terça-feira, julho 31, 2007

Crescendo (VII)

“O segredo da felicidade é o seguinte:
deixar que os nossos interesses sejam tão amplos quanto possível, e deixar que as nossas reacções em relação às coisas e às pessoas sejam tão amistosas quanto possam ser”
Bertrand Russel .. de quem já me confessei fã no “Why am I not a Christian” .. ilumina-nos assim com o "segredo da felicidade é o seguinte", caneta na mão, papel imaculado e toca a apontar que a coisa afinal .. é simples ;)

Isto a propósito de quê?
De um episódio comovente, de um conselho dado à princesa da casa sobre brincadeiras afoitas e algo arriscadas, que eventualmente, por vezes mais certamente que eventualmente mas .., poderiam acabar mal, e da minha tirada drástica (técnica de convencimento ? hum.. hum .. ) num “se te magoas e não actuas vais sentir-te a menina mais infeliz do mundo !” rindo do disparate acabadinho de dizer e ela de repente imóvel, séria, olhos a faiscar num “mummy .. eu nunca poderia ser a criança mais infeliz do mundo .. essas não têm uma mummy, nem tecto, nem comida, nem nada ..” e eu .. eu siderada, de lágrima a romper teimosa, a abraça-la e a pedir-lhe desculpa de um disparate que me tinha feito rir.

E a aprender..

O segredo da felicidade ? é simples .. :)

segunda-feira, julho 30, 2007

Mimo .. :)

Não .. também não vou fazer publicidade ao "velhinho" lançado pela tmn há uns anos atrás .. era engraçada aquela publicidade ;)


Esta menina .. por quem tenho uma verdadeira admiração na forma como conduz o aparo da caneta .. decidiu mimar-me de novo com um "blog que gostaria de folhear no papel" .. vale-lhe a delicadeza e paciência que lhe antevejo para os, por vezes, "disparates" que digito por aqui ;)
Menina sine .. eu agradecida lhe garanto que o seu faria certamente parte da minha biblioteca ;)

Grata *

Vasculhando o Baú (III)

;) .. escrito quando ainda não usava e abusava das pausas, reticências .. and so on !

Penso logo existo, e a coisa deveria funcionar assim linearmente, quanto baste.
Penso logo existo, e assola-me a dúvida sobre que penso eu para provar a existência.
Penso logo existo, e instala-se o desconforto da existência não pensada ou será do pensamento inexistente?
Penso logo existo, e deixo-me ficar enroscada na tentativa de dar forma ao pensamento .. existência? pensando em como o praticar para o tornar visível, sensível, existente?
Penso logo existo, e perde-se a memória em todos quantos conheço que existem sem pensar, que não pensam por existir, que nem tão pouco questionam a existência.
Penso logo existo, e penso e repenso, estoiro-me a pensar, pobres neurónios em debandada de um cérebro cansativo .. ou será cansado?
Penso logo existo, e de repente apetece-me, sem pensar, existir em pensamento alheio que me torne .. inexistente.

sexta-feira, julho 27, 2007

Há coisas fantásticas .. :)

Não caríssimos, não ensandeci e decidi espelhar por aqui a publicidade tola de meninas com vozinhas irritantes da televisão do nosso descontentamento .. (risos) ..
Ainda não .. ;)

Mas .. há dias que pela candura das manhãs, sol que atravessa cortinados e nos diz a sussurrar “estás atrasada” .. irremediavelmente atrasada e não há ponteiro de relógio que subornado seja para retroceder os minutos preciosos que nos permitam estar a “tempo e horas” .. há dias assim .. fantásticos!

Dias em que acordamos com a leve sensação que estamos de férias sem estar, que podemos conceder mais um minuto em cima de tantos outros que passaram sem sentirmos, que erguemos o corpo numa calma de sábado de manhã sendo sexta feira nove horas .. nove horas? E em vez do coração saltar para a boca e o corpo ficar a tremer do acordar repentino, ainda nos concedemos o pequeno almoço tardio numa negação de evidência “estás atrasada .. irremediavelmente ..”
O rio está lindo .. espelha uma luz que só Lisboa tem, o trânsito fluí solto e respeitador dos “malditos” sensores a 50km / hora .. os sinais mantêm-se verdes por tempo indeterminado .. e estacionar foi das coisas mais simples que fiz esta manhã ;)

Silly ? proudly silly .. ;)

Tenham um excelente fim de semana .. eu vou às raízes, buscar o pedaço que me tem faltado nos últimos quinze dias (mãe babada sim .. e não, já nem conto em que versão vou) !

quinta-feira, julho 26, 2007

Sonhos (VI)

(isto anda a ser escrito a ... carvão) .. ;)

Era um dia de Inverno, frio e de chuva feito, negro de céu carregado sem nuvens e sem azul, como só aqueles dias de Inverno que nos tornam tristes, o sabem ser.
À chegada ao aeroporto de Lisboa pensou pela primeira vez em como tinha passado por aquela viagem, catorze horas a viajar sem que desse pela passagem de um minuto sequer. Como havia chegado ali .. ou por outra, como havia empacotado a sua vida que de um mês se transformou rapidamente em seis .. malões de pele curtida e escura, chaves de casa entregues, partida agendada.
Ainda há bem pouco tempo o caminho fora o inverso, desejosa de deixar para trás uma terra de raízes feita e negadas, desejosa de adiar a resolução de uma situação matrimonial complicada, de romper os laços, destruir os nós, tudo agora lhe caía em cima com o peso de uma chuva pegajosa que a fazia escorregar no alcatrão e lhe sujava a bainha das calças impecáveis.
Táxi ? .. e a viatura pára, motorista solícito a segurar na porta e a interrogação a formar-se nos olhos, num como vou meter tudo isto dentro do carro. Coube.
Para onde menina ? e à pergunta verbalizada olhos no espelho retrovisor a olhá-la ligeiramente indeciso sobre a nacionalidade da passageira, ela siderada olhando-o de volta e questionando-se .. “para onde?”.
Alheada atira-lhe um “vá andando ..” como que sem destino, sentindo que não era bem vinda, ninguém a esperava tal como ninguém se havia dela despedido .. “para onde?” .. morada completa para dar não tinha .. a sua casa estava há muito vendida e na pressa da saída do país por motivos que gostava de imputar ao profissional, desculpando-se assim, não tinha assegurado um ninho para onde regressar quando a palha faltasse .. regressar a casa dos pais onde provavelmente um leve arquear de sobrolho saudaria a sua chegada tardia como se ontem tivesse saído para ir ao supermercado, onde os irmãos lhe correriam para os braços carregando o fardo da saudade de uma irmã que lhes fazia falta, não lhe pareceu, ou por outra, pareceu-lhe completa e absolutamente .. despropositado.
Não estava preparada para reencontros e desculpas balbuciadas, nunca fora expert na invenção do que quer que fosse á excepção das histórias de “era uma vez” que acabavam sempre, invariavelmente, em casamentos apaixonados e proles de crianças nestlé a correr pela casa, as mesmas estórias com que em tempos adormecera os irmãos que, sabia, lhe sentiam a falta. De quem sentia a falta.
Para onde .. ?
A ideia de indicar um hotel, coisa que fazia amiúde portas fora do seu país (sê-lo-ia?) com uma facilidade de quem indica o lar que a espera, pareceu-lhe, agora de volta, no mínimo .. ridículo. Não se via a arrastar os malões e a desfazê-los em local próximo ou longe da sua casa .. do seu sítio.
Afagava lentamente o telemóvel, enquanto o motorista de táxi, que lhe deitava de vez em quando uma olhadela pelo espelho retrovisor, desenegrecendo o semblante quando a percebeu perdida, continuava às voltas pela cidade de Lisboa.
.. Ligar a alguém .. formou-se no espírito. A quem? àquela amiga que sabia a acolheria com um gritinho de “grande sortuda, já cá estás?” e perante quem ela teria de ostentar o ar da maior sortuda do Mundo por o conhecer sem o olhar .. sem o viver ? Não.
Ao amigo que sabia solidário, o melhor amigo que já houvera tido nos dias da sua vida até ao dia em que timidamente lhe havia pegado na mão e confessado o seu amor antigo, estragando, literalmente, tudo ? também não ..
Ao ex marido ? ex marido .. realizou, porque o pensou, o significado da palavra .. ex .. marido. Projecto de vida que ficara a meio, vontades e planos não concretizados, questões burocráticas das quais havia oportunamente fugido, o assinar da papelada, o seu nome de volta, a casa vendida, a cadela oferecida .. que lhe teriam feito das flores do jardim ? .. e novamente a assola o peso da culpa, a consciência que altaneira lhe diz com todas as letras.. sim prolongaste demasiado a situação, iludiste, enganaste, fizeste sofrer .. Ela a achar que o tempo de ausência em partes incertas adormece as consciências mais teimosas a ter de admitir que a dela finge-se adormecida durante tempo demais. Quase a convence.
Para onde ?

quarta-feira, julho 25, 2007

Keep rolling

A rapariga ainda relativamente nova se um olhar atento se demorar na face quase coberta com o que outrora foi um lenço preto, abanava os braços em desespero e tentava chamar a atenção dos transeuntes que à hora tardia das 7 da tarde apressavam o passo em direcção aos seus destinos.
A seu lado, no que igualmente foi outrora uma cadeira de criança, estava um bebé de meses envolto num pedaço de cartão, vestido de roupas sujas que nem um olhar mais atento adivinharia o que seriam. A mim, pareceu-me qualquer coisa como pedaços de toalha turca.
Um pouco mais à frente, outra criança, a rondar os quatro anos de idade, chorava em silêncio, grandes lágrimas rolavam na face escura suja, unhas negras e pés descalços.

Aproximei-me devagar tentando de alguma forma, e algum receio, perceber o que se passava.
O meu olhar interrogativo certamente, chamou-lhe a atenção. Parou imediatamente de esbracejar e agarrou-me as duas mãos. Numa “algaraviada” quase imperceptível tentou explicar-me que precisava de comida para os filhos. Nada mais. Nem dinheiro, nem fraldas, nem tecto, nem casa. Nem nada para ela própria, face cansada e marcada. Fome igualmente à vista de quem lhe dedicar mais que os breves segundos da passagem em passo que se apressa de propósito.
Só comida para os “meus meninos” ..

Abrimos-lhes as portas, acolhemo-nos na nossa sociedade. Vêm de todo o lado, em fuga das guerras e guerrilhas, na procura de uma “oportunidade”, ou simplesmente a tentar a sorte em outras paragens. Não dominam a nossa língua, não se integram na nossa sociedade.
Não conseguem emprego. Nem casa. Nem pão.
Não perdemos mais que o segundo da fronteira aberta à entrada e talvez um outro segundo na passagem pelas ruas onde pedem .. pedem, imploram, rogam, esbracejam. Desesperam.
Começamos a dar-lhes conotações negativas. Que assaltam, que roubam, que se fazem acompanhar de crianças de nem suas são para o chamado “dó e compaixão”. Que afinal até vivem bem. Que tudo não passa de fita.
Generalizamos, generalizamos para nos sentirmos melhor na passagem apressada de quem tem um destino a cumprir.
Eles continuam .. alguns a fazer jus às suspeitas, muitos talvez a consubstanciá-las porque mais não conseguem, não podem, não alcançam ou não querem .. mas .. acredito .. nem todos.
Há outros que pedem .. comida. Para os meninos ..

terça-feira, julho 24, 2007

Intimacy

A casa está vazia.
É .. a princesa está de férias longe, e definitivamente a casa está vazia.
O Cooky mia lamentavelmente na procura da sua companheira de brincadeiras, corre e cheira todos os cantos e recantos numa tentativa de se certificar que a menina não se volatilizou .. olha para mim, olhos interrogativos como quem diz “que lhe fizeste tu?” ;)
A mãe (dona desnaturada sem paciência para o felino) estafa-se nos arrumos, na tábua de passar a ferro, no jeito àquele roupeiro que precisa de espaço .. e em horários naturalmente mais prolongados de quem não tem o corre-corre de que se queixa ao final do dia.
Nas duas ou três chamadas telefónicas diárias a voz que a brinda com uns bons dias é animada, feliz .. o programas são detalhados com o que fez, aquilo que comeu, e como está .. está bem.
Está muito bem.
Mimada como convém, com uma madrinha mais “melosa” que ela, primos e família por perto. Descreve-me pormenorizadamente os locais onde vai (a quem sairá? ;) a vista para a Serra ao final da tarde no pátio da casa, as uvas que amadurecem nas parreiras, o limoeiro carregado “com limões de um tamanho que nunca vi” as idas e vindas com os padrinhos ao Fundão, ao Barco, Alpedrinha, a piscina, o “já sei nadar!” .. os petiscos confeccionados e até o “espera aí mummy que está aqui uma abelha morta” (risada) .. dias cheios .. de férias.
Consigo ver-lhe, à distância dos quilómetros, o brilho nos olhos e o corado da face do tempo passado ao ar livre ..

Mas .. a casa está vazia e se o felino não parar de miar prometo que o fecho na despensa ;)

segunda-feira, julho 23, 2007

surprise .. surprise ..

íam a caminho de Salamanca para uma actuação .. sairam todos da carrinha, t-shirt laranja, clarinete, trompete, trombone, num jazz delicioso rua acima até ao café da aldeia onde nos brindaram com uma verdadeira New Orleans ao melhor estilo ..
Fiquei .. boquiaberta ! é o termo ..
Parabéns Cottas Club .. and keep on marching in ;)

Looking back .. (II)


(hum .. saudosista ? também .. ) :)


Antigamente, parávamos no Couço para o fabuloso pão com presunto do senhor Manel que parecia esperar-nos tal o sorriso que lhe aparecia no rosto rugoso sempre que os quatro lhe entrávamos porta dentro em correria ..
Antigamente, Nisa era igualmente ponto de paragem obrigatório para a compra do queijo – famoso pela mistura de leite de cabra com leite de ovelha, sei-o hoje, mas naquela altura só nos interessava a placa “Bem Vindo a Nisa” para que o pai abrandasse, estacionasse e de novo os quatro em correria, saíssemos do carro num “estica pernas” ..
Antigamente, fechávamos os vidros até ao limite, na passagem pela fábrica de papel, tal o cheiro que nos fazia enjoar, e entretínhamo-nos a imaginar pequenos barcos de papel na tropelia da corrente do rio que corria veloz encosta abaixo ..
Antigamente, as estradas eram ladeadas por árvores tão altas e frondosas que faziam um túnel por onde o sol espreitava teimoso em rasgos de luz e verde .. Viajávamos demoradamente e de janelas abertas, levávamos farnel para o piquenique de beira de estrada ..
Antigamente, contávamos os carros que ultrapassávamos, brincávamos às palavras misteriosas com as letras das matrículas e fazíamos concursos de adivinha "que carro é?" no relance do olhar (eu .. perdia sempre!) .. Memorizávamos facilmente os nomes das terras por onde íamos passando .. Fratel .. Ribeira da Ota .. Lordosa .. Castelo Novo .. Castelo Branco .. tantas.
Antigamente .. a viagem levava qualquer coisa como 6 horas, um dia para a preparação da chegada, antecipação num “falta muito?” proferido de meia em meia hora .. um dia para o acalmar da despedida .. em que a placa “entroncamento” dizia-nos que já estávamos perto de casa ..

Hoje?
.. quaisquer duas horas de alcatrão levam-nos ao mesmo destino.

Valha-nos o destino .. que está na mesma :)

sexta-feira, julho 20, 2007

Looking back ..

Há já algum tempo que não cuidava de um bebé .. na verdade já há muito tempo que não estava .. a tempo inteiro ..
Hoje, um concerto apetecível fez a irmã e cunhado pedirem à mana “cota” uma noite de babbysitting.
O banho, o jantar, as cantorias e brincadeiras do meu sobrinho e afilhado (neto quase, sim .. ;) fizeram-me as delícias de retroceder no tempo, quando era a princesa quem atirava os brinquedos para o chão num misto de gritinhos esganiçados e palavras mal balbuciadas entre elas um “titi” que não se atrevam a afirmar .. que não é comigo.

Adormeceu a afagar a orelha, como todas as crianças desta família num “Ba .. ahhh”, olhos ternurentos a fechar, enquanto lhe canto baixinho a canção com a qual embalei a mãe ..
Passaram-se anos .. muitos .. desde que estive pela última vez a tempo inteiro :)

PS_ quando é o próximo concerto? ;)
Tenham um fim de semana .. intemporal *

Cheers!

"At the age of eleven or thereabouts women acquire a poise and an ability to handle difficult situations which a man, if he is lucky, manages to achieve somewhere in the later seventies. "

P. G. Wodehouse, Uneasy MoneyBritish humorist & novelist in US (1881 - 1975)
;) .. cheers Mr. Wodehouse

Kidding ..

Once in a While ..
que por vezes está para lá de daily twice (culpa da silly season .. nada a fazer) quer dizer:
De Vez em Quando !
Para todos os que aqui chegam na busca da tradução do termo .. (são vários, imensos .. ) ;)
eu .. fazendo jus ao silly .. da season, obviamente (risos)

quinta-feira, julho 19, 2007

Twilight Zone ..

A vizinha entrou-lhe porta adentro mal lhe abriu uma nesga.
Pequena e roliça, ligeiramente coxeante e com voz esganiçada, apresentou-se rapidamente e desatou num chorrilho de perguntas e questões imperceptíveis tentando espreitar por cima do ombro da desprevenida “anfitriã” .. que vivia ali há 15 anos, que lhe dava as boas vindas, que até já tinha perguntado à Dona Cremilde do 8ºA quem era que tinha ocupado aquele terceiro andar há tempos sem ninguém, que estava acamada na altura das mudanças "sim sim que ouvi por aqui algum barulho" .. "desculpe, tentámos não fazer muito" balbuciava incrédula, que nunca a via a sair ou a entrar “grandes horários hein‘” tudo num desassossego de quem não espera qualquer resposta e tentando sempre dar mais um passinho para entrar .. o felino da casa entretanto esgueira-se do colo, rápido como só os felinos o sabem, ela de figura de pedra em frente à porta, tentando com um dos pés travar-lhe o ímpeto de sair porta fora, escadas, rua, liberdade .. Os senhores da TV Cabo, solícitos e de fato de macaco não poderiam ter escolhido um segundo melhor para aparecerem cheios de perguntas sobre onde está a tomada principal e a caixa do servidor, linguagem que ela não entende nem tão pouco visualiza a que se referirão. Manda-os entrar para a sala (felizmente única assoalhada com direito a aparelho de tv) ;) e a vizinha aproveita e entra também. “ai que lindo, ai que lindo .. mas o que a menina aqui fez hein ? isto é que foi trabalho hein ? ai que sofás ai que maravilha .. onde comprou? Foram muito caros?”
Os rapazes técnicos afastam-lhe o móvel, enrugam o tapete, convenientemente preso ao chão (para quem tem felinos, fica a dica .. ) ela no limite de perder a paciência se é que alguma ali residia ainda, tentando explicar aos ditos técnicos que a box (?) estava sem qualquer sinal, aparelho sem préstimo, morto .. a vizinha a gargalhar com as tropelias do felino, entretanto e no meio da confusão, a fugir-lhe por cima dos sofás. À frase “ai que bem que me sabia um cházinho!” arvorou o seu melhor ar de ingénua e replicou que a cozinha ainda estava em obras ..

Twilight zone? Absolutely … ;)

PS_ a box, pelo menos, já pisca a verde e a vermelho .. só me falta mesmo perceber que para a ligar não posso utilizar nenhum dos outros comandos .. (risos)

pAz

Reune-se hoje em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, o Quarteto da Paz .. "boa" penso .. uma reunião de altas esferas, representantes de todo o lado e mais algum, um único objectivo:
a paz ..
recordo um discurso lido há muito tempo, proferido há ainda mais tempo, sobre sinergias para a paz, sobre utilização de todos os recursos possíveis mais aqueles "imaginados" para erradicar a violência do Mundo .. sorrio da utopia, e a minha atenção é desviada para outra parte da notícia: o protagonismo que Sir Tony Blair pode vir a retirar desta cimeira, a consolidação da posição assumida, o fortalecimento da sua liderança (?) .. bla bla bla argumenta a analista de serviço ..
É pena.
o Objectivo PAZ parecia-me mais que suficiente e justificativo para a reunião do Quarteto ..

quarta-feira, julho 18, 2007

Wisdom (II)

"A journey of a thousand miles must begin with a single step."
Lao-tzu

Isn't that so? .. sure .. but how often don't we seek for the all journey instead? :)

think about it..

Pieces ..

Sentada no restaurante, à espera do “bife grelhado, só com salada por favor”, olhava ao seu redor com alguma atenção.
Ali à direita um casal que se adivinha “ilegal” num discussão em surdina sobre “que digo eu à minha mulher .. Dá-me uma ideia” (apeteceu-lhe aconselhar o incauto que esse tipo de perguntas assim .. bom .. calou-se) .. Mais adiante um grupo de rapazolas com livros dispersos pela mesa, cotovelos apoiados, cavaqueiam e depenicam uma travessa de batatas fritas .. À esquerda uma mãe jovem com uma criança pequena tenta que ela coma um enorme prato de sopa, sem pingos nos calções .. num “chega-te para a frente” que o pequeno rabeia atirando sopa, pão e o que mais esteja na frente, propositadamente para o chão .. O olhar da mãe é aflito, em redor, na tentativa de chamar a atenção da empregada com “um pano, por favor ..”
Tem esta mania, que fazer? A ausência de companhia é quase propositada nas pausas que se concede e ao fim e ao cabo, que melhor companhia que as vidas que correm esbatidas, sem ter de forçar, perguntar e impor uma certa cumplicidade e preocupação que por vezes .. quase sempre .. não existem ..
Reparou-lhe assim facilmente na chegada .. Lenço na cabeça como se lembra que andavam as mulheres na terra do pai, com penteados perfeitos de compridos cabelos bem amarrados, saia comprida, quase até ao chão, camisa florida mas em tons tristes e desbotados, usada mas perfeita de asseio e de ferro de engomar utilizado com afinco.
Olhar atento pelo balcão, ar de pouco conforto na procura de uma mesa escondida, perto de uma porta de preferência, discreta, para que não dê nas vistas.
Admirou-lhe o ar decidido com que atravessou a pequena sala, alheia e indiferente aos olhares curiosos com que a brindam os rapazolas, passo firme e saia num fru fru a rasar o chão. Passou-lhe ao lado e sentiu-lhe o cheiro a tremoceiros e pé de oliveira, viu-lhe as mãos escuras, tisnadas, enrugadas do trabalho, os olhos fitos na parede em frente numa tentativa de que a sua atenção não seja desperta por nada que a faça virar a cabeça.
Sentou-se na mesa detrás. Ouviu-a afastar a cadeira e a saia, sentar-se, e à empregada que acorreu rápida e solícita, quem sabe para minorar o “sofrimento” da observação no meio de anónimos (somos todos) .. pedir: “uma sopa .. e a garrafa de azeite, se faz o favor menina ..”
Sorriu.
Típico.
Percebeu então a hesitação à entrada .. a observação do balcão .. a garantia de que ali teria a sua sopa regada com azeite .. não tão delicado como o da terra certamente .. mas ainda assim ..

Ao apanhar-lhe do chão a carteira teimosa que caía pela quarta vez, mania de a dependurar na costas da cadeira, atirou-lhe um “bem haja” e viu abrir-se um sorriso luminoso e um brilho a seara madura nos olhos .. “da Beira menina?” .. “também” .. :)

terça-feira, julho 17, 2007

São as férias .. senhor ;)

São férias Senhor .. pensa a mãe enternecida no abraço apertado com que da princesa se despede na estação dos comboios .. são férias.
É descanso, é dolce fare niente ou um tropo fare de outros cansaços, são passeios a pé, mergulhos na piscina dos primos, dormires e acordares aconchegados, repouso, brincadeira, tanta e muita brincadeira .. são férias.
É o pão doce estaladiço carregado de doce de morango, os pêssegos com “babete” de tanto sumo, as empadas da madrinha “as melhores do mundo” a sopa e o queijo da serra .. São conversas prolongadas, perguntas pertinentes e risotas pegadas.
São férias .. este ano começadas com a madrinha .. há tempos .. não me parecem muitos mas há "tantos tempos" era a mim que me saltava o coração do peito na expectativa da viagem, da saudade assim “matada”, da ânsia de um tempo com a prima .. a irmã mais velha que não tive, agora é ela, no mesmo lar, no mesmo aconchego, na mesma cumplicidade “shiuuu é segredo!”
São férias!

A “workaholic” da mãe fica .. numa Lisboa sem trânsito (por isso a abstenção nas eleições?) .. na recta final antes de partir, num esforço de deixar o que tem de ser deixado encaminhado, resolver e prever .. raio de palavra mais significativa nestas alturas, prever, prever, prever o que pode correr mal (corre sempre, mesmo sem insubstituíveis) prever como resolver na hora, no minuto, no segundo seguinte.

São férias! Falta muito? ;)

Interesting ..

Vi-lhe ontem a história .. desde os seus atribulados tempos de meninice, a agonia de anos deitada, engessada após o acidente (há na biografia a versão da poliomelite mas prefiro a outra ..) as ideias partidárias, as tendências sexuais, o casamento, o "peso" da lealdade, que ao contrário de fidelidade, pressupõe um comungar de ideias mais que de companhia versus corpo, a pintura .. Realista "I paint my own reality. The only thing I know is that I paint because I need to, and I paint whatever passes through my head without any other consideration." o auto retrato ("porque a mim conheço-me bem ..") a força de vida, a coragem perante a dor .. Vida.
E gostei .. A outra luz percebo-lhe a obra, o significado deste ou daquele quadro, o ar semi zangado contornado em sobrancelhas negras, juntas ..
E de facto .. "Pies, para qué los quiero .. Si tengo alas para volar." Uma citação que se pressupõe um pouco filosófica até nos apercebermos que Frida .. falava, mais uma vez, com a realidade na mão.
Gostei muito.

segunda-feira, julho 16, 2007

VIII Grande Noite Ballet Flamenco


os artistas nascem como o comum dos mortais mas .. não morrem nunca mais.”

A Companhia de Dança Flamenca de Portugal apresentou no Teatro Tivoli, no passado dia 14 de Julho, pelas 21h30, a sua VIII Grande Noite de Ballet Flamenco.


Cansada, ainda de coque no cimo da cabeça e purpurinas espalhadas na face, a princesa fez-me prometer que estaria na segunda fila a aplaudir.
Uma das bailarinas convidadas – a fabulosa e graciosa Maria João Mirco – é a sua professora de ballet.


Não achei a princípio que ela aguentasse um non-stop naquele dia .. mas foi só mesmo de princípio .. ;) Não só aguentou, como aplaudiu de pé, gritou “bravos” até ficar sem voz .. e elucidou-me sobre quase todos os nomes dos fantásticos artistas.


Emocionou-se, tal como eu, com o solo de João Hydalgo .. há aí não só um “duende” professor como uma verdadeira paixão pela arte com que nos brindou nesta noite.

A todos .. sem excepção .. os nossos parabéns!

E ficamos as duas, e posso apostar, a sala que em pé vos aplaudiu, todos, desejosos .. de outras oportunidades.

Que bem se dança em Portugal!

Crescendo (VI)




A princesa dançou.


Dançou, encantou, emocionou.

Agradeceu serena no fim, olhos fitos ao longe, sorriso nos lábios.

Como aprende.. "estamos numa bolha mummy .. numa bolha de ar .. não vemos, não ouvimos .. nada"

A princesa dançou ..


E a mãe .. esta "coisa" teimosa que começou por há dois anos atrás não dar muita importância ao "mummy posso ir para o ballet?" vai ter .. vai mesmo e seriamente ter de começar a preocupar-se .. com o futuro :)

"Bravo" princess *




sexta-feira, julho 13, 2007

Há!

Há dias carregados de boas surpresas, daquelas surpresas que nos emocionam, a ponto de soltar aquela lágrima insistente que da emoção do encontro, da visão, teima em aflorar aos olhos .. há dias carregados de boas surpresas .. mesmo à sexta feira .. mesmo dia 13 .. :)

Via-a chegar encurvada, pequena, figura enrugada, olhos a piscar do sol intenso que se fazia sentir às 09 da manhã. Vestida de preto como sempre me lembro, cabelo curto já todo branco, avançava em passo pequeno mas firme. Dois segundos bastaram para realizar quem era. Levantei-me de um pulo, coração aos saltos, e tantas, mas tantas memórias na cabeça.
Abracei-a com força e dei-lhe a mão. “Menina, menina que boa surpresa!” Olhos igualmente marejados de lágrimas. Abraço apertado como tantos os que outrora me deu. Admirou-se do crescimento da princesa de quem nem sabia a existência. Mantinha a mão dela na minha .. a segurança que outrora me transmitia quando ma dava passou hoje de mim para ela, enquanto me afagava os dedos, comovida, sem palavras. “Menina, menina .. que boa surpresa!”

Há dias carregados de boas surpresas .. mesmo numa sexta-feira 13.

quinta-feira, julho 12, 2007

Interesting ..

“Nice distinctions are troublesome.
It is so much easier to say that a thing is black, than to discriminate the particular shade of brown, blue, or green, to which it really belongs.”

Mary Anne Evans (1819/1880), English novelist and poet, more well-known by her pen name George Eliot.

Concordo.
Em absoluto.
Não só com a citação como também com as razões que a levaram a escolher um “pen name” masculino.
Não me parece que esteja inerente qualquer falta de identidade .. a tentativa foi tão somente, a de ver o seu trabalho levado a sério .. ;) outras realidades?
Vendo bem, bastante actuais, parece-me.

quarta-feira, julho 11, 2007

Crescendo (V)

Aproxima-se o grande dia e a princesa lá de casa anda num desassossego!
A sério! Cansadas que estamos de um ano de trabalho com uma ou outra interrupção, que infelizmente nunca vem na proporção directa do cansaço acumulado, esta chamada “recta final” antes do “gozo de período de férias” reveste-se invariavelmente de mais stress, mais nervos, mais trabalho, ou talvez menos fibra e predisposição para enfrentar o mesmo trabalho, o mesmo stress, os mesmos nervos ..
Mas dizia, aproxima-se o grande dia e a par com a praia que faz todas as manhãs (à madrugadora hora das 08am no autocarro ou fica tudo em terra), das dormidas em casa das colegas (porque é o último ano e têm de aproveitar) da casa cheia de colegas a dormir quando me calha a vez de fazer de “abrigo” às saudades que se adivinham e têm de ser compensadas com estes momentos, aos horários da mãe que se complicados no resto do ano parece que fazem de propósito nesta altura numa tentativa de alargar para 48h o dia normal de trabalho, supostamente, só mesmo muito supostamente, das 09am às 06pm, a par com tudo isto, coisas normais enfim, temos as exigências dos ensaios, os penteados e as sapatilhas, o fato de trabalho e a confecção do fato de gala, idas para a Academia a toda a hora, corre corre, duche rápido que a esperam outras exigências de quem não descansa, não pode descansar.
Atiro-lhe um “não sei como aguentas”, pensando que de facto não sei como aguenta e como tem ainda energia à noite para contar tim tim por tim tim como foi o banho de mar nesse dia, detalhadamente o teatro a que assistiu no areal (parabéns à “Avene” pela iniciativa), e ainda as poses que treina, pés, mãos, cabelo repuxado mesmo com sal e areia à mistura .. uff!
Não sei?
Se calhar sei.
Olhando-a nos olhos e vendo-lhe o entusiasmo, a fibra, o brilho .. acho que, de facto .. sei.
;)

(mãe babada versão quatromilequalquercoisa mas que querem?)

terça-feira, julho 10, 2007

Encore ..

Vale-lhe a quase comunhão de raízes que prezo para não me “zangar” (risos) com um dos “bloguers” (giro, o termo) que consulto diariamente :) e assim sendo, aqui lhe respondo a mais um desafio.. Este curioso, sobre leituras recentes ou antigas, gosto do tema e portanto:

Leonor Telles de Marcelino Mesquita, que já teve honras de “post unique”, uma descrição deliciosa, um portucale antigo, bem retratado, imperdível;
Quinhentos Escudos Falsos de Thomas Gifford, ao qual igualmente já me confessei rendida;
Pintora de Plantas de Martin Davis, um relato empolgante, dois séculos em análise, as expedições inglesas a par e passo com a procura de uma ave extinta e da qual consta que existe um único exemplar perfeitamente conservado, um final surpreendente à laia do “afinal estava aqui tão perto” que me levou a outras considerações: o que procuramos não está quase sempre “tão perto”? ;)
À Descoberta de África de Martin Dugard, este dispensa apresentações excepto a famosa “Dr. Livingstone, I presume” .. and you presume correctly ;)
Equinócio de Michael White, a eterna demanda pela Pedra Filosofal, uma ligação entre a vida e obra de Newton com estranhos acontecimentos na Oxford de hoje .. Não consta que desta vez esteja assim tão perto o que se procura .. ;)

Não!

Estamos quase, quase de férias e eu não vou ser "indecente" ao ponto de passar o desafio de mão em mão mas .. quem sabe na rentrée? Aproveitem .. e leiam.

segunda-feira, julho 09, 2007

Vasculhando o Baú (II)

Falta de tempo? também .. obrigação de "postar" ? nenhuma .. :)
Porquê então, perguntam legitimamente .. por nada.
Porque me apeteceu.
Porque o escrevi no "dificil" ano de 2001, porque o dediquei à princess (who else ;) .. Porque sim ..

"Mãe o que eu gosto de ti não cabe no céu!..."

Como é que é possível que a minha filha de 4 anos tenha esta noção de infinito?
Como é possível que todo o céu que avistamos juntas quando à noite tentamos contar as estrelas, não chegue para ela colocar todo o amor que tem por mim, e como é que é possível que ela saiba isso e o exprima desta forma?
Ao ouvir esta frase, emocionei-me e abracei-a com mais força. Fiquei sem palavras.
A expressão do seu sentimento atingiu-me como um raio. Chorei. "Não chores mamã, eu gosto de ti". E eu de ti minha filha querida, minha companheira. Tanto, tanto que de facto a melhor forma de o exprimir é a forma que tu própria usaste!
Não cabe no céu estrelado, nem nas profundezas do mar, não se abala com os ventos invernosos, nem oscila na mais terrível das tempestades!
Amor de mãe, amor de filha é eterno e infinito!

sexta-feira, julho 06, 2007

Memória (III)

A casa estava fechada.
Janelas entaipadas onde outrora ondulavam as pequenas cortinas brancas, imaculadas e a cheirar a sabão azul e branco.
Os chorões haviam há muito deixado de “chorar”. Tristes ramos sem folhas que já não varriam o chão nem murmuravam histórias de encantar aos pássaros .. também estes haviam voado para longe, sem folho para aninharem.
O portão outrora pintado de verde, brilhante, estava enferrujado, tinta lascada, sinal de abandono. Foi com esforço que aplicando todo o seu peso, conseguiu que se abrisse.
Lá dentro .. desolação.
O jardim dantes cuidado, as roseiras “príncipe negro” e as outras que se carregavam de pequenas rosas de “santa teresinha” não eram mais que um emaranhado de ramos secos, sem norte nem rumo.
A pequena horta onde ainda se via de joelhos no chão e unhas negras de terra, um labiríntico amontoado de raízes, secas, que haviam crescido sem água e sem frutos. A terra revolta sinal que os cães, conseguindo saltar o muro, ali faziam as suas “camas”. Um gato gordo, branco, correu até ao fundo do jardim rasando-lhe as pernas, assustando-a.
Lentamente deu a volta à casa. Parou no pequeno pátio e procurou o som familiar do papagaio que a brindava com um “God save the Queen” em tom trocista. A gaiola estava vazia, igualmente ferrugenta. A manta que a cobria, tricotada pela avó em tons garridos, era um trapo rasgado, pendurado ao vento, preso num arame teimoso e espetado.
Forçou a entrada na sala pelas portadas do pátio e aí, sem esforço, conseguiu entrar. Admirou-se se seria a única a fazê-lo. Lá dentro a penumbra, envolta em pó que rodopiava na réstia de luz como que em dança de boas vindas, deixou vislumbrar os grandes sofás cobertos de mantas brancas, o chão sujo, tapetes enrolados a um canto. Não havia luz. Voltou atrás e abriu de par em par as portadas das janelas.
Voaram um pequeno morcego e algumas borboletas da roupa num bater de asas assustado. A seus pés vários insectos para os quais já não tinha nome, disparavam em todas as direcções. Sentiu-se intrusa em casa própria. Coração apertado e olhos secos de lágrimas que há muito haviam deixado de correr.
Passou á sala seguinte: a sala da avó .. a sua sala. O piano. Negro, enorme, coberto de pó que ficava preso aos seus dedos enquanto acariciava o marfim das teclas, a madeira outrora polida e brilhante. Parou. Escutou ainda os sons que trepidantes reproduziam as melodias ali tocadas. Todas. Tantas.
A cozinha pareceu-lhe estranha. Sem as grandes panelas ao lume num vapor que volteava até à chaminé, sem os pratos constantes na mesa como quem espera companhia na certa, e o tabuleiro da Família Real .. onde estaria?
O quarto, esse estava intacto. Como se de alguma forma nem os insectos, nem as borboletas da roupa, o vento ou o sol ou a chuva tivessem conseguido autorização para o invadir. A cama perfeita, feita, lisa, como se lembra que a avó sempre deixava antes de sair cedo num “you know how you leave but you don’t know how you’ll retun”. O tocador ainda numa profusão de pequenos cremes, a escova e o pente, a rede de cabelo. Os cortinados corridos, pesados, as fotografias de família na parede, bem alinhadas. O avô, os bisavós, o tio.
Ela.
Ela pequena, rechonchuda, a andar de baloiço lá fora no jardim. Meias até ao joelho, saia aos quadrados com peitilho, uma camisola de gola alta. Estava frio naquele dia, lembra-se bem. Sorriso aberto, sardas no nariz, a emoção de experimentar pela primeira vez o baloiço que as duas haviam construído e pendurado entre gargalhadas, cordas e força que não tinham, estampada no rosto pequeno.
A emoção ..
Ela .. de cicatriz na sobrancelha, fruto de uma afoita incursão no recreio dos rapazes da escola que frequentava e da fuga intempestiva logo que descoberta, ainda de bata cor de tijolo com a placa do nome orgulhosamente bordada no peito. Ela, no dia de final de curso, olhos brilhantes, diploma na mão e ar de “quero sair daqui e depressa”. Ela, de vestido de noiva, figura de porcelana, braços desnudados e luvas até ao cotovelo. Tantas .. ela.
Virou-se muito devagar para o espelho. Olhou-o, olhando-se, e sorriu. Preso por uma pequena fita encarnada, no canto superior, um bilhete onde reconheceu a letra da avó “I’ll be away for a while my dear .. would you please take care? Love ..forever”
Emocionada percebeu a dimensão, a enorme e agora infinita intensidade, daquele “forever” ..

quinta-feira, julho 05, 2007

Prize (II)


«O Prémio "Blogue com Grelos" premeia mulheres que, na sua escrita, para além de mostrarem uma preocupação pelo mundo à sua volta, ainda conseguem dar um pouco de si, dos seus sentires e com isso tornar mais leve a vida dos outros.
Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor.
A escrita no feminino, em toda a net lusófona tem que ser distinguida»

Esta coisa de ser considerada por alguém que escreve de uma forma que me encanta, uma “mulher que espalha a palavra de forma emotiva e cativante” .. logo eu amante de letras e palavras, dos seus significados e das suas “nuances”, que busca para além do óbvio (sempre aborrecido) os segundos, terceiros e quartos sentidos mesmo quando por vezes lá não estão, tornando cansativo o exercício da interpretação mas .. sem saber fazer de outra forma (ou será sem me apetecer?) .. deixou-me .. esta manhã .. emocionada :)

Amiga sine o meu bem-haja *

Ao desafio de passar o testemunho a cinco mulheres que façam voar palavras de forma cativante, a tarefa torna-se difícil.
Tenho lido ao longo da minha recente estadia nestas paragens verdadeiros tesouros, textos emotivos, outros claríssimos apologistas da lealdade devida às situações abordadas, outros de uma análise pura e dura, quase "assustadora", outros ainda ternos que me inspiram uma lágrima teimosa, alguns de uma simplicidade colorida, sem pretos nem brancos .. outros ainda pautados por imagens que me adoçam o dia, simples frases, pequenas legendas, citações a propósito e muito sentido de humor.
Assim, não sendo fácil reduzi-los ao número “imposto” .. e podem até reclamar que estas coisas não têm “v” de volta mas neste caso, para mim, assim o sinto ..
Que a "fotossíntese" .. esteja convosco ;)

terça-feira, julho 03, 2007

How will it be?

O tema é estafado. Não tão “velho” quanto a profissão mas ainda assim exaustivamente analisado e agora a lume de algumas intervenções.
Tenho-o acompanhado aqui, li com muito interesse e verdadeira admiração pela forma como a Cristina o aborda aqui, e à questão da próxima sondagem do Caríssimo H.R., atrevo-me a concordar com a legalização da prostituição, mas de complexo e pouco linear que o tema é, suscita-me dúvidas e “complicações” que aqui deixo à laia de desabafo:
O reconhecimento da existência de determinada actividade deveria por si só fazer valer os direitos e deveres da mesma. Seja qual for, a partir do momento em que existe, é praticada, usufruída ou prestada, deverá, em sociedade, ser regulada. E a regulação passa pela enumeração e aplicação de direitos, deveres e obviamente impostos, taxas e contribuições whatsoever ..
Agora respondem-me vocês: mas a sociedade, essa mesmo, não reconhece a actividade. Não? Então como dela usufrui e a ela se presta? Sejamos coerentes. Se há prostitutas é porque há clientes. Há um produto que faz parte da oferta que se presta a ser adquirido pela respectiva procura, gerando actividade, ganhos e perdas, embolsos e desembolsos.
Logo, a sociedade tem de se render à evidência. Existe sim. Mesmo que se virem as caras para o lado e se acelere o carro na passagem.
Por outro lado, prostitutas não são só algumas meninas de faculdade que enveredam por este caminho na mira do pagamento do curso, que depois se habituam a um determinado nível de vida que dificilmente colocam para trás, começando a trabalhar e a ganhar o ordenado mínimo e refazendo a vida em função do “haver e do dever”. Nada disso.
Também não são só as miseráveis que se vêem envoltas numa rede de cortar a respiração e a liberdade de escolha, normalmente estrangeiras, exploradas, ameaçadas, mal arrumadas e mal instruídas que muito dificilmente se conseguem, sozinhas, libertar da rede que as aperta e as sufoca.
Também não são só crianças apanhadas em redes de pedofilia, escondidas dos olhares, a habitar verdadeiros ninhos de ratazanas, disponíveis à satisfação dos caprichos daquele cliente mais endinheirado. Não, não são.
Há muitas que são porque querem. Que exercem a sua profissão como eu exerço a minha, como você exerce a sua. Que são livres, totalmente livres para escolher entre este e aquele caminho, e escolhem e optam. E vivem. Como todos.
Nem toda a gente está à espera de ser “salva”. Não nos esqueçamos disto quando começarem a correr os cartazes com meninas lindas de pernas à mostra atrás de grades ou garotos vestidos cerimoniosamente com bíblias na mão ;)

Mas .. Legalizar a Prostituição servirá para (?):
- Reduzir o tráfico de mulheres, as compras, as vendas e as trocas, como se de mercadoria se tratassem;
- Controlar drasticamente os raptos de crianças que alimentam as redes de pedofilia / prostituição infantil;
- Esclarecer e auxiliar os pais que vendem as suas próprias filhas em troca de quilos de arroz e açúcar que lhes permita sobreviver durante mais um ano, alimentando à custa do “sangue do próprio sangue” o resto da prole;
- Facultar cuidados de saúde, obrigar clientes a usar preservativo, sem que disso resulte qualquer tipo de coação / agressão à prostituta que o sugere;
- Eliminar radicalmente a figura do “chulo” que vive da exploração da vida, muita vezes sem vida, alheia;
- Fomentar o abandono da profissão oferecendo contrapartidas válidas e consistentes, formação e possibilidade de escolha, sem penalizações, julgamentos de valor, castigos de qualquer espécie.
Ou vai simplesmente servir para obter declarações de rendimentos, impostos cobrados, além das inerentes manifestações das “beatinhas de serviço” contra tudo e contra todos, advogando castigos divinos e maleitas à laia de maldição?

Quando tiver resposta a estas questões (ou que seja a uma só) .. estarei apta a pronunciar-me.
Até lá .. fico no “ar” ;) sim, sim, e podem chamar-me “utópica” também!

Gotan Project

Há uns anos atrás alguém me fez chegar um cd gravado com a nota “ouve .. vais gostar!”
Gostei tanto que o procurei, a ele e eventuais outros, sem sucesso no nosso mercado, na altura.
Hoje estão aí. Não agradam a todos, obviamente, mas a muitos .. nas palavras de um dos seus artistas "Os portugueses são pessoas muito curiosas em relação a coisas que vêm de fora. Mais: gostam de música emocional e nós fazemos isso".
Sem dúvida. Música Emocional.
Gotan Project em que Gotan denomina tango ao contrário no calão de Buenos Aires, que se virem do avesso se quiserem mas .. não parem, enquanto inspiração houver, de compor coisas como as que ouvimos ontem em Oeiras ;)

Adelante :)

segunda-feira, julho 02, 2007

Retalhos

O casal abriu a grande arca frigorífica e saíram, como que por magia, quatro grandes latas de cerveja bem gelada. A mãe desembrulhou então um enorme pacote de papel vegetal de onde apareceram variadas sanduíches: queres de presunto? De ovo? De pasta de atum? Tragaram tudo em cinco minutos e atacaram as taças de baba de camelo á laia de sobremesa, oportuna num dia de praia .. entre piadas e vários “alevanta-te João que estás há muito tempo ao sol”, almoçaram com pressa e partiram todos para o banho num perfeito desrespeito pela bandeira vermelha ao vento e pelos apitos estridentes do nadador salvador.. “depressa antes que comeces a fazer a digestão Carina!”
É conselho a seguir ? Provavelmente ..
De brincadeira pegada com os garotos das pranchas de esferovite o senhor “grávido de oito meses”, pega na prancha do mais novo e dispara “ora vê como se faz”! Correrias até à água, a mesma bandeira vermelha tristemente ignorada é vê-lo em grandes braçadas até às ondas que estoiram com ruído ensurdecedor e levantam uma brisa molhada a par com quilos de areia: apitos para cá .. apitos para lá, dois nadadores velozes rasgam o mar em grandes mergulhos, bóias penduradas, para resgatarem o aventureiro tardio e barrigudo.
Era exemplo? Provavelmente ..
Oito rapazes, quatro raparigas, aparelhagem de música aos altos berros, instalam-se nos guarda sois alugados, puxam várias cadeiras que a outros alugueres pertencem, atiram tudo para a areia numa berraria “sexo é poder!” “olha lá as pessoas” atira-lhe uma mais tímida, gargalhadas e impropérios de tapar os ouvidos.
Postura a adoptar? Quem sabe ..
A senhora forte, de pano á cintura que nem o pescoço taparia, biquini reduzido e imperceptível nas várias camadas de pneus que à michelin fariam certamente inveja, grita desalmadamente um chorrilho de acusações e nomes feios contra a rapariguinha do bar de praia “eu não lhe disse que a minha sande era sem alface? E isto é uma dose de batatas fritas?” o marido semi-envergonhado e detentor de pneus iguaizinhos, duas crianças que fazem jus à preocupação pela obesidade infantil em Portugal, mastigam de boa aberta a "sande" mesmo com alface e bebem em grandes goles dois enormes copos de coca cola “bem gelada! Eu disse bem gelada! Esta porcaria está quente!”
Adoptamos este também? os pneus eu dispenso ;)
Duas grandes palmadas no rabo do pequeno de qualquer coisa como 8 anos quando se atreveu a colocar o pé dentro do carro sem ter convenientemente sacudido a areia do chinelo .. e da perna. Palmadas que por cima de fraco fato de banho calção têm um impacto e provocam uma dor na directa medida da força aplicada ao gesto .. Um grito profundo e uma choradeira em voz alta enquanto olha ao redor para ver se ninguém viu e ouviu .. impossível.
Credo mummy ! exclama a princesa, era preciso aquilo?
Não .. claro que não .. este não adopto nem que a vaca tussa ! ;)

Valha-nos o trânsito que não apanhámos de regresso a casa .. :)