segunda-feira, junho 09, 2008

O Fim


Este diário vai de férias.
E a par do pedido de férias a que todos temos direito, ainda me apresentou em papel timbrado e de assinatura reconhecida na presença, um pedido de licença sem vencimento e sem prazo. Comunicou-mo durante o fim-de-semana, olhar meio ausente e triste, de uma enfiada, papel estendido, sem permitir interrupção, como se quisesse despachar-se de algo doloroso, sem grandes questões de parte a parte.
Não foi uma conversa à volta de uma chávena de chá como costumam ser as nossas conversas, uma conversa amena, como quase todas as que tivemos neste último ano e meio, por vezes perigadas por um laivo de discussão quando não pensamos os dois da mesma forma. Raramente.
Apenas uma comunicação. Olhei-lhe as malas arrumadas, com o que de necessário se torna levar. Uma escova de dentes nova que a antiga está a precisar de substituição, dois ou três “dvds” gravados de tudo o que aqui foi dito, escrito e comentado, que é de memória fraca e quem sabe um dia não lhe dão as saudades de tudo reler. Uma camisola grossa de lã densa, daquelas à laia de marinheiro que para onde vai o frio de rachar é gélido e de neve feito. Um bom par de botas, que lhe custaram os “olhos da cara” confessa-me, e eu repetindo-lhe, como já tantas vezes lhe disse, que não sei que diabo quer essa expressão dizer. Nunca vendi os meus.
E, acrescenta passando literalmente por cima do meu aparte, como tantas outras vezes em que nos desentendemos, botas boas para a caminhada que o espera. E para onde pensas ir, pergunto-lhe, sabendo que me vai certamente responder com um qualquer comentário idiota: Quando chegar, saberei! – responde. ..Eu não disse?
Na mochila que colocou às costas espreita um peluche. Sorrindo confidencia-me que o “retirou” de cima da cama da princesa. Quer a memória viva da menina que lhe tem abrilhantado a vida, deliciando-o. Os meus olhos humedecem-se e consigo entendê-lo. Viveu-a. Vai certamente sentir-lhe saudade. Vejo-o afastar-se em passos pequenos, ainda relutantes, como se não soubesse muito bem se ir … se ficar.
Estendo-lhe o braço de mão aberta e vejo-o abanar a cabeça sorrindo.
Já fechaste tantos cadernos, minha amiga. Sou só mais um.


Regresso ao aconchego da minha memória e penso em todos os cadernos que já enchi de letra miúda, a título de tudo e de nada. Principalmente de nada. Penso na sensação de chegar à ultima página, sabendo que aquele está completo ainda que fique a meio. Quase sempre ficam a meio. Este é mais um. Ele tem razão.
Lembro-me, de quando o iniciei, ter facultado o endereço a dois ou três Amigos, convicta que seriam os únicos a ler-nos até um outro Amigo me alertar que teria de ser muito ingénua para nisso acreditar. E era.

Foi lido este pequeno diário. Por outros olhos que os meus.
Partilhei, emocionei-me e emocionei, ri e sorri ao mesmo tempo que consegui ver os vossos risos e sorrisos, sei que surpreendi, sei que desiludi. Como na vida. A lá de fora.
E acima de tudo aprendi. Muito. Terei ensinado?

O grato que é saber-Vos meu Leitores, ninguém pode mensurar.
Só eu.
Afianço-Vos que é infindo.

A todos, o meu Bem-Haja *

sexta-feira, junho 06, 2008

study .. study .. again?


Recta final.


Provas globais que se pretendem globalizantes na apreensão de tudo o que se estudou, toda a matéria que se abordou, exercícios para a direita e para a esquerda. As crianças cansadas e nervosas a dar o seu melhor. Pela última vez, antes de entrarem no merecido período de férias. Este fim-de-semana é para aqui que vamos estudar. As disciplinas que faltam são Inglês e Ciências. O Inglês runs all over e das Ciências já falei não já? ;)


Acham que vamos conseguir? ;)

Enjoy *

quinta-feira, junho 05, 2008

keep rolling ..


Iniciativa.
Tomamos tantas na vida. Às vezes dou por mim a pensar, e se eu não fizer primeiro, será que tenho o mesmo “eco”?
Eco.
Uma palavra de que gosto. Eco que procuro. Porque é preciso haver eco.. De interesses, de afagos, de palavras que assim sentimos retornam em vez de simplesmente baterem na parede.. e caírem no chão, de gestos e de surpresas.
Iniciativa. É a de telefonar a saber, lembrar um aniversário, uma data importante, e outra que sem importância alguma nos traz o som terno e carinhoso da voz que queremos ouvir, de escrever à família afastada, e porque não à que está perto também. De conversar com aquela amiga que precisa de um desabafo, mesmo que tenhamos de empoleirar o telefone no ombro porque algo mais premente está a requerer também a nossa atenção como por exemplo .. De ir para casa a pensar na surpresa que se gostaria de fazer, na prenda que sabemos gostariam de receber, na refeição a confeccionar porque faz parte dos gostos de quase todos que há sempre quem de esquisitice seja feito.
Iniciativas.
Pensamento nos outros que o afastam de nós próprios, ou por pensarmos nos outros, naqueles que amamos, assim nos alimentamos? Confuso? De facto ..
Iniciativa.

E o Mundo gira à volta dela, o pilar para que tudo funcione é certamente quem a toma. Quem age. Quem espalha o seu humor e amor, carinho e “ralhete”.
Iniciativa.
Às vezes dou por mim a pensar, e se eu parar será que continua?

quarta-feira, junho 04, 2008

derrapagem ..


O estado ultrapassou em 800 milhões de euros a melhor das perspectivas para uma determinada “obra” – obra que tem o nome pomposo de despesa pública irregular e eu assim de repente, penso em quantas foram já as vezes que este tipo de escândalo veio a lume sem que nada se conclua no borralho, parecendo até que o mais diligente bombeiro está de serviço 24 sobre 24 horas.
Além disso, penso ainda, se é irregular ou ilegal como já o li porque diabo continua a acontecer e a engrossar listas de números com muitos zeros. Mais: num país com dois milhões de pobres e em que metade destes vive com menos de €8 por dia, como pode alguém vir desvalorizar o que quer que seja, que se prenda com esta ou outras quantias. É preciso soletrar? Oitocentos milhões de euros. Tem troco?
800 milhões de euros a mais, ou a menos, que vão obviamente ser investigados para daqui a uns meses aparecer um pomposo relatório, registado, assinado e lacrado (será que ainda se usa isto?) informando os tontos ainda desconfiados que está tudo bem, tudo regular, e não há abusos de parte alguma.
Como o outro. O dos combustíveis. Mas esse tem uma atenuante, num país em que este tipo de iniciativa demora normalmente qualquer coisa com ano e meio, até que todos se esqueçam ou confiando que todos se esquecem, convenhamos que aquela coisa aberta não sei por quem para aferir das responsabilidades de outro alguém foi feita em tempo record, com algumas horas de sono perdido e muita cafeína. Não podia dar bom resultado que nenhum deles é menino universitário habituado a noitadas.
800 milhões de euros, e eu penso na quantidade de crianças a passar fome, idosos sem apoio e sem mesada que já passaram a idade, escolas degradadas, estradas esburacadas, prédios a cair e gente a viver na rua. 800 milhões de euros assim levemente justificados «Tratando-se de um número que impressiona, temos de ter uma visão relativa do que ele representa - 1,1 por cento da despesa total da administração pública», afirmou Teixeira dos Santos.
Uma visão relativa. E vem-me à memória a máxima de Protágoras “o Homem é a medida de todas as coisas” .. e vem-me à memória que a relatividade que o senhor advoga não enche barrigas com fome, medida pela qual se deveria pautar qualquer governante.
E vem-me ao espírito a quase certeza que tudo isto não passa de um sofisma. Nada mais.

.. momentos de leitura (VI)


Curva da Estrada da Leonor Barros entra direitinho na Barra Lateral desta diarista. Curvas da Estrada .. da estrada da Vida que a Leonor nos relata com mestria, saudades e memórias sentidas misturadas com outros rabiscos de puro génio à ironia e ao bom humor.
Parabéns Leonor. Gosto muito de a ler.

Francisco José Viegas dá-nos aqui conta do que é ir à Feira do Livro.
E eu subscrevo na íntegra, sem mais nem menos.

Já todos sabem que sou fã do Blog Miss Pearls .. e a sua autora também o sabe ;)
E este post redigido a convite não podia estar mais certo ainda que pautado por uma ironia britânica, bem a propósito;)

Escrita dura mas cheia de uma verdade que não sendo inconveniente se torna quase “desconfortável”. Talvez não fosse má ideia começar por assimilar.
Mais uma vez o Miguel, no seu Combustões.

terça-feira, junho 03, 2008

7.500 é um número engraçado.
Eu que pouco ligo àquilo que tenho lá no page bottom achei graça à descoberta.
7.500 leituras? .. 7.500 caracteres? (era bom oh tu que nada resumes?!) 7.500 vezes?, 7.500 ”cliques”? (o que eu não gosto desta palavra..), 7.500 expressões interrogativas num “deixa cá ver o que é que aquela anda a fazer”?

Não interessa.
7.500 visitas a este diário é Obra.
Obra da Vossa Infinita Paciência :)

Bem Hajam *

.. e agora algo completamente diferente ;)


Às vezes, confias.
Outras, desconfias.
Às vezes a ânsia de confiar é tal que em vez de desconfiares fortemente de todos os indícios que lá estão e te dizem Desconfia!, vais confiando e acreditando até bateres com a cabeça na trave de madeira tosca e velha escondida por debaixo do colchão de penas último modelo tapado com o melhor dos cetins. Daquele escorregadio no desassossego.

Às vezes, desconfias.
Principalmente de quem te diz “Desconfia!”.
Negas a evidência que mais sinalizada não pode estar.
Como quem não se quer desiludir na expectativa e na fasquia. Alta. Sempre tão alta a fasquia.

Normalmente acordas.
Tarde e a más horas, sem saberes que fazer com tudo o que investiste.
Tudo o deste. Tudo em que acreditaste.
Como se o pior de toda a situação fosse teres de ouvir a vozinha altaneira da tua consciência afirmando sibilante “I knew it!”
Normalmente acordas.
E na melhor das situações verificas que tudo não passa de uma terrível dor de cabeça. Daquelas que passam com dois comprimidos seguidos e uma chávena de chá fumegante.
Do mal, o menos.
A única chatice que tens de enfrentar agora é descobrir qual a bendita farmácia de serviço.
Nada mais.


Pediram.
Algo irónico sobre qualquer coisa complicada.

Confesso um teste à minha capacidade que me proporcionou algum divertimento na composição. Irónica serei um pouco mais no trato pessoal e em brincadeira íntima de quem me conhece e não leva a mal. Digo eu ;)
Conseguiria colocar isso na escrita? Era a questão.

O tratamento do tema não foi difícil. É tema fértil, a vida feita de encontros, desencontros e uma grande falta de paciência.

Difícil mesmo foi colocar o que me apeteceu escrever em 1150 caracteres.
Tem mais 9 eu sei. Chato isto assim! ;)

segunda-feira, junho 02, 2008

let them be .. :)


.. com tempo, observei-os.
As idades oscilam entre os 10 e os 12 anos, rapazes e raparigas à espera que escurecesse para que funcionasse a discoteca (ainda se diz assim isto?) improvisada a propósito de um aniversário. Discoteca com bola de espelhos diligentemente dependurada no tecto, e umas luzes de néon em vários cores que ofuscam tudo em redor. Rapazes e raparigas que no final da tarde se tinham divertido bastante nos carrinhos de pedais pelo parque fora, em alegres corridas e gritinhos (elas) e alguma asneirada (eles), sim, sim, que eu ouvi!
Os monitores sugerem uma coreografia em grupos com vista ao prémio, que evidentemente ganharia o grupo em que estivesse a Menina dos Anos. Todos o sabiam e comentaram, mas não foi por isso que aos exercícios se dedicaram com menos afinco. Os rapazolas, em menor número, encarregaram-se de pescar três garotas para sua defesa e elas, a armar um ar de contrariadas mas cheias de orgulho, lá foram puxadas umas pelas outras para o outro lado da sala. Admirei-lhes o ritmo natural nos corpos pequenos e magros, as pausas, o abanar de cabeça e anca, e eles fantásticos nos pinos e piruetas só com um braço. Do outro lado, semi escondidas por um pano suspenso, as restantes meninas multiplicavam-se numa coreografia complicadíssima que mudava de cada vez que ensaiavam originando mais gritinhos de protesto e muita gargalhada.
Finalmente escureceu. Em pleno funcionamento, as luzes espalham um calor e um desconforto difícil de aguentar. Os olhos piscam na dificuldade de se habituarem aquela luminosidade que fere.

A criançada, foge em debanda para a rua onde se diverte no escorrega, na ponte de madeira, no jogo de futebol na relva iluminada, e na muita pedinchice para voltar aos carrinhos a pedais ;)

Felizmente, pensei. Deixemo-los ser .. crianças.

so easy .. :)


.. fomos cedo. O dia estava lindo do lado de cá mas ao chegar, aquela névoa gelada que muitas vezes envolve a Vila. Vila que é linda, verde, frondosa, acolhedora. Vila que me encanta desde os passeios de Domingo com os Pais e irmãos, por vezes em semblante de mau feitio num “tenho mais que fazer”. Hoje, dando graças ao hábito e agradecendo a quem mo transmitiu.
Pacificamente, sem “fórceps” a princesa segue-me os passos.
Gosta de passear. E de conhecer coisas. Felizmente mesmo sem comprar nada ;) à excepção do Postal que representa Tritão, confundido à chegada com o Gigante Adamastor.
O estado de conservação merece uma palavra. Se tudo o que temos estivesse neste estado de empenho em prolongar a história passada pela história futura .. louvável a simpatia dos Guias, o silêncio dos visitantes, os sussurros e a quantidade de peças delicadas, bem conservadas.
O momento alto na Capela, única parte do Palácio que conserva a traça original.
A princesa a querer aprender latim para poder perceber o que está escrito no chão. Chão que não conseguiu pisar como se algo muito valioso ali estivesse sepultado.

Regressamos a casa de alma cheia, depois de pararmos para almoçar, perto das quatro da tarde. Ninguém deu pela passagem do tempo. Acho que ninguém dá pela passagem do tempo quando se viaja no tempo, não é? ;)

Os momentos de felicidade na vida? São simples.

sexta-feira, maio 30, 2008

Dias Mundiais



era bom que pudessem ser todos não era?
E é .. crente que sou está na nossa mão.



Bom fim-de-semana *

Reflexões (I)


Cair na inconsciência pura de que “se me amas respeitas os meus gostos e eu faço o que quero porque não me apetece prescindir de nada que me dê prazer”, é um erro.
Um erro porque na vida temos de saber investir. Investir nos relacionamentos se, obviamente, os quisermos manter. Sejam eles quais forem. Investir, cuidar, mimar, regar e alimentar como se de um pequeno jardim se tratasse. Toda a gente sabe que quando o jardineiro se descuida, a árvore morre.

E o investimento, para além do na bolsa em queda no nosso pobre mercado financeiro, pauta-se em grande parte por cumplicidades, cedências e agrados. Cedências de pequenas coisas que é indiferente que façamos ou não e só as fazíamos porque mais não tínhamos com que ocupar o tempo, e cedências em coisas maiores que em nome do amor que sentimos, abdicamos, não necessariamente em prejuízo de nós, mas obrigatoriamente em fomento de ambos. Se isto acontecer de parte a parte, temos caso.
A minha avó ensinou-me na vida e desde muito cedo a fazer um simples exercício .. change places, put yourself in the other’s shoes ou try it on another angle. É fácil. Se amo e quero preservar este amor, se para mim a harmonia é essencial, se o bem-estar físico e psicológico da pessoa que está comigo me é importante, porquê continuar a dar crédito a pequenas e malévolas atitudes que sei, porque sei e bem, vão magoar, humilhar e fazer sofrer a quem quero bem.
E que me quer bem. Que sei me quer bem.

Ás vezes achamos que isto é uma perda de personalidade. "Eu? Tão independente e altruísta a perder-me em detalhes para agradar? "
Não é agradar. É construir. E no pedra sobre pedra tem de haver algo mais .. tem de haver cimento. Caso contrário esboroar-se-á tudo qual castelo de areia em onda de arremesso.
Sem base.
Sem substância.
Sem nada.
E aí .. bom aí podemos continuar alegremente cantando e rindo, dedicar-mo-nos ao que nos dá prazer, sem concessões, sem cedências, sem prejuízo de coisa alguma.

Mas .. sozinhos com o nosso umbigo que de repente, deixou de parecer tão atractivo como era.


quinta-feira, maio 29, 2008

nonsense.. too much nonsense ;)


Dia de consulta no dentista da princesa é sempre acontecimento que me concede pelos menos noventa minutos de espera, num folhear de trabalho se tive a infelicidade de ter de o levar para casa, ou uma ou outra revista daquelas que abundam nos escaparates das salas de espera. Pego em duas ou três, cujos títulos não decoro, e dedico-me a folheá-las enquanto a princesa equilibra um jogo com uma parceira que tem metade da sua idade.
E fico a saber coisas que, de facto tenho de dar a mão à palmatória, não me interessando rigorosamente nada me concedem a “oportunidade” de dar umas boas gargalhadas:
A senhora que no outro dia teve um acidente, sem danos, que fez parar os noticiários e refazer as gordas das gazetas, está grávida de alguém que ainda é casado com outra infeliz e portanto aparece em fotografia de camisola de manga à cava, barriga à mostra a comprovar que fala verdade, ela que ultimamente tanto tem sido acusada de mentir.

Há uma actriz, da qual não sei o nome, que desrespeitando o contrato que a “prendia” a uma qualquer estação de televisão, bateu com a porta na cara das filmagens de uma série, que vou querer ver, provavelmente para me decepcionar dado que li o livro mas ainda assim, mas dizia, bateu com a porta na cara das tais filmagens e passou-se para outro canal de televisão. A sorte é da substituta, contrariando a máxima pouco decorosa da anedota que sobre estas versava. Substituta que, diga-se à laia de passagem, me parece muito melhor actriz que a primeira.
Digo eu sem ter visto nada em que qualquer delas actuasse.

Por causa da gravidez real de uma outra actriz do nosso écran (não vale perguntarem-me qual o canal) a novela em que a mesma participa vai ter de ser totalmente alterada, lamenta-se alguém que me parece o autor da dita. Da novela claro, não da actriz. Ora ainda bem que assim é penso na minha ingenuidade. Pior seria se algo que se tivesse passado na novela lhe alterasse profundamente, e assim em laivos de tristeza, a sua vida pessoal.

E assim passei quinze minutos .. o que quer dizer que tenho ainda para aí uns sessenta para “queimar”, querem que continue ? ;)

quarta-feira, maio 28, 2008

a way to go ..


A manhã está luminosa como convém a uma manhã de Maio .. Maio o Mês das Flores, numa Primavera tardia para gáudio de quem não gosta da estação.

A manhã está luminosa, o céu claro de um azul bebé pontuado por nuvens rareadas que mais parecem pedaços de algodão imóveis, sem vento. A minha rádio favorita passa o Pacific Rhythm e reparo na repetição do termo ao passar as docas, o Costa Pacífica atracado e seguro num cais sem ondulação aguarda os passageiros sonhadores de outras paragens, mar fora sem perigo, algo que gostaria de fazer penso, logo eu que a única forma de poder deixar de ver terra é de avião. De barco seria incapaz. Aglomeram-se no cais as caixas de mantimentos que providenciarão a despensa daquele colosso nas próximas semanas para que os seus clientes tenham a fruta fresca ao pequeno-almoço e o pequeno marisco cozido nos lanches ajantarados. Homens em fato-de-macaco, tão pequenos perante as enormes gruas que se multiplicam cais fora, numa azáfama própria de quem vive a concretizar sonhos. Sonhos de escape, partir para longe, esquecer?

A manhã está luminosa e hoje minha Avó vesti a camisola de caxemira que me deste há quase vinte anos. Aposto que o calor tépido que senti é parte do teu abraço, aquele abraço mais apertado e mais especial que me davas sempre neste dia. Um abraço sussurrado num “it will be a good year, my dear”, e será talvez por isso que desde há muito desejo os Parabéns começando com “que seja um bom ano aquele que agora começa”.
Porque é no dia de aniversário que viramos a página. Ao contrário dos que fazem balanços na passagem do ano civil, eu gosto de os fazer em primeiro lugar quando me apetece, e depois, quase por “obrigação” de pensamento no dia em que nasci. E já vão alguns em cima do ano que nasci. Foi um bom ano este que agora acaba. Optimista e realista num misto de entusiasta prudente, acho que tenho conseguido retirar da Vida, este percurso por vezes em estrada lisa e bem sinalizada, outras cheio de obstáculos invisíveis, a possibilidade de dizer hoje: foi um bom ano.
A manhã está luminosa, como convém.
E o sorriso da princesa logo de manhã cedo num Parabéns Mamã, abrilhantaria a manhã mais chuvosa.

Que o próximo seja igualmente um bom ano, ainda que possa não concretizar aquilo que me fez sonhar .. neste.

terça-feira, maio 27, 2008

Tricky Quiz



Pergunta inocente, como quem oferece um gelado e quer saber os sabores preferidos.
What philosophy do you follow, como se a seguir nos dessem um remédio para a vida ..
Desconfiada à partida de tudo o que sejam testes de cruzes, neste caso de bolas, preencho com algum desconforto as respostas entre o totally agree e o strong disagreement para chegar à conclusão que me apetece naquela frase específica acrescentar mais um ou dois pontos (na melhor das hipóteses), que me parecem fundamentais e que sei influenciarão (deveras) o efeito a obter.. ;)
What philosophy do you follow? E o resultado já esperado, que tenho a obrigação de me conhecer, é um forte, imenso e de percentagem acentuada Existencialismo, seguido pelo fiel Utilitarismo e alguma dose de Nihilismo (o meu outro eu a tentar assomar .. quieto!) ;)
Não é fácil.
Mas é a verdade ;)

"Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does. "

what about ..


Pede o Amigo Réprobo a minha Hate List.

Detenho-me no tempo que a fase de nuvem negra e carregada bem por cima da minha pobre cabeça levar-me-ia a desancar este Mundo e o Outro num exercício pouco ponderado de menina crescida, que sou, contudo tão mais fácil de resolver.
Em primeiro lugar, não gosto do termo detesto e detesto o termo odeio. Energia mal centralizada naquilo que nos faz mal, nos faz sofrer, sentimentos por vezes aprofundados numa tentativa de sofrer ainda mais .. o self_pity do nosso descontentamento levado a extremos? Já por lá andei .. talvez seja isso mesmo.

O que odeio eu? Alguém? Alguma coisa? Dedico-me a reflectir sobre os meus “ódios” que não são mais que situações desagradáveis com as quais tenho por vezes de conviver .. e agora que penso nisso, com as quais já convivi mais, adquirida que foi a “coragem” de as afastar simplesmente do meu caminho.
Situações? Perguntam Vós e bem .. e que situações serão essas oh tu já que escreveste meio_post sem nada dizer. Ora começa logo aqui, nesta minha incapacidade de responder directa e linearmente ao que se pergunta, por exemplo. Depois segue a lista com o “terrível” defeito que alguns humanos têm (e por humano, a minha cadela fazia o mesmo .. risos) de apertarem o tubo da pasta de dentes pelo meio. Segue-se o papel no chão, seja em que situação for, mas se for na praia então, exaspero. A estupidez. A estupidez humana fundamentada nesta postura tão na moda do “no care”, irrita-me. O ter de me repetir, hoje mais controlado por defeito profissional, tirava-me completamente do sério há uns anos atrás. Esbarrar nas incongruências das estórias em que me fazem acreditar chega a tirar-me o sono. Tomarem-me por tonta ou subestimarem a minha capacidade de raciocínio idem, idem. A falta de humanidade acaba a pequena lista, e ainda bem que me disseram que eram só seis (!) os pontos a focar. A falta de humanidade na fila do supermercado, na preferência do estacionamento, no segurar a porta e no se faz favor ou no obrigada. A falta de humanidade no silêncio aos bons dias, nas pequenas e “low_cost” atitudes que podemos ter com quem precisa, quem carece, quem sofre e pena.

E no muro, no muro que erguemos ao nosso redor, como se soubéssemos, tivéssemos a certeza absoluta que nunca estaremos do outro lado.

segunda-feira, maio 26, 2008

Feira, Livros e .. :)


A Feira do Livro está linda, o dia de uma tímida Primavera ajudou, ainda que grossas e brancas nuvens a parecer o que quisermos que seja, ensombrassem o sol fraco que insistia em brilhar. Pavilhões em cores vivas, gente simpática e sorrisos por todo o lado, num até que enfim, supus.

Mãe e filha em alegre caminhada com objectivos definidos quanto à aquisição daquele livro específico e outros que se desenham no desejo de ler assim que os olhos são pelo título atraídos.
Passeio de mão dada, calmo, no meio da multidão, três passos e pára, olha, toca, lê introduções para seguir mais três passos, sem cansaço. Alheamento à excepção da mão na mão com direito a queijadas e garrafa de água, e a princesa de conversa com Maria do Rosário, a gentil autora dos Detectives Maravilha, série e livros que devora, o Nº 14 na mão à espera do desejado autógrafo. “Gostas de ler?” pergunta-lhe sorrindo, e ao “Imenso!” como resposta levanta os olhos do que escreve a eito numa interrogação divertida perante tal convicção de gente pequena “Hum .. sério?” reforça, ao que a princesa sorri na afirmativa e a mãe pede intimamente ao céu que não lhe pergunte que livros já leu na sua ainda pequena vida, ou não saímos daqui e lá se vão os três passos, pára e observa, continua ;)
A mãe de novo distraída, na procura da Editora que a levou à Feira e a princesa puxa pela manga da camisa, “mummy aquele senhor chama-te” .. o senhor era o amável editor que demonstrou há uns tempos largos algum interesse pelas letras desta aprendiz, tivesse ela a capacidade de lhe apresentar algo de sequência lógica feito. Não tem.
E já mudou de ideias?” atira-lhe .. “Ah .. pois, as ideias” respondo sorrindo, na despedida.
Finalmente a Relógio d'Água e a pergunta sobre o livro procurado. A desilusão na cara da princesa que lhe queria fazer uma surpresa no aniversário mas não sabia onde procurar o livro de que a mãe tinha falado, e afinal era tão simples, ali estava ele! O senhor por detrás do pequeno balcão divertido com a situação, passa-lhe um catálogo com os contactos “se a mamã continuar com estes gostos .. ri-se .. para o ano já sabes onde encontrar a prenda de aniversário!” Mais três passos, pára, lê, eu tenho este mãe, e aquele também, continua, mais três passos.
Às Histórias de Portugal e às Universais a Mãe abana a cabeça, não porque não ache interessante e enriquecedor mas porque aquela ou outra versão similar já existem no reino lá de casa. Lidas, ainda por cima.
A princesa escolhe então o Castelo dos Livros, depois de muito analisar títulos e introduções. Porquê? Pergunto-lhe, ao que abrindo o livro, lê-me:
quem escreve um livro constrói um castelo e quem o lê habita-o” .. posso, mummy?

A Feira está bonita e a Obra, esse castelo imenso que habitamos sempre que a ela nos dedicamos, muito bem representada.
Mas o momento alto, ou não fosse esta diarista uma intimista, foi quando nos deitámos na relva, mãe e filha em partilha silenciosa, ela a invadir o castelo a que chama seu, eu a desvendar a brilhante tradução que António Pescada fez de Turguéniev.
As duas, em sossego, até o Sol se pôr.

sexta-feira, maio 23, 2008

e a boa notícia é ..















que a Feira do Livro abre dia 24 de Maio :)

Bom fim-de-semana *

quarta-feira, maio 21, 2008

.. surprise *

Couro de cor

Sombra de som de cor

De malmequer

De malmequer de bem

De bem me diz

De me dizendo assim, serei feliz

Serei feliz de flor

De flor em flor

De samba em samba em som

De vai e vem

De ver de verde ver

Pé de capim

Bico de pena, piu de bem-te-vi

Amanhecendo assim perto de mim

Perto da claridade da manhã

A grama, a lama, tudo

A minha irmã

A rã, o sapo, o salto de uma rã
(Gal Costa)

Passa sem parar esta lá em casa ultimamente. Decorada em trejeito de Língua Brasileira e Familiar, a princesa brindou-me ontem, de surpresa, à chegada, ainda mal tinha colocado o casaco no cabide e as botas na despensa, com uma coreografia de sapatilha calçada ao som desta Música, entoando a letra na sua voz ligeiramente grave. Honestamente? Fabulosa! ;)

Adoro Surpresas eu *

Tenham um .. hum .. adorável, sim pode ser, adorável Holiday *


PS_ Claro que se eu soubesse como colocaria a versão musicada.
Mas não sei. Nestas coisas sou pouco mais que ignorante ;)

terça-feira, maio 20, 2008

laçadas..


.. alguém que amo disse-me há um tempo que na vida damos, com as pessoas que nos rodeiam, nós e laços.
Nós com o filhos, os únicos bem apertados sem folgas de marinheiro, aprendidos na técnica do escutismo, fortes e seguros que sirvam ao mesmo tempo de porto de abrigo onde sempre regressar. Elos robustos, que inspirem segurança, carinho e liberdade, esta tabelada na liberdade que reconhecemos aos outros e assim ensinamos. Vínculos valentes, de valentia forçada por vezes feita, quando a nós, pais e acima de tudo humanos, nos apetece igualmente verter uma lágrima, porque sim. Ataduras. Possantes. Cheias de vida. A Vida que proporcionámos num querer de prole, que assumimos ao primeiro pontapé sentido ainda no nosso interior, e nunca, mas nunca destituímos. Nós.

Gostei tanto da explicação que me aventurei na pergunta para a qual sabia de antemão a resposta a receber. E os laços? Laços de enfeite, de embrulho de prenda comprada na antecipação da surpresa? Laços espessos enfeitados, puxados e repuxados em caracol? Laços de cabelo de menina pequena, cetim brilhante, ataviando fartas cabeleiras? E os Laços?

Os laços, respondeu, damos com todos os outros na vida. Laços por vezes coesos daqueles que não desmancham facilmente, e até dos outros que quando sentimos desfazer apertamos uma ponta, exaltando a nova laçada. Outros? Bom, outros lassos em laço de pouco querer feito.

Gostei tanto da explicação que me aventuro a escrevê-la.
Não tão bem como a ouvi que de expressão de olhos sorridentes e serenos foi feita.

Mas ainda assim ..

porque ..



Que tristeza é essa que te faz chorar?
Que tão terrífico se passou que te coloca essa mágoa nos olhos, outrora brilhantes e confiantes?
Que mal vem ao Mundo assim de repente e em vagas de lágrimas que caiem grossas, imparáveis, cara abaixo sem que nada faças para as travar?
Não o consegues, adivinho, é mais forte que tudo, e o peito soluça em estertor anunciando uma morte calculada, provavelmente desejada.
Que tristeza é essa que te ensombra o sorriso, outrora aberto e confiante de quem sabe o que quer?
Que angústia é essa?

Quando se está triste está-se porque, advogam as leis que na consequência colocam uma causa, coisa arrumada, matemática e sem sentir.
Mas tu não o sabes explicar.
Choras simplesmente e à vista de todos.
Sem pudor.
Como se já não interessasse.
Interessa?


Porque só esta semana já me cruzei com três mulheres que choravam.
E o meu sentir fica de luto quando isto acontece.

segunda-feira, maio 19, 2008

.. sorriam

A princesa em festa de anos de uma amiga de sempre, marcada no polidesportivo de uma das nossas Universidades no Centro da Cidade. Sábado de tarde, tarde de sol, amena, e a mãe a equacionar voltar tudo para trás e aproveitar as três horas disponíveis para desfazer o monte de roupa para passar a ferro que se acumula sem vergonha no cesto, ou finalmente aquela volta que a despensa precisa e merece.
Ideias rapidamente afastadas, livro debaixo do braço e a convicção de que o jardim estaria ainda como se lembra. Pequeno, acolhedor, dos poucos ainda bonitos, no centro da cidade.
A princesa entregue em alegres brincadeiras e saudades de quem há muito não se vê, até logo, até logo, e a mãe sentada num dos bancos do jardim, que continua como se lembra, livro debaixo do braço. Sozinha. O Livro tem-na surpreendido agradavelmente, Luís Naves na sua primeira aventura literária, ele que todas as semanas lhe dá textos magníficos num blog conhecido da praça ;) .. ar levemente ausente, livro agora no colo em observação ao redor.
Concentra-se finalmente não sem antes se ter apercebido do deslevo com que é cuidado aquele espaço, o chão limpo, madeira dos bancos arranjada e bem pintada. Flores e pequenos canteiros por todo o lado e uma árvore frondosa com sombra simpática que a acolhe sorrindo ao sabor de uma brisa suave que não chega a despentear cabelos.
Concentra-se e reinicia a leitura interrompida na noite anterior.

Não sabe quanto tempo passou até que aquela voz que provavelmente soaria há algum se tornasse realidade audível, sobressaltando-a ligeiramente como quem acorda de um sonho acordado.
Sim? Pergunta sorrindo e a expressão que a acolhe é de puro espanto.
O rapaz à sua frente, olhos azuis imensos que no espanto parecem ainda maiores. A expressão é cansada, roupa puída mas limpa, sapatos maiores que o número a calçar, cabelo louro em desalinho e um pedaço de cartão na mão.
O seu olhar interrogativo, livro ligeiramente afastado, desbloquearam-lhe a fala. Falava de Sida disse a medo, e há muito que ninguém me dirige assim um sorriso, senhora. Corou ligeiramente. O pedaço de cartão empunhado à sua frente, como que a protegê-lo. Os olhos pregados nos meus à espera.. de outro sorriso?
Equacionei as hipóteses. Outro sorriso que em nada me custava, custar-me-ia a leitura de um livro que poderia retomar em breve. Que estava a gostar de ler, no alheamento daquele jardim deserto, numa tarde de Sábado sem princesa. Sozinha. Outro sorriso alimentaria a alma daquele ser que ora num pé ora em outro, se equilibrava à minha frente, meio corado, mal vestido, carente de atenção. Sem nada pedir em troca.
Sorri de novo. As pessoas andam muito ocupadas nas suas vidas .. proferi consciente do chavão. Sente-se, convidei.
Sentou-se, a medo, e completamente chegado ao ponto oposto do banco de madeira.
Mais um pedaço e cai, pensei.
A conversa surgiu solta como se conhecidos fossemos.
Confessou-me ser seropositivo, abandonado pela família, ao cuidado de uma qualquer associação da nossa Cidade. Contou-me como passa os dias tentando alertar as pessoas para o perigo da sida. Além do cartão, de sua autoria, que me mostrou orgulhoso das palavras gritantes escolhidas para chamar a atenção, havia um pequeno saco preso à cintura com uma série de panfletos que distribuía a quem passava. Principalmente nas escolas, refere, é necessário alertar os jovens para isto, menciona como se jovem já não fosse. Mas ninguém me liga nenhuma, conclui tristemente, olhos no chão, as pessoas não querem saber, sabe? Passam como se eu fosse invisível. Na maioria dos dias é assim que me sinto. Invisível. Por isso o meu espanto há pouco ao abordá-la. O seu sorriso senhora. Já ganhei o dia com o seu sorriso, desculpe, estou a abusar, de novo corado, de novo olhos no chão.
De novo aquela sensação de que padeço vezes de mais. A falta de auto estima alheia é algo que me incomoda. Seja na forma de um seropositivo, de uma colega de mal com a vida, de uma amiga de mal com o amor.
Aperto-lhe a mão na despedida. Faz menção de lhe depositar um beijo, ficando a meio, respeitoso.

Falei-lhe da vida que nem sempre é a que sonhamos. A que queremos. E a que merecemos.
Mas da obrigação premente que temos de a tentar amenizar, vivendo-a. Ganhaste um dia uma corrida tu .. digo-lhe pela juventude que me inspira.. Não está ainda na hora de deitares fora o troféu.
O meu sorriso passou para aqueles lábios sofridos, de menino homem a caminho do nada. E partiu sereno, costas direitas, e mão a ajeitar o cabelo em desalinho.
Oxalá consiga entregar os panfletos do dia, pensei, e com isso acordar uma ou outra consciência, ele que sofre na pele e na alma o resultado de ter tido a sua adormecida.

Quanto a vós meus Queridos e Pacientes Leitores .. sorriam *

sexta-feira, maio 16, 2008

oh yes they will ..



“things will go wrong in any given situation, if you give them a chance”
Mr. Edward A. Murphy, who else? .. ;)

So, don’t !

And have a charming week end you all*

.. haja quem

Sem saber ler nem escrever..
Sem saber ler nem escrever ajuda a filha a fugir ao genro, de cada vez que entra em casa avinhado. Esconde os netos debaixo da cama, tranca a filha na casa de banho minúscula, oxalá ele nunca se lembre de lá a procurar.. “ a porta é de papel, não sei que será se lhe dá um encosto”
Sem saber ler nem escrever, metro e meio de gente encurvada e “mais baixa, menina, estou muito mais baixa do que era”, enfrenta então o colosso, em voz de mel terna como quem embala um menino, fervendo por dentro na vontade que voe a frigideira que tem na mão na direcção do crânio do borracho. Cozinha-lhe os ovos mexidos como ele gosta, cheios de sal e com um pouco de leite, que há que ensopar todo o vil espírito que consome há horas no bar do Alfredo. “Amanhã já tenho outra conversa com ele”, conta-me enquanto dobra a roupa, perfeitamente engomada no cesto da passagem. “Conversa de homem para homem” (sorrio da expressão) .. “se ele pensa que enriquece à custa dos Meus está enganado”.
“Velha, só tu me entendes! E ninguém faz ovos como tu!” rosna-lhe a “besta” .. “era só o que faltava, a minha filha fá-los muito melhor, fui eu que ensinei e ela tem ainda a mão firme na gemada”. “Anda come-os e cala-te para te ires a deitar meu sem-vergonha!” é o máximo que lhe diz, ainda arrepiando caminho quando o vê olhá-la de modo ameaçador.
Isto não pode continuar Dª Alice, digo-lhe mansamente que sei que não gosta que se metam.
Gosta assim de desabafar, como se fosse com ninguém, enquanto me afaga a mão, mas isso não me dá direito a sugerir-lhe o que quer que seja. “Pois não, Menina, Pois não. Que fazer? Olhe, aturar e cara alegre. Enquanto eu for viva lhe garanto que não toca nos Meus. Ai não toca não que ainda tem cara para levar umas bofetadas.” .. levando-me a pensar quantas será que já levou, quantas evitou, em quantas se envolveu para “salvar” os “meus” como diz cheia de propriedade e preocupação.
Sem saber ler nem escrever.
Vela pela vida dos seus e por quem lhes faz mal.
Tudo com o mesmo deslevo, a mesma voz mansa e terna, mesmo fervilhando por dentro. Mesmo sofrendo.
Haja quem vele por ela.

quinta-feira, maio 15, 2008

que te diz?

(envergonhado e humilde ensaio, tentativa de coisa nenhuma, que me soube bem)


Que te diz, que te diz?
Que te traz o vento que abraças?
Em sorrisos que abarcas
Este mundo e mais ainda
O mar
O rio
O verde

Que te diz que te diz?
Que te traz a tempestade?
Feita de raios de lua
Que te diz o mocho?
Que te sussurra a coruja?
Que te diz que te diz?
A pérola que trazes no coração
Tão brilhante e tão pura
Que chego a sentir amargura
Sabê-la por mãos errantes

Que te diz que te diz
Dir-te-á que te amo?
Que te quero e venero?
Dir-te-á que te engano?

Dir-te-á que me engano.

Crescendo (XXV)


A propósito deste post do Miguel, no Combustões, a quem e de quem já me confessei leitora assídua e admiradora, lembrei-me de um episódio recente no reino lá de casa.
O fim-de-semana estava de sol e calma. Programas não nos faltam, e a ida à Biblioteca Nacional estava na ordem do dia, pedido antigo de quem quer ver ao “vivo” uma carta de Foral, “por favor Mamã”. Contudo, um teste de Ciências da Natureza ensombrava o horizonte próximo para quem tem de fazer uma concessão ao estudo.
Este ano tem.
Não me lembro de ter estudado com a minha filha desta forma até agora. Uma primária brilhante de menina de quadro de honra sem muito trabalho, sem muito tempo dedicado aos livros de estudo, que aos outros..
Depois, o 5º ano não começou da melhor forma como o atestam os desabafos que na altura fui deixando por aqui. Ciências da Natureza não é uma disciplina fácil para uma menina que aos 10 anos de idade quer ser historiadora ou escritora, agora, tendo já passado por pianista, bailarina, (o que pratica) e ainda Professora de Ensino Especial. Mas fiquemos na possibilidade mais recente: Historiadora ou Escritora. “Para que é que eu preciso de saber isto?” É a pergunta mais frequente quando se estudam chaves dicotómicas ou revestimentos de pele. “Não vou usar nunca isto na minha vida mummy!” É outra expressão quando se abordam os reinos animais e vegetais e os outros que “não são carne nem peixe e nem se vêem, portanto!
Claro que quando lhe devolvo a pergunta sobre as pesquisas que faz das biografias dos Reis ou o porquê de encomendar no simpático e prestável Circulo de Leitores um livro que se intitula Mundo Antigo, faço-o por provocação, e recebo invariavelmente a resposta de olhos faiscantes “É história Mummy!” .. claro que é História, a mesma que a Mãe gostaria de ter seguido em termos de formação Académica, não fossem as vicissitudes da vida que me atiraram para uma via completamente diferente. E de facto, isto do “runs in the family” tanta vez em vão invocado, toma contornos reais. No nosso caso, quase “assustadores” ;)
O fim-de-semana de sol e calor, nuvem ligeiramente ameaçadora em forma de teste de Ciências da Natureza, e a princesa a adiar a visita à Biblioteca, a ida à praia e a brincadeira com a amiga, para nos sentarmos em solene sacrifício à mesa da sala, ladainha sem interrupção, as fases de uma ETA, os comburentes combustíveis e os outros, a estratosfera e a troposfera, e por aí fora que vos poupo. Prometo.

Trabalho. Muito trabalho.

Acho eu, que fiz o quinto ano do liceu há uma eternidade, demasiado trabalho.
Aprecio-lhe a dedicação enquanto vai fazendo apontamentos da matéria abordada. Sei que é uma matéria da qual não gosta. O esforço é portanto ainda maior dado que menor é a disponibilidade mental em se envolver.
Ontem, ligou-me a meio do dia, coisa que já raramente faz, numa gritaria capaz de furar tímpanos, com a notícia que no teste de Ciências de Natureza tinha tido uma nota inédita.
98% Mummy, 98%!

quarta-feira, maio 14, 2008

preocupada ..



(DN on_line)

Não sei o que pensam vocês sobre isto.
A mim, além de me preocupar muito e enervar ligeiramente a empatia visível entre os dois Chefes de Estado, fico ainda algo ansiosa sobre como vamos nós fazer isto a troco de um copo de leite .. perdão, desculpem, é petróleo, isso sim.


E a título de justificação desta minha apreensão deixo-Vos alguns headlines breves e recentes sobre a situação no nosso País:

Mais de dois milhões de pobres
Um dos maiores índices de pobreza infantil
20% da população portuguesa com rendimentos mais baixos recebe apenas 5,9% do rendimento líquido nacional
A chamada pobreza subjectiva afecta 44% da população masculina e 35% da população feminina
Uma percentagem considerável de famílias endividadas em 120% do seu rendimento líquido mensal
Escolas, hospitais e outras estruturas em falta.
Desemprego.

Não sei o que pensam vocês sobre isto.
Mas eu estou-me perfeitamente nas tintas para que o Senhor tenha fumado um cigarro num avião que fretou para a viagem a Caracas.
Preocupa-me sim que lá tenha ido.

.. pedaços


.. parada na fila respeitosa e pacientemente, aguardo o andar lento e cadenciado de quem está a ser atendido. De quem pergunta e volta a perguntar pequenas dúvidas que parecem grandes problemas. As funcionárias por detrás dos guichets esforçam-se em sorrisos e disponibilidade mesmo que por vezes uns olhos em alvo advirtam o mais observador que a paciência, esse bem pouco material e tão necessário, está a entrar no que costumo chamar “red line”.
À minha frente uma senhora curvada, lenço pelas costas, vestida de negro, cabelo branco, liso, bem preso num carrapito que me faz lembrar a minha querida Tia Rita, sempre bem-disposta, cozinheira de uns pasteis de massa tenra como nunca voltei a comer, que nos abraçava a todos com o sorriso que nos estendia ainda mal tínhamos começado a subir a rua.

Sentados nos bancos de espera aguardam particularmente pessoas de idade e grávidas. Mesmo com uma fila própria para elas são tantas, que ocupam dois bancos de pau corridos, desconfortáveis, desdobrando-se em posições que lhes permitam algum conforto. As barrigas maiores mexem-se mais. Sorrio lembrando-me da expressão que utilizava na altura .. “tenho criança até à garganta, isto já não tem graça nenhuma!”, como que zangada comigo mesma, para gozo e risota dos amigos. Lembro-me bem do Verão em que a princesa nasceu, 40º à sombra, e eu a trabalhar até ao último dia com a hierarquia aos gritos que se me acontecesse por ali alguma coisa ele não saberia o que fazer! Como não? perguntava-me intimamente, tens cinco filhas, for Christ!
Volto a concentrar a minha atenção na senhora de idade à minha frente. Solta-se do fato negro um leve perfume a lavanda e reconheço imediatamente o cheiro das gavetas da minha Avó. Pequenos sacos de folhas secas para as quais na altura não tinha ainda nome, era confeccionados no Inverno, com laços de cetim a prender as minúsculas pontas, tecidos floridos e cheirosos, que, quando prontos, arrumávamos discretamente nas gavetas. Nada de cheiros muito intensos para não mascarar o perfume diário. Mas perfeitamente reconhecível naquela figura à minha frente que começava a dar sinais de cansaço ora apoiando-se numa perna, ora em outra. Volto a sorrir porque me lembro agora das filas intermináveis em que já estive, da quantidade de tempo imensurável que se perde a tratar deste papel, pedir aquele adiamento, pagar a outra conta. E lembro a princesa, pequena companhia destes infortúnios, sentada nos meus pés, pequenita e paciente. Aposto que esta senhora gostaria de ter como se sentar.
Engraçada esta coisa da memória. Assim, em fila de espera obrigatória, porque a voz da menina que me atendeu o telefone aquando o pedido de explicações me disse taxativamente e com todas as letras “não, não pode ser pela Internet, a senhora tem de cá vir” acabo por me prender em pequenos detalhes que me rodeiam, que me lembram outros tantos.. A senhora avança e sai da fila, desistiu, pensei. À pergunta “posso ajudar?” respondo-lhe com um Bom Dia e apresento os papéis que me levaram ali. “Não é hoje minha senhora, responde-me simpática a menina do guichet. O seu processo está marcado para 2ª feira. Vai ter de voltar, se fizer o favor”.
Voltarei. É evidente. O interesse é meu. Mas primeiro vou ali comprar um calendário, uma agenda, bloco ou folha de papel que me poupe a outra .. ou talvez não.
Pode ser que volte a encontrar tão frutuosa companhia que me permita recordar enquanto espero .. respeitosa e pacientemente.

terça-feira, maio 13, 2008

trials ..


Mais um desafio do Amigo Réprobo .. desta vez, algo complicado como “definir-me”. Se me conhecesse melhor nunca me colocaria uma tal questão meu Amigo, mesmo disfarçado de Inquisidor (risos).
Portanto, vou escrevendo à laia de aviso, definir-me em palavras é coisa de “pano para mangas compridas” não por qualquer assomo de vaidade mas simplesmente porque a minha incapacidade de resumo é brutal.
Ainda no outro dia, a título do que acredito “runs in the family” a Professora de Português da princesa me dizia “..delicioso ler a sua filha mas o resumo do Capítulo que lhe pedi, virou livro” .. sorri, meio envergonhada, porque sei que a incapacidade dela foi herdada. E sou eu a responsável.
Seis palavras que me definam e uma imagem.
Credo.
Já atentaram bem na quantidade delas que já escrevi até aqui? Imensa.
Para dizer o quê concretamente? Nada.

when you judge the others you are not defining them .. you’re defining yourself” ..

.. não são seis, que ainda sei contar, mesmo sem saber ser sucinta, abreviada, concisa, lacónica, precisa e sumária ;) mas são as que melhor definem a minha postura perante esta prenda que recebi há uns anos: a Vida

sexta-feira, maio 09, 2008

Happy day .. joyful Life *

Este fim-de-semana é especial.
Não por ansiar enriquecer com qualquer dos sorteios que prometem milhões, não porque me ausentarei na viagem dos meus sonhos, ou porque finalmente poderei comprar o que quer que me faça muita falta, agora assim de repente não me lembro de quê, mas algo haverá certamente, não porque nada que se prenda com algo material, realizável ou a realizar.
Este fim-de-semana é especial.
Pelos aniversários que permitiu numa feliz coincidência (e não me digam que as não há), irmã e sobrinho celebram o dia de Nascimento no mesmo dia. E poderia até ser irmã de um lado, sobrinho de outro, mas não, é mesmo irmã (quase filha) e sobrinho e afilhado (quase neto).
Este fim-de-semana é especial.
E hoje, num recordar destes 26 anos que passaram mais depressa que aquilo que quereríamos? Ou talvez ao ritmo natural .. vem-me à memória a imagem da garota rabina, olhos negros perlados por umas pestanas de assombro, enérgica e teimosa com só eu sei (risos) .. em abraço apertado. Recordo um bibe constantemente sem botão, já na altura a aversão perante qualquer tipo de fardamento era notável. Recordo uma cicatriz feia e profunda, fruto de inquietude que caracterizava tudo o que se propunha conseguir. E recordo tanto mais, felizmente partilhado, felizmente vivido.

A Ti .. e ao teu Filho, que a Vida vos sorria sempre .. e mesmo quando uma lágrima teimosa seja necessária, deixem-na secar e lembrem-se: todo este percurso, a que chamamos vida, nada mais é que uma Dádiva.
Aproveitem-na.


Desejo-vos a todos um brilhante fim-de-semana *

a propósito ..

disto e disto e ainda disto também.

..”if the misery of our poor be caused not by the laws of nature, but by our institutions, great is our sin”

Charles Darwin (1809/1882)

quinta-feira, maio 08, 2008

Fiend, wicked, cruel .. Monster!

O advogado de Josef Fritzl, Rudolf Mayer, afirmou que o seu cliente «não é nenhum monstro mas uma pessoa», mesmo que para alguns o que ele fez ultrapasse os limites do compreensível».

Claro.
“O Senhor Fritzl não é nenhum monstro”. Não no sentido de “green eyed”, por exemplo, como o Mestre explicou o ciúme .. não no sentido “Senhor dos Anéis” com orelhas pontiagudas, pelos por todo o lado e dentaduras terrificas e amareladas a inspirar o nojo. Não no sentido “Pirata das Caraíbas” aos quais ainda hoje afasto o olhar.. Não no sentido daqueles que em criança, algumas crianças achavam que residiam debaixo das camas e dentro dos roupeiros. Ou dos outros, simpáticos e peludos, objecto de um dos melhores filmes infantis de todos os tempos.
“O Senhor Fritzl não é nenhum monstro”. Não no sentido abstracto da questão.
Antes fosse.
Poderia ser que na aberração de tudo o que sei este senhor perpetuou durante 24 anos se tornasse, como que por passe mágico de quebra de feitiço, uma personagem simpática.
“O Senhor Fritzl não é nenhum monstro”.
Durante 24 anos, prendeu e abusou a sua própria filha, numa prática que havia começado tinha a criança apenas 11 anos.
Durante 24 anos, gerou filhos, à filha, em catadupa alguns dos quais, ao que percebi, foram por ele criados, numa perfeita encenação de abandono materno, no andar de cima da casa onde se passava esta abominação.
Durante 24 anos, consciente e premeditadamente, ausentou-se em temporadas, justificadas pela profissão, para poder adquirir os mantimentos necessários à manutenção de duas famílias, uma consideravelmente maior que a outra, sem levantar grandes suspeitas.
Durante 24 anos, manteve a sua prole trancada numa cave. Sem ar, sem Luz, sem nada.
Mais: Manteve-a trancada numa cave, abusando, punindo, matando.
24 anos! Quase um quarto de século. Uma vida.
“O Senhor Fritzl não é nenhum monstro”, avisa-nos comedido o seu Advogado, a quem admiro a capacidade de defender o indefensável.
Não é.

Mas acredito que em todas as noites do seu cativeiro a sua filha tenha desejado que fosse.
Um monstro de pesadelo, a quem o abraço paterno e o “pronto, pronto, já passou” fizessem evaporar.

Porque é este o Papel de um Pai.



ver a brilhante interrogação da Cristina Ferreira de Almeida, aqui

quarta-feira, maio 07, 2008

Este hoje é para ti Pai


A Beira é solidez, mulher vergada no campo,
homem fora o dia todo, atrás de rebanho.
Menina no rio lavada, trouxa de roupa à cabeça,
pé descalço no mato, arranhadela.
A Beira é terra bravia pintalgada de giesta
passeio de fim de dia, cheiro a pinha e eucalipto.
Amora doce, silva que arranha os braços queimados do Sol.
Azeite dourado em lagar, vinho pisado em canção
calça arregaçada, trabalho árduo em brincadeira aliviado.

A Beira é a ovelha tresmalhada, preocupação de pastor, cão leal em palhota de céu de estrelas,
Penhasco, vereda, caminho de cabra.
É calor abrasador, frio de neve que greta a pele, samarra de pele curtida, contra a intempérie.

A Beira é seara madura, dourada do vento
e terra em verde milho semeada.
Horta pequena, alface, couve e batata
Casinhoto de pedra, lareira acesa e queijo acabado de coalhar
.. ordenha, leite quente e saboroso, cheio de nata a boiar.

A Beira é recordação de infância,
momentos partilhados,
alguns sofridos,
alguns zangados.

Mas hoje, neste dia, a Beira é tua, Pai.

segunda-feira, maio 05, 2008

considerandos.. de experiência feitos.


Tenho acompanhado a polémica sobre as raças de cães consideradas perigosas. Vejo o horror das feridas abertas por aquelas dentes afiados e assustadores, imagens a que não nos poupam os nossos canais de televisão principalmente à hora do jantar. De cada vez que o assunto é abordado, privada ou publicamente, lembro-me da minha cadela de raça Doberman. Objecto de uma oferta há muitos anos atrás, foi conscientemente escolhida no meio de uma ninhada calma. O único "bebé" que me rasgou de imediato a meia de seda fina, foi a sortuda que me acompanhou a casa (risos).
Uma cadela meiga, zelosa, confiante na sua dona, muito brincalhona (demasiado, por vezes) que se rebolava na relva com os meus irmãos, na altura crianças pequenas, perante o olhar horrorizado de todos quantos, desconhecidos e desconhecedores, assistiam às “brincadeiras”. Cadela possante, vigorosa, de corpo atlético muito culpa dos verdadeiros exercícios a que a submetia, e ela a mim, em alegres correrias nas praias desertas do Guincho aos fins-de-semana. Cadela protectora, que intimidava qualquer aproximação mais afoita quando a passeava de madrugada no local quase deserto onde residia. Cadela que me fazia sentir totalmente protegida a qualquer perigo viesse ele de um assobio desajeitado ou de alguma tentativa de aproximação. Nunca tive de lhe refrear os ânimos ou controlar as atitudes perante terceiros, excepto, quando em uma ocasião, tentados a invadir o quintal sem autorização fui alertada pelos gritos de duas personagens que, conseguindo saltar o gradeamento para o lado de dentro, não havia como sair fugindo ao bloqueio que a Tema (não me perguntem o porquê do nome) lhes fazia, sem ladrar, rosnando baixinho a uma distância razoável. Lembro-me de a ter chamado em voz baixa, ao que obedeceu prontamente e de me ter dirigido aos incautos. Era por brincadeira, acabaram por me confessar. “Costumamos saltar os jardins, por brincadeira”, afirmaram em conjunto. Na altura nada fiz além de muitas festas na minha guardiã e um “muito bem!” sonoro para que percebesse que era isso que eu esperava dela. Dentadas à parte, bastava a sua figura, pelo negro e lustroso arrepiado na espinha e aquele rosnar de quem avisa “nem mais um passo”!

Obedecia-me à voz, ao sinal dos dedos. Perdi horas a treiná-la sem ter de lhe ensinar quase nada que não tivesse nascido com ela. A protecção da casa, a protecção da dona. E o andar ao meu lado, coisa que enquanto cachorra era completamente impossível. Adulta, acompanhava-me o passo, esperava à porta do café e do supermercado e raramente se "ofendia" com os olhares castradores dos que passavam para o outro lado do passeio no cruzamento. Inclusive pareceu-me ver-lhe um pequeno “sorriso” quando um dia uma alma mais corajosa, não sei se por tolice, me abordou perguntando-me se eu sabia que tinha uma arma na trela e que mais cedo ou mais tarde teria de a mandar abater. Agouro, felizmente, caído em saco roto.
Foram vários os dogmas que tive de desfazer.
As conversas, na altura, com o veterinário dos cães que tive durante a minha infância e adolescência, ajudaram-me bastante a compreender esta raça e a desculpar o que dela e em nome dela se fabricou na mente de alguns.
Nunca tive uma má experiência com a minha cadela.
Mas tive várias com os vizinhos da zona onde vivia. Pessoas que diariamente a provocavam com paus e pedras no gradeamento, para que mais tarde se pudessem queixar que era violenta e ladrava muito.
Nunca a minha cadela foi violenta. Mas várias foram as vezes em que a violência de palavras e actos lhe “caíram” em cima.

Não quero com isto desculpar em nada o objecto das noticias que vêem actualmente a lume sobre os ataques de pitbull’s e outros considerados perigosos. Até porque a raça da minha Tema nem está nessa lista. Mas, tendo vivido com a condenação pública e injustificada, sei, por experiência, que muitas vezes o julgamento rápido e o tiro no escuro, provocam considerações e movimentações que vão para além do razoável suportar.

Por nós e pelos nossos animais.

sexta-feira, maio 02, 2008

.. momentos de leitura (V)

A doce Pinderiquice, mais um texto assertivo e “sem papas nas teclas”, do Miguel, no Combustões.

Silent Tsunami, do Rui Perdigão, no Vida das Coisas, tema igualmente abordado, com brilho, pelo l. rodrigues na sua ignorância não especializada.
Não deixa de ter graça (amarga) constatar que fora da blogosfera não se ouve falar, por aí além, destes temas. Há até quem os desvalorize numa tentativa de não "apanicar" - termo que demorei a entender ao que se referia.
E o povo continua alegre e rindo .. circo, tanto circo, mais circo .. digo eu que “não posso” com o mal dos outros.

Num registo totalmente diferente e talvez para fazer lembrar a cépticas e preocupadas como eu que há Sonhos, indeed ;) .. As Crónicas de Uma Viagem do Mike, na sua desconversa cheia de um detalhe que me encanta e me transporta como se o viajante fosse eu.

Desejo-vos boas leituras e um excelente fim-de-semana *

Crescendo (XXIV)

Where are you princess? – pergunto-lhe da cozinha na intenção de lhe pedir qualquer coisa ..
A escrever no meu diário mummy! – responde-me do quarto, ficando o meu pedido na intenção ;)
A princesa mantém um diário actualizado, penso que, à semana. Caderno grosso cheio de folhas e capa amarela presa por um elástico, muito parecido com o diário das nossas viagens, qual exploradora do insondável pré-adolescente. Mantém-no há dois anos e foram já várias as vezes que mo entregou num Mummy queres ler? Ao que lhe respondo, queres que leia? Acenando a cabecita e ficando a observar-me atenta às expressões que vou fazendo .. escreve cheia de detalhe sobre tudo e sobre nada, há quem diga que sai à mãe, e consegue de um acontecimento relativamente simples e sem grande importância extrapolar para a generalidade, analisando as suas próprias atitudes face a uma qualquer eventualidade que tenha merecido honras de registo.
Está contudo a crescer a princesa lá de casa. E ontem o “mummy queres ler?” foi substituído por um “mummy lê aqui, por favor, e diz-me se sou eu que estou errada!” desespero em busca de aprovação que ela sabe, porque me conhece como ninguém, que nunca é gratuita ou inerente à relação.
Desta vez o problema prende-se com a actuação de meia dúzia de meninas tolas que infernizam a vida das mais novas na escola.
Meninas “idiotas” como eu as apelido que se dedicam a “roubar” os lanches, as senhas, os bonés e tudo mais que sabem irrita as pequenas do 5º ano, só descansando quando as vêem a chorar.
No refeitório, iludem a vigilância para pregar partidas em que invariavelmente uma das visadas fica sem comer.
E gozam. Maldosamente gozam a corda de saltar, herança de uma primária recente, o jogo do elástico ou as escondidas que ainda pautam o tempo livre de intervalo. Montam verdadeiras perseguições às pequenas à espera quem sabe de um intervenção adulta .. já esteve mais longe confesso, mas nestas coisas gosto de a deixar resolver as questões desde que, obviamente, não me pareçam sérias em demasia.
A falta de justiça porque as outras são mais fortes, maiores e mais velhas, empurram e magoam, provoca na minha uma fúria quase “cega” e uma reacção cheia de palavreado do tipo “se fosse contigo, não ias gostar” ao que recebe invariavelmente uma resposta torta e mal-educada.
Queda-se na impossibilidade de utilizar os mesmos advérbios pouco próprios, e na semana passada acompanhou uma dessas pequenas ao Conselho Directivo para, final e tardiamente, apresentar uma queixa.
Era esta incursão na autoridade a que lhe custa recorrer não fosse o termo “queixinhas” banido do nosso vocabulário, que deu origem a registo no Amigo Diário.
Recebidas por um professor, expõem o que as consome e identificam os elementos destabilizadores e aterradores, no caso. É-lhes dito que há outras queixas, e que por várias vezes os encarregados de educação foram chamados à escola. Voltam à fila do refeitório e são interpeladas por uma funcionária que as segue para identificar "in locco” as "más" da fita.
São elas sim, diz a minha filha em voz clara, desafiando o temor.
A reacção das visadas não se fez esperar.
Que nunca mais se metem com elas. Que nunca pensaram que tivessem tal coragem. Que por norma as “minorcas” calam-se e não “bufam”!

Tristes educadores estes que nos povoam a realidade e nos fazem conviver com a prole que inconscientemente e sem escrúpulos vão espalhando pelo Mundo.
Demasiado ocupados nas suas vidas pequenas sem perceberem que a vida "infantil" que geraram se dedica a infernizar vidas alheias.

Vai para eles, Pais, a minha pena hoje.
E um voto: que não venham a ser vítimas da maldade dos monstrinhos que (não) educam.

quarta-feira, abril 30, 2008

I wish ..


Sei o que se celebra amanhã, e até sei porquê.
Conheço a raiz do Movimento, a primeira conquista em 1840, a segunda a ferro e fogo em 1856, o Desastre de Chicago, mais tarde o de Paris, os inocentes que morreram a lutar por algo que hoje é, para a maioria dos trabalhadores que conheço, um dado adquirido que nos oferece um feriado, este ano a meio da semana, coisa sempre simpática, uma pausa merecida, uma ida à praia ..

Sei o que se celebra amanhã.

Mas ciente que estou que nada fiz na minha geração para o merecer, e porque gosto de saber porque recebo prendas inesperadas, venham elas mascaradas do que quer que seja, deixo aqui o meu manifesto, a minha assinatura e o meu desejo que dentro em breve se celebre igualmente a erradicação deste tipo de trabalho. Sem horários, sem direitos e sem deveres.






Que em vez da luta por “8 hours work, 8 hours rest, 8 hours fun” a multidão grite:
No Child Labour”!
Porque o direito que adquirem quando nascem garante-lhes um futuro feliz.

Nada mais.

terça-feira, abril 29, 2008

Vai chover. Vai tu ..!



Tenho acompanhado no blog da revista Ler, que ao que sei e congratulo voltou a ser editada em papel, a polémica ao redor da organização da Feira do Livro de Lisboa com a APEL e a UEP em alegres galhardias de quem esquece o fundamental.
Prosas convincentes brotam dos discursos dos vários responsáveis pelas duas organizações adversárias na organização, pouco organizadas afinal. Prosas carregadas de acusações às posturas de cada uma das partes: tu queres marketing, eu quero público, tu queres livros e eu publicidade.
O Fundamental tal como o Essencial do Pequeno grande Príncipe parece invisível aos olhos que se gladiam pelo protagonismo de poder vir a dizer “Fui eu!”.
O Fundamental é o Livro, o fazer chegar o livro, o dar e o vender o livro.
O Fundamental somos nós que todos os anos, sol ou chuva ou ambos, engrossamos as vendas do recinto na procura daquela obra, daquele título e daquele autor que sabemos, ali de certeza, encontrar.
O Fundamental, são as simpáticas sessões de autógrafos, na possibilidade assim feita realidade de vermos, conversarmos e conhecermos quem nos modela o imaginário em leituras pelo ano fora.
O Fundamental é o respeito pela Obra impressa e publicada, fruto por vezes de sacrifícios que vão para além do nosso entendimento, penas não expressas nas páginas que nos encantam, lágrimas e dores que, se perpassam nas linhas que lemos, nos fazem chorar também, ou por vezes sorrir.
O Fundamental é a Obra, assim atirada em guerras de “sou melhor que tu”, obra rica em ensinamentos esquecidos e desprezados nestas querelas sem sentido.

Por Ela .. fica o meu desejo que se entendam.

Obrigada


Anuindo ao pedido da princesa, Belém – Museu dos Coches.
Disfarço o riso quando a vejo tirar o bloco de apontamentos e a caneta da pequena sacola a tiracolo e atentamente percorrer os quadros dos nossos Ilustres Antepassados, apontando datas, detalhes, ficando por vezes parada a olhar porque daquele Rei, Rainha ou Princesa já falou nas aulas mas ainda não lhe sabia os contornos.
O ambiente do museu, já centenário, e o sussurro dos visitantes, maioritariamente estrangeiros, a meia-luz que dificilmente passa naquele labirinto de tons dourados e bordeaux, contribui para a aura de antiguidade, quase mistério, como se de repente tivéssemos sido todos transportados para, por exemplo: 1640! Mummy .. a restauração da independência face aos “Filipes”, sabes por quem?
D. João IV, o Restaurador, respondi-lhe, deixando-a "furiosa".
Passa por nós uma funcionária do Museu, parando dois passos à frente e observando a conversa. Mira a princesa de apontamento em punho como se fosse desaparecer a preciosa informação a que estava a ter acesso e sorrindo, começa a acompanhar-nos o passo lento, relatando algumas particularidades que não estão no livro de História, numa verdadeira visita guiada aos detalhes de uma raiz que é nossa, deixando a minha filha encantada e tão absorta que o bloco voltou à sacola.
Tudo o que ali está exposto tem uma história, um uso, um autor e um utilizador, e é fácil, pelo ambiente recriado, imaginar os Infantes nas pequenas cadeiras com rodas inventadas em Itália, ou a Rainha acenando ao seu povo em agradável passeio na liteira ornada a vermelho e dourado.
Cada coche serviu um propósito, sendo o eleito o denominado “da Troca das Princesas” com direito a novo apontamento no precioso bloco dada a originalidade da situação. As pequenas caleches de passeio fizeram as delícias da princesa que sem esforço se imagina ali. O Coche dos Meninos da Palhavã pelo objectivo com que foi construído fê-la rir, perante o olhar ajuizado da nossa Guia. De facto, hoje em dia, como entender que os filhos Bastardos do Rei teriam um coche próprio e diferente dos outros?

Acolhidas à saída, por um sol brilhante que nos transporta de novo à realidade, fazendo piscar os olhos, deixámos no sossego da penumbra séculos de história, figuras graves retidas em telas, e um beijo repenicado à Ana Paula, pela sua amabilidade, conhecimento e disposição.

Se há por aqui quem faz o que gosta .. ali há, sem dúvida alguma, quem gosta muito do que faz.

Obrigada!

segunda-feira, abril 28, 2008

..momentos de leitura (IV)

E gostando do que leio, porque não o apontamento à laia de cábula para ser fácil reler .. outro vicio por aqui ..

As mil portas do Inferno do Miguel, no Combustões

Pó que m’avia de dar, do José, no Desinfeliz de Juízo

Minha Casa é palafita, da Sine em Entre o Sol e as Brumas

Observatório, do Pedro Silveira Botelho, na Porta do Vento


Entretanto, passa a pertencer à lista Lateral a Poesia de Torquato da Luz no seu Ofício Diário .. um Diário cheio de letras, poemas, imagens maravilhosas que combinam entre si e nos proporcionam uma paz de sorriso feita. Obrigada *

Repetindo-me ..


Penso logo existo, e a coisa deveria funcionar assim linearmente, quanto baste.
Penso logo existo, e assola-me a dúvida sobre que penso eu para provar a existência.
Penso logo existo, e instala-se o desconforto da existência não pensada ou será do pensamento inexistente?
Penso logo existo, e deixo-me ficar enroscada na tentativa de dar forma ao pensamento .. existência? pensando em como o praticar para o tornar visível, sensível, existente?

Penso logo existo, e perde-se a memória em todos quantos conheço que existem sem pensar, que não pensam por existir, que nem tão pouco questionam a existência.
Penso logo existo, e penso e repenso, estoiro-me a pensar, pobres neurónios em debandada de um cérebro cansativo .. ou será cansado?
Penso logo existo, e de repente apetece-me, sem pensar, existir em pensamento alheio que me torne .. inexistente.



Texto já editado.

quinta-feira, abril 24, 2008

Crescendo (XXIII)

No ano passado, por esta altura, a coisa tinha corrido assim e este ano, diligentes os professores pediram aos pré adolescentes do 5º ano que escrevessem uma folha A4 sobre o que para eles é “Ser Livre”.
Sem cravos e bandeiras desenhadas no papel, uma simples composição cheias de linhas sobre algo que para eles, infantes de uma era tão distante, é normal, relativamente simples e puramente real.
A princesa do reino lá de casa, avisada pela professora que era só uma folha A4, “uma mesmo, menina!” reforça, conhecendo-lhe as incapacidades de resumo, banho tomado e pijama vestido, escreve afincadamente, pernas dobradas em cima da cama (tenho de me lembrar de lhe corrigir esta postura, mesmo quando me responde que na secretária não tem inspiração (risos))
May I? pergunto-lhe sorrindo, vendo-a virar a folha concentrada.

Ser Livre
Ser livre é confiar, brincar e correr
Ser livre é poder chorar e poder rir quando me apetecer
Ser livre é estudar, e perguntar o que não sei
Brincar ao faz de conta
Agora sou um Rei!
Ser livre é ouvir e poder não concordar
É escolher e crescer
Fazer amigos e conversar
Diz a mãe, sempre obedecer.
Ser livre é ser como sou e não consigo imaginar como será se não for assim.
Feliz Dia da Liberdade!

Abstive-me de mudar uma vírgula caindo na tentação de lhe corrigir a rima forçada.
Está lá tudo. O que aprende. Comigo e com os outros.

E despeço-me meus Amigos antes que a “baba” vos inunde os teclados.

quarta-feira, abril 23, 2008


Lamento sonoro que me acorda noite a meio
Uma porta bate em fúria
Um grito exprime o cansaço da vida
estou farta, quero morrer!”
Tapo a cabeça. Não quero ouvir.
Chora a criança, em terror, acordada

Pés batem com força, fuga em desespero
Abre-se o estore, uma janela de vidro bate de impulso e oiço os estilhaços no chão
Oxalá estejam calçados, lembro-me de desejar
O choro da criança insiste, a criança insiste no choro
Na esperança de os fazer parar.
Estou farta, quero morrer! Grita a voz esganiçada de raiva e de dor
Uma chave roda a fechadura, abre-se a porta para a rua
Os gritos sobem de tom
As palavras perceptíveis
traição apanhada, mentira escondida, vida arruinada
Dou-me, de repente, conta que deixei de ouvir a criança
Prudente, desistiu.

terça-feira, abril 22, 2008

Aarde .. Lurra .. Zemlja .. Yer .. Eirde .. Terra, Mãe-Terra



Segurou o pequeno globo num misto de temor e excitação que lhe fazia tremer os pequenos dedos rechonchudos e limpou-o cuidadosamente.
Muito cuidadosamente, quase em afagos disfarçados. Lá dentro, em tons transparentes de ventos idos, pequenas sementes de uma vida verde desconhecida pontuavam uma terra castanha que adivinhou molhada .. cheirosa.
Seres minúsculos atarefavam-se em direcção a nada, vidas corredias, nervosas, estranho pensou o garoto .. para onde vão?
Um barulho, que em surdina ensurdecia, oprimia o silencioso suspiro que o globo soltava de quando em vez. Um suspiro dorido, profundo e calado.
Calado pelas máquinas de um amarelo vivo, muitos maiores que os pequenos seres que lhe prenderam a atenção. Que fazem? perguntou-se, no mesmo instante em que percebeu que arrancavam, com ares ferozes, as pequenas sementes verdes que tinha visto nascer lá mais em cima. E a terra.. aquela terra castanha que achava cheirosa de chuva, transformava-se no mesmo instante num deserto árido, rachado em rasgos que pressentiu de dor.
Calado por outras máquinas, desta vez em tons de cinza e negro, que lançavam uns fogos coloridos que o fizeram sorrir a principio, até perceber que onde caiam aqueles fogos coloridos transformavam em cinza e chama tudo em redor. E pequenos corpos daqueles seres, jaziam pelo chão sem ninguém os levantar. Horror, pensou o garoto, virando de propósito o pequeno globo para afastar tais visões.

Em algumas zonas uma nuvem de fumo negra pairava ameaçadora ensombrando o sol pintado a amarelo e suspenso em fio de pesca imperceptível. Como é que não a vêem, indagava-se de novo, observando atentamente aquela vida estranha, segurando o pequeno globo com todo o cuidado.
Indiferentes os pequenos seres continuavam as suas labutas, quais formigas minúsculas, ocultas.

Um brilho de vidro azul e branco chamou-lhe a atenção. O mar explicara-lhe o Pai quando lhe trouxera aquele tesouro. “até isso destruíram” ouvi-o comentar com a Mãe ao jantar, julgando-o absorto. Como assim destruíram, apeteceu-lhe perguntar .. sabia contudo que a pergunta iria colocar nos olhos do pai aquela sombra triste e amarga que lhe via com frequência. Pergunto amanhã, na escola, pensou.

Era lindo o seu tesouro. Já tinha ouvido falar dele nas aulas de História Antiga e Noção Civilizacional. Havia ali ainda uma vida, pensou .. uma vida cansada, mas que ele na ingenuidade dos seus 12 anos acreditava ainda esperançada. Oxalá eu pudesse ajudar esta Tero, desejou escutando de novo aquele lamurio triste, profundo .. arrepiante

Hey! Gritou abanando o Globo com força, como se o pudessem ouvir os minúsculos e indefinidos seres que via de um lado para o outro em azafamas que lhe pareciam tolas. Hey! Não vêem que estão a magoá-la?!
Pareceu-lhe, por impossível que possa parecer, que por uma milésima de segundo algo parou no buliço do seu tesouro .. ilusão .. milésima de segundo mais tarde e tudo retomou o seu ritmo alucinante de quem parece não escutar, não ver .. não sentir.

É verdade não é Mãe Terra? Magoam-te os teus filhos ..

segunda-feira, abril 21, 2008

atch...


afastando-me por um tempo .. para evitar o contágio .. :)

sexta-feira, abril 18, 2008

a propósito de .. tudo

"The etymology of Secret Mantra is as follows.
"Secret" indicates that these methods should be practised discreetly. If we make a display of our practices, we will attract many hindrances and negative forces. This would be like someone talking openly and carelessly about a precious jewel they possessed and, as a result, attracting the attention of thieves.
"Mantra" means "protection for the mind". The function of Secret Mantra is to enable us to progress swiftly through the stages of the spiritual path by protecting our mind against ordinary appearances and ordinary conceptions." Joyful ath of Good Fortune, by Geshe Kelsung Gyatso

Confesso curiosidade por tudo o que me é diferente.
Às vezes “espicaçada” por algo que leio, vejo, ou simplesmente pela necessidade de entender. Enquanto assim for, não me posso queixar. Sinal que os pobres neurónios ainda reagem :)

Porque quis entender, procurei.
Acredite-se no que se acreditar, a explicação não pode ser mais simples e pura.

Have a “sheltered” week-end *

albeit ..

Finalmente uma “sala de fumo”.
Cansados e acredito ligeiramente desgostosos por terem de nos ver fumar na rua em frente à porta principal, os patrões decidiram-se por uma sala de fumo, aprumada a preceito com o exaustor obrigatório por lei, a saída de ar respectiva, cadeiras e sofás espalhados, um ar confortável onde só falta uma planta (coitada) e algum som, como gostamos de reclamar.
E a sala de fumo assim num edifício de escritórios partilhado por anónimos e alguns conhecidos, facilita o desaparecimento de algum anonimato. E gera, por assim dizer, situações verdadeiramente engraçadas e surpreendentes. Passamos a saber de cor o nome de todos os daquela direcção que está sempre em silêncio quando se entra no 3º piso e que marca fuma o senhor da contabilidade sempre tão metido consigo. Trocam-se galhardetes entre os que já se conhecem melhor, e por vezes “cai” um silêncio constrangedor quando alguém, que não sabemos quem é, entra na sala de cigarro em riste. Colaborador, prestador ou visitante? Na incógnita, cala-te boca que as paredes têm ouvidos ..
Há dias, sentada metida com os meus botões e fazendo acrobacias com o fumo do cigarro tinha por companhia uma das meninas da limpeza, simpática, prestável e estrangeira. Não gostando muito de silêncios forçados, sorriso para aqui e outro para ali acaba a contar-me que é de Kiev onde deixou uma filha de 17 anos entregue à avó. Veio para ganhar dinheiro e pagar os estudos da filha, que assim que terminados, virá ter com ela. Que não vê a hora de isto acontecer, tais as saudades e a distância imensa que as separa. Consigo avaliar a situação à luz da minha experiência de mãe. Mas não consigo medir este afastamento. Esta ânsia. Felizmente.
Tentando puxar o assunto para outro campo, que lhe vejo os lindos olhos azuis mais luminosos que o costume, louvo-lhe o português perfeitamente perceptível com um sotaque cerrado e pergunto-lhe, rindo, que “diabo” está a fumar. Uns cigarros brancos, finos, com um cheiro adocicado que me faz lembrar o mentol. Ah .. são cigarros da minha terra. Trouxe-mos uma amiga que veio há pouco de visita à família. Custam €0.30 o maço mas lá não se podem comprar.

Soube dias mais tarde que a “Laila”, a menina da limpeza prestável, simpática, que nos despeja os caixotes de lixo à hora do almoço e nos lava as chávenas de café, que veio da cidade de Kiev em busca de uma forma que lhe permitisse facultar à filha o término dos seus estudos e à mãe uma existência confortável, é engenheira informática no seu país.
Uma engenheira que não pode dar 0.30€ por um maço de cigarros.
E isto levou-me a pensar na quantidade de portugueses que têm igualmente tido de partir em busca de melhores condições de vida. Recordei o caixa do balcão do banco que me confidenciava ter o curso de Direito. A minha própria irmã Arqueóloga de paixão numa área totalmente oposta, mas, como ela diz e bem, felizmente com trabalho, o filho mais novo da Dª Matilde, vizinha de bairro, formado em gestão ao volante de um eléctrico da Carris. Recordei ainda, na minha pequena e limitada realidade, as queixas de muitos que não fazem o que querem, aquilo para que estudaram, não há emprego que chegue para todos, queixam-se os mais novos, desalentados.
E recordo o sorriso meigo da “Laila” cujo único objectivo é continuar a trabalhar (muito) para assegurar que um dia, daqui a algum tempo, mas um dia possa de novo abraçar a filha e tê-la perto de si.

Vivendo a vida pensando no que gostaria de fazer?
Ou aprender a encontrar na vida que se vive, motivos para dela gostar?
Sem dramas.

quinta-feira, abril 17, 2008

Devils, mostly ..

My meaning is that if the shape of anything be worth man’s thought to picture to man, it’s worth his best thought, explica John de Burgos ao Abade.
(Rudyard Kipling in The Eye of Allah)

A história, em dois séculos antecipada por este escritor de quem já me confessei leitora, não acaba bem. Estamos em plena Idade Média e John de Burgos descobre, no Cairo, a primeira versão do microscópio que lhe dá a conhecer o que apelida de vida paralela à Vida, e motivos crescentes para as suas iluminuras.
Procura apurar a representação dos diabos para o seu Great Luke e carece de ideias realistas para a mesma.
And what seek you this journey?’
‘Devils, mostly,’ said John, grinning

Prudente e conhecedor dos tempos que vive, sem com eles se atrever a discordar em voz alta, após a constatação de que portas se abririam à ciência e à arte com aquele pequeno engenho, portas essas contestadas pelas esperadas reacções de uma época obscurantista, o Abade destrói a preciosa lente, sabendo que o Mundo não está ainda preparado para as revelações que a mesma poderia proporcionar.


Concentro-me na frase “digna do pensamento .. ao representá-lo .. digna do melhor esforço ..” e não posso deixar de sorrir ao aperceber-me da sapiência e simplicidade que a revestem.
O melhor esforço .. não no convencimento de massas, não no ópio inteligentemente distribuído ao povo, não no circo montado com esgares de palhaço rico a quem afinal, faltava o pão.
O melhor esforço, honrado e condigno, para o bem da Humanidade.
Mesmo em sacrifício.
O pensamento do homem como um “detalhe” para o bem de um todo? Ou será cada Homem O todo que constitui o detalhe deste Universo que julgamos conhecer?
Gosto de me pensar como parte, mesmo preservando, por vezes “à força” a minha individualidade. Parte integrante de um Mundo que acredito tenderá a melhorar.
Parte integrante de um Mundo que assim, em conto metafórico na pena fina de alguém que admiro, me dá a conhecer mais um pensamento simples.