiquei aqui presa nesta paz e quietude .. e, vão ter de me dar um dia ou dois.. ;)

sexta-feira, março 07, 2008

isn't that so?

“Let every man be master of his time .. “
Lady Macbeth

I want my free time back, yes please ;)
Have a nice week end you all*

quinta-feira, março 06, 2008

vasculhando o baú .. (VI)

Poderei voltar atrás? Perguntou a garota, olhos negros brilhando como que marejados de lágrimas que não caiem, não podem cair.
Poderei? Inquiriu de novo, ar mais ansioso e mecha de cabelo encaracolado a tapar-lhe a face .. poderei?
Fiz tudo mal. Gritei quando era para ouvir. Ouvi quando devia ter mandado calar. Roubei a esperança a quem dela vivia, matando. Sobrevivi em esperanças alheias sem pulsar. Bateu forte o coração até o mandar agrilhoar. Matei de novo. Matei-me a mim continuando presa na pergunta inocente de uma menina longínqua de caracóis e olhos negros. Olhos da noite. Noite de luz.
Poderei voltar atrás? E a voz cristalina daqueles olhos negros acompanham-me na vida sempre que uma decisão há a tomar. Poderei? .. e a lágrima desta vez às escondidas cai silenciosa e sem significado. Lágrima solitária de um coração sem dor. Nem cor.
Poderei? E pondero os “vale a pena” mesmo nas grandezas das almas, porque estas quando pequenas não valem nada. Nem pena.
“Poderei?” .. e à pergunta feita na ânsia da resposta, sorrio dos olhos negros que me miram como que em espelho, e descortino os cabelos já não tão encaracolados, já não tão rebeldes.
Poderás pequena rebelde de caracóis negros que te tapam os olhos.
Poderás sempre e sabes porquê? Porque o desenho da tua vida, a cores ou a preto e branco, está no lápis que seguras na mão e mordiscas pensando se poderás.
(2002)

quarta-feira, março 05, 2008

.. momentos de leitura (III)

Aumentou ali a lista lateral .. através de uns blogues, conheço outros e gostando do que leio e do que vejo, toca a apontar ali em letra miúda e à laia de cábula que esta memória já não é o que era .. ;) Descobri no Combustões – Obrigada Miguel – o Nocturno da Luísa .. prosa suave, muito bem escrita, fotografias assombrosas de uma cidade que amo, não sendo minha .. passa a visita diária, assim haja tempo .. :)

Não sei sequer se gosto de conquilhas (shame on me .. ) mas gostei do que li por aqui pela pena de Tomás Vasques .. e depois agradam-me os blogues que não admitem participação pública, quais livros que folheamos e só nos pertencem enquanto lhes dedicamos atenção.

.. de afinidades estamos sempre desejosos não é? Quer sejam efectivas, a prazo ou a termo .. afinidade é uma palavra que gosto, da sonoridade e do significado ..

Ouvi toda a infância a expressão “cai o Carmo e a Trindade” .. reforçada por um ai cai cai dito pela avó paterna em vésperas de fim de paciência ;) .. e através da Miss Pearls .. cheguei aqui, li e não me parece que caia “cousa” alguma ;) .. gostei.

Estes a acrescentar a todos os que constam da minha cábula e que gosto de ler .. concordando ou não na íntegra.

Coerência de gostos? Alguém falou em coerência?
Quem é que falou em coerência? (risos)

Escreve-se bem na “blogoportuguesa” .. :)

terça-feira, março 04, 2008

Crescendo (XX)

“É bom crescer não é princess?” atirei-lhe olhando-a de soslaio.
Ia à frente no carro armada em menina crescida no percurso entre a casa e o supermercado (se não fosse o virmos tão carregadas, iríamos a pé) ;) e a conversa, a postura, até o espaço que ocupa ao meu lado opinando sobre tudo e sobre nada, são os de uma menina crescida.
“É bom crescer não é princess?” .. e vejo-lhe ainda de soslaio, o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo, carinha limpa de menina travessa, o semblante ligeiramente carregado num arco que consegue fazer com o sobrolho (sai à mãe, dizem .. ).
“Não?” interrogo-lhe o silêncio.
Estaciono e viro-me para ela, agora de frente, perscruto-lhe os sentimentos tentando adivinhar que quer dizer o silêncio forçado.
“Depende mummy” diz sorrindo .. “depende da quantidade de coisas que temos de deixar para trás”.

Está crescida a minha princesa.

segunda-feira, março 03, 2008

Memória (XI)

Reflectia uma luz acerejada sempre que a labareda se inclinava e o fogo quase tocava o parapeito da lareira. O cálice de vinho em precário equilíbrio, cheio de néctar luzidio e cor de sangue .. escuro.
Lia recostada no cadeirão do avô como lhe chamava, uma cadeira inclinada de costas altas e robusta. Confortável.
A sua atenção dividida entre o Pai que lhe contava um qualquer episódio passado em tempos idos pela décima vez naquela noite, o livro e o maldito brilho do cálice de vinho em frágil equilíbrio.
A que saberia aquilo? Tinha de ser bom a avaliar pelas quantidades abismais que eram consumidas à sua frente. Deve ser bom, pensou, recordando o doce sabor da uva que gostava de apanhar e comer directamente da videira, quente ainda. Uva preta, uva branca, fileiras de vides projectavam uma sombra agradável, parreiras bem divididas pela qualidade e tamanho da uva que davam. Se souber às uvas ..
O livro prende-lhe de novo a atenção. A voz do Pai começa a ouvi-la no eco da sala, com se em vez de estar ali parado à sua frente, estivesse de saída pela porta do fundo. O livro prende-lhe a atenção porque lhe fala da vida de uma heroína. Uma mulher de armas. Uma sofredora. Um ídolo, pensava na altura, do alto dos seus catorze anos.
Que estás a ler agora? Pergunta-lhe o Pai assustando-a.
Ainda se recorda bem do castigo exemplar que sofreu quando há uns tempos o Pai a apanhara a ler às escondidas a colecção d’Os Miseráveis.
“a história de uma vida de herói Pai, a história de Joana D’Arc” .. Hum e Mao já o leste? E Che Guevara já leste?” Joana, Joana .. porcarias!” vociferava em voz dura e algo alterada.
Ela não gostava nada de Mao .. nem da fotografia que o Pai insistia em ter dependurada numa das traves do tecto, nem do que o Pai lhe contava ter ele feito.
E Che Guevarra, aquele homem barbudo com um lenço ao pescoço, representado de arma na mão? Que de interessante teria a história dele para contar? Nada, apostaria.
Levantou-se de repente para se despedir e recolher ao quarto. Livro debaixo do braço, uma labareda que estala assustando-a, livro e cálice no chão .. livro ensopado em vinho .. vermelho sangue por todo o lado .. sangue de vida tirada.
Tal como no livro, sorriu, preparando-se para o sermão sobre a falta de cuidado e a precipitação nos gestos .. sim, sim, sabia-o de cor.