sexta-feira, junho 29, 2007

Pedaços de uma estória qualquer (II)

A rotina era sempre igual, por isso mesmo se chama rotina, pensava sorrindo.
Parar no colégio para buscar a filha, pequenita de 3 anos, sorridente e de braços estendidos para a mãe tardia .. sempre a última a chegar.. O emprego fica longe, não tem carro, há dois ou três transportes públicos para apanhar, quando consegue encadear horários, sempre à justa ..
De regresso a casa nesse dia vinha a pensar na vida. Muito gosta de fazer os “balanços”, avaliar os “prós”, desvalorizar os “contras”. As “coisas” não andavam a correr sobre rodas. Há já muito que não corriam. Raio de pedras que insistiam em cair no carril .. A gravidez, as marcas, os problemas financeiros e outros, enfim .. não estavam a viver um mar de rosas, ai isso não. Mas .. confiante que era, melhores dias viriam estava certa. Que esta coisa das “fases” como se pela Lua se regesse, eram assim mesmo: umas óptimas que tinham de ser aproveitadas até à medula .. outras menos boas, por mais que se fizesse, acabava em concluir que a postura preferencial era mesmo: enrolada no sofá a ver passar ..
Do colégio até casa o percurso é agradável. As ruas sempre a descer, arborizadas, a filha em corridas para lhe acompanhar os passos firmes, a paragem obrigatória na padaria de esquina para a fornada das 19h30 quente e a estalar, as mesmas caras, os mesmos vizinhos de caminho, boa tarde .. boa tarde .. :)
Ao entrar no bairro atravessou-a um arrepio .. que coisa! Estamos em Agosto! E por falar em Agosto, o aniversário da filha aproxima-se. Há que começar a pensar nos preparativos da festa. Quem levar ao colégio desta vez? Ainda a Palhacinha? talvez ..
E nestes e outros pensamentos, interrompidos pela galhofa e conversa da criança, puxando o casaco para o peito, de mão dada, entra na sua rua. Outro arrepio. Raios! É no que dá sair cedo de cabelo molhado. Está constipada!

Nas horas seguintes e enquanto a vida se desmoronava à sua volta, quais pedaços de edifício antigo a ruir, poeira de recordações feita e levada pelo vento, ajoelhou-se, agarrou a filha que a olhava com grandes olhos negros e interrogativos, e deixou sair o pranto solto .. lancinante.
Não se tinha preparado para isto. Não o anteviu? Não o cheirou? Como? Como se deixou apanhar assim tão desprevenida, indefesa, sentimento de abandono que a assola e a derruba!

Nunca mais, prometeu .. nunca mais.

quinta-feira, junho 28, 2007

Life .. oh life

Correrias.
Novos Projectos.
Atenção redobrada, disponibilidade total.
Receber, entender, analisar, executar. Rápido, rápido .. depressa, alguém está à espera para assinar, para despachar, para chegar ao destino.
Corremos todos. Damos o “litro” na gíria .. o trabalho “está a vestir-se” velha formúla herdada dos tempos da agência de navegação (saudades!) .. anda tudo num stress “danado” .. é assim, menos gentes, mais trabalho ou o mesmo trabalho para menos gentes ? ..
O "corre corre" alastra-se à hora do almoço, engole-se uma sopa a correr que às 14h00 tem de estar tudo de volta, comunicamo-nos por telemóvel nos pequenos períodos que concedemos ao corpo o alimento que necessita, leva-se work home que isto não pára, não pode parar.
Acelerar, acelerar para chegar a horas, quem tem filhos para ir buscar transgride as regras, os sinais (traço continuo? estava lá?) para chegar a horas às escolas, matrículas para fazer, festas de final de ano em que temos de estar na primeira fila a bater palmas, mesmo de telemóvel no ouvido num perfeita desatenção do que se passa ao redor, corre, corre, rápido, rápido .. vá!

Ontem .. uma notícia de fim de dia fez-me abrandar o ritmo louco em que tenho andando.
Notícia triste. A morte da mãe de um amigo.
Quatro meses de vida entre a identificação da doença e o culminar numa partida para “as estrelas” como diz a princesa lá de casa.

É .. vamos acalmar sim .. de que serve tanta correria, tanto projecto, tanta coisa feita, bem feita, tanta responsabilidade, tanto desespero, tanto “será que consigo?” ..

Sentada no banco de pau da Capela, ambiente choroso, caixão ainda aberto que em breve encerrará o que foi uma vida cheia, corre corre .. como a minha.

quarta-feira, junho 27, 2007

Either .. Neither ..

"My generation of radicals and breakers-down never found anything to take the place of the old virtues of work and courage and the old graces of courtesy and politeness."

Francis Scott Key Fitzgerald (18961940)

Atrevo-me a afirmar, lamentavelmente, que a minha .. também não.

terça-feira, junho 26, 2007

Crescendo (IV)

Prestadas as provas necessárias à Escola de Dança do Conservatório Nacional a pequena princesa, aspirante a bailarina, ficou eliminada.
Oitenta e nove meninas (ano fecundo o de 1997 ;), seis meninos, vinte e quatro vagas, e a pequena bailarina num “vergonhoso, mamã” vigésimo nono lugar.
Pés perfeitos, costas direitas, mão em pose mas .. muito pequena e frágil para o que a espera, foi o veredicto. “Traga-a no próximo ano, por favor” exclama uma professora simpática, ao ver-me consultar a lista.
Nada está perdido evidentemente.
A pressão de duas horas e meia de audição reflectem-se no apetite devorador mal entra no carro.
Vinha contente, feliz, tinha corrido bem.
Alongamentos, medições, pernas ao alto, pescoço alinhado, peso e altura.

A desilusão nos olhos da minha filha leva-me a arrepender-me imediatamente de lhe ter feito a vontade.
A desejar ter respondido que não.
Que ainda era cedo para isto.
Que eventualmente não estaria preparada.
Poupá-la?
É .. sim .. poupá-la à sua primeira grande desilusão.
Protegê-la da competição latente, dos nervos à espera de uma resposta, da natural comparação entre as pares.
Mas .. nada está perdido.
Limpa as lágrimas como que envergonhada e calmamente pergunta-me:
“Posso tentar então de novo para o ano, mummy?”

Paixão? Tem-na. Força de Vontade? Imensa. E acaba por surpreender-me .. eu?
Com 9 anos de idade? Estou certa de que teria pura e simplesmente desistido de voltar sequer a calçar uma sapatilha ..

Tentaremos então, de novo, no próximo ano .. :)

quinta-feira, junho 21, 2007

Há!

Há bons professores.
Ou por outra, há quase sempre excelentes professores ao serviço das crianças, para as crianças, preocupados com as crianças.
Há professores que o são por não conseguirem a profissão que desejam e com dois anos de pedagógicas lá se encaixam numa vaga temporária perto ou longe de casa .. perto ou longe da família, na insegurança do que será o ano seguinte. Aprendem a gostar da profissão alternativa. Aprendem a dedicar-se, como é suposto que um professor se dedique.
Como as crianças merecem.
Há os outros.
Aqueles que vêem na via do ensino uma maneira de ganhar dinheiro (não é muito, eu sei) como quem atende a um balcão, como quem trabalha num escritório, como quem faz outra coisa qualquer que não seja lidar com seres humanos em formação.
Com crianças.
Estes passam normalmente pelo professorado sem deixar memória e daqui a cinco anos, no encontro de finalistas do liceu, ninguém se vai lembrar do nome deles.
Há ainda outros.
Aqueles que é uma sorte ter-se como professores.
Os que levam os problemas dos alunos a sério.
Que não minimizam. Que não dramatizam. Que ajudam a resolver.
Os que detectam, ao fim de dois dias, que o Manuel só tem como refeição segura aquela que comer na escola, a da escola, e se a escola não tem cozinha, vai ter de passar a ter.
Aqueles que, ao fim de uma semana, sabem que a Carolina tem de ajudar no trabalho do campo ao fim do dia, e é por isso que dificilmente consegue cumprir os trabalhos de casa.
Aqueles que diferenciam uma nódoa negra de uma pancada mais violenta da de uma “queda de trotineta” numa terra onde os meninos não têm trotineta.
Aqueles que dão "explicações" gratuitas porque os pais das crianças não podem pagar e ficam de olhos marejados de lágrimas quando descobrem que “alguém” colocou uma pequena cesta de ovos caseiros na sua secretária.
Aqueles que organizam, que gerem, que primam e aprimoram o recinto escolar como se de sua casa se tratasse.
Os que vivem para os seus alunos aplaudindo entusiasticamente as suas conquistas, oferecendo o ombro e o carinho necessários ao acalmar de uma alma e ao sarar de um corte feio no joelho.
E .. a par de tudo isto, (incrivel) ainda conseguem ensinar.
Como quem aprende também, nem sempre da mesma forma, apreendendo as diferenças das turmas, das mentalidades, das condicionantes de cada um. Adaptando .. e adaptando-se.

Há professores destes sim.
Não tenham dúvidas.
E Laura Freire foi sempre e em todo o seu percurso um destes professores.
Posso garanti-lo.
Muitas vezes o testemunhei. Muitas vezes me admirei pela disponibilidade, pela preocupação, pelo adivinhar como se um décimo sentido possuísse.
Muitas vezes me interroguei como consegue, de forma magistral, gerir a sua casa, a "sua" escola, os "seus" meninos, todos .. os filhos e os filhos dos outros.
Muitas vezes me comovi com as manifestações de carinho de que era alvo, numa ida ao café, numa compra na mercearia da aldeia, no passear pela avenida, no cumprimento carinhoso e no abraço fácil à saída da porta da Igreja.
Por isso.
Por tudo isso.
Por ser muito mais, imensamente mais que a "sua obrigação".. É de uma gritante e imensurável falta de justiça o que lhe está hoje a acontecer.

"Oh Giraça!" ;)

“És a nova de Inglês oh giraça!?” – isto assim atirado à queima roupa, ainda mal entrada no futuro liceu da princesa (há que precaver uma possível não admissão no Conservatório), palavra de honra que me fez equacionar a meia volta numa negação “não quero aqui a minha filha!” ;)

A frase proferida por um jovem, mais alto que eu, mas com cara de 15 anos acabados de fazer, acabou por me fazer sorrir intimamente, e calmamente dirigi-me ao autor. Apreciei-lhe as calças a arrastar pelo chão, o cabelo em desalinho propositado, aquele ar de “no care” perfeitamente estudado e trabalhado em horas que lhe adivinho ao espelho, os olhos trocistas, sorriso aberto que esmoreceu quando se apercebeu que a “giraça” poderia eventualmente ser mesmo a professora que o espera na cadeira de inglês do próximo ano.
Tirei os óculos, olhei-o nos olhos e perguntei: “desculpe? Era comigo aquilo?”.
Corou ligeiramente. Recuou dois passos e murmurou um pedido de desculpas encabulado perante a risota das colegas, só meninas, que o cercavam. Ri-me. Pisquei-lhe o olho e perguntei-lhe onde era a secretaria. Solícito, olhou de esguelha a assistência feminina e "inchado" acompanhou-me ao longo da escola que conheço bem (foi a minha!), até à porta principal onde me indicou que subindo ao 1º andar teria a secretaria à minha frente. Atirei-lhe um “juízo!” e ele insiste: “mas diga-me lá Prof. é ou não a nova Professora de Inglês?” .. a seu tempo descobrirás rapaz.

Quando saí era vê-lo a apontar o dedo à minha figura com alguma história sobre como a nova Professora de Inglês lhe havia pedido ajuda .. ;)

PS_ que é feito dos garotos de 15 anos do meu tempo hein?
“Oh giraça” ?!?!
(risos)

quarta-feira, junho 20, 2007

Crescendo (III)

As mochilas maiores que as personagens .. carregadíssimas para uma estadia de três dias com tudo o que eventualmente fará ou não falta .. “6 mudas de roupa” aconselhava a previdente professora, mais saco cama, mais bolsa de higiene pessoal, mais três pares de sapatos, o pijama e os chinelos, toalha de banho e de piscina e ainda os pacotes de bolachinhas para a noite que se adivinha longa e de risota pegada, no matter as luzes se apagarem e ser suposto remeterem-se ao profundo dos silêncios.

As mochilas maiores que os pequenos de 9 anos que orgulhosos do “fruto” conseguido, bonés bem enfiados nas cabeças e sorriso franco partem para a merecida viagem de Finalistas da 4ª classe .. ops, nada disso, 4º ano do 1º ciclo, assim sim .. ;)
O quadro dos Pais daria uma reportagem.
Mais ansiosos que os pequenos que se arrumam nos três grandes autocarros que os levarão em busca de aventura, saltitando de um lugar para o outro, depois de bem empurradas as mochilas para o porão do transporte, não tão sorridentes quantas as 70 caras luminosas que nos espreitam entre vidros e acenam freneticamente num adeus, adeus, portem-se bem .. Alguns de óculos escuros não pela manhã de sol que deixa antever um dia esplêndido mas para esconder, imperceptivelmente, a pequena lágrima que insiste em assomar ao canto do olho e teimosa e ousada, rola cara abaixo.
Três dias e duas noites, alguns pela primeira vez, outros nem por isso mas .. sabem que mais? Não há vezes suficientes que nos habituem à ausência .. independentemente de corajosa e sorridente ter acenado, também freneticamente, um “have fun my sweet .. have fun”

Eu .. não tão corajosa como deixei transparecer .. a desejar que ela se divirta ao máximo mas .. ansiosa por 6ª feira ;)

terça-feira, junho 19, 2007

Miscellaneous roots .. ;)

Os que me conhecem adivinham-me as "incompatibilidades" .. a divisão de sentires, a rapidez de mudança, o gosto pelas “alterações” .. ;) costelas britânicas (muitas) misturadas com raízes beirãs, prezadas e estudadas .. pesquisadas e enfeitadas, tornam-me um género (plagiando um grande amigo que só por o ser lhe permito que assim me apelide .. risos).












Mas .. atentem aqui nas imagens e digam-me .. quem não balança perante isto? ;)




Aldeia mais portuguesa de Portugal :)





Brighton by night ;)


















segunda-feira, junho 18, 2007

How would you call it?

Não tenho qualquer presunção em ser a melhor mãe, a mais completa, a mais presente, a mais atenta, a mais condescendente ou a mais penalizadora, a mais disciplinadora .. and so on ..
Não tenho!
A sério que não.
Sou tão incompleta como qualquer outro ser humano, condescendo se calhar onde deveria penalizar, penalizo muito poucas vezes .. porque condescendo demais? Talvez .. pratico diariamente o “children need examples more than critics” .. A minha vida e o meu brio profissionais também não me “deixam” ser tão presente quanto gostaria .. ou deveria?
Tão atenta quanto .. tão .. !
Mas .. tenho tido sorte. Acho que na educação de um filho, por mais manuais escritos e falados, estudados e esmiuçados, a experiência, o dia a dia, as situações que vão ou não acontecendo by the book dão-nos o traquejo e o feed-back necessários para irmos acompanhando os nossos filhos, por vezes a correr, outras a coxear.
Portanto .. e por mais que lhes transmitamos, por mais que os ensinemos, por mais que lhes demos exemplos de “how to be and what to respect” a sorte é um factor a ter em conta.
E eu .. tenho tido essa sorte. Ou saberei aproveitá-la? também.
Há uma única noção que tenho em mente, a qual não esqueço nunca, que prezo e pratico:
a minha filha tem de ser uma criança – pessoa feliz. No matter as minhas frustrações (poucas) os meus desejos (imensos) os meus objectivos (rápidos na mudança), as minhas tristezas e alegrias enquanto ser humano, mulher que não se limita a ser mãe, a minha princesa .. “tem de ser” feliz, no que de mim depender.
E esta felicidade de que vos “falo” não passa pelo pc no quarto acompanhado pela televisão da moda, nem pela aparelhagem estridente que só ela ouve, nem pela aquisição de todas as recentes e não tão recentes novidades no mercado infanto-juvenil. Não passa pelas calças último modelo, a mini-saia dos pins ou os ténis que custam mais que uma toilette completa e de cerimónia. A felicidade a que me refiro passa essencialmente pelos momentos .. momentos que partilhamos e aos quais nos entregamos totalmente .. momentos que compensam ausências passadas ou futuras, gostos partilhados, um teatro, um passeio, uma refeição calma e conversada, um enroscar de conversa tardia no sofá .. é esta felicidade, feita de pequenas peças de puzzle que encaixamos diariamente, o objectivo da minha existência enquanto mãe .. passando pela minha existência enquanto mulher, profissional, dona de casa .. (que canseira ;)

Por tudo isto (grande introdução eu sei ..) é sempre com um misto de surpresa versus conhecimento de prioridades que não são as minhas e aquelas pelas quais regulo a nossa existência, que tomo conhecimento de outras performances, de outras vivências.

Na escola da princesa vive-se actualmente intensamente a preparação para a Viagem de Finalistas. Meninos do 4º ano em perfeita assumpção do seu crescimento, da independência conseguida, programaram em conjunto com os professores uma saída de três dias - duas noites para uma quinta simpática, preparada para os receber, cheia de actividades engraçadas que, acredito, alguns farão pela primeira vez na vida.
Andam entusiasmados, orgulhosos de tal prémio, fruto de 4 anos de trabalho intenso.
Contentes. Felizes.
Professores, pais e alunos colaboraram em conjunto durante todo o ano lectivo para a angariação do dinheiro necessário a tal evento. Vendas, quermesses, rifas e bolos à fatia, salgados da avó, t-shirts que se pintaram para vender, cd’s de música gravados com as suas vozes cristalinas, doações aqui e ali e um mealheiro onde, quem tal pôde, se depositaram determinadas quantias para que todos, mesmo todos, pudessem usufruir daquilo a que todos, mesmo todos, têm direito.
No dia dedicado às contas finais, à entrega das autorizações, à indicação de que medicamento toma o Tomás e a que horas, e de como a Carolina necessita de dormir na parte baixa do beliche, ouve-se um choro na sala de aula. Choro intenso, soluçante, uma menina de cabeça entre as mãos chora convulsivamente. A criança é daquelas que nunca participa em nada. Nem nas festas de final de período, nem nas de final de ano, nem nas marchas de Carnaval, nem na troca de presentes de Natal, a única que não tem bolo de aniversário na escola .. nada!
Incrédula a Professora pergunta-lhe:
“Sofia, tu não me vais dizer.. ?” interrompendo a frase a meio.
A pequena Sofia levanta a cabeça, olhos vermelhos, caracóis em desalinho e murmura: “não posso ir professora .. vocês sabem, a religião da mãe .. “

A religião que a mãe da Sofia pratica não lhe permite autorizar a filha a ser .. criança.
Ficaria eu, em primeiro lugar, muito grata se alguém me pudesse explicar quem foi o “deus” que tal desígnio lançou sobre as suas (parcas, espero) ovelhas.
Estranho? Intrigante? Coerente?
Chamem-lhe o que quiserem.
Para mim um acto de extremo egoísmo.
Daquele egoísmo que raramente vejo ao meu redor.
E gostava .. a sério que gostava que aquela mãe me ouvisse.
Ou pelo menos que não tivesse calado em si a voz que lembra, certamente lhe lembra, os seus tempos de .. criança.

sexta-feira, junho 15, 2007

Sometimes ..

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se envolam tantos anos."
David Mourão-Ferreira (1927 - 1996)

E por vezes .. esquecemo-nos de sentir demasiado ocupados que estamos em fazer sentir ..

Tenham um "sensitivo" ;) fim de semana *

quinta-feira, junho 14, 2007

Proud ? (II)

“A princesa vai dançar ao Tivoli.“
Hein? Perguntei, distraída, à directora da academia de ballet.
Sorriso de orelha a orelha a simpática e elegante Dª Helena, ex bailarina, repete: A nossa princesa foi uma das escolhidas. Vai dançar com o corpo de bailado ao Tivoli.

Murro no estômago? Nada disso meus caros .. Um verdadeiro camião com direito a grua de dez metros em jeito de atrelado por cima da minha triste figura ali parada no hall do bar, casaco na mão e mochila no chão.
Sorri, agradeci, acho até que corei um pouco, coisa que vos asseguro só acontece quando sou completamente apanhada de surpresa. Não me lembro qual foi a última vez que havia corado.
Sentada nos degraus do pátio, espero por ela. Aparece-me em correria (para quem ainda não sabe há determinadas crianças que pura e simplesmente .. não sabem andar), faces coradas das duas horas de exercícios, cabelo ainda em carrapito bem apanhado, mais ou menos (mesmo!) vestida.
Vamos mummy? Vamos princess.
Já no carro atiro-lhe á queima-roupa: “Quando é que a Exa. me ia contar? “
Ri-se .. com gosto. “Já sabes” - afirma. “Ficaste proud mummy”? “Too much” .. respondi.
Sorri .. “é .. Consegui mummy. Mas o trabalho agora é a dobrar. Can we go for a burger?”

Rio-me agora eu com gosto. Que nada nem notícia alguma tenha a ousadia de lhe alterar os “bons hábitos”! Sábado, a seguir às complicadas aulas de ballet .. é dia de prémio: um hambúrguer .. e hoje a necessidade de se assegurar que a mãe ficaria “proud” o que pronuncia numa verdadeira vertente britânica do termo!

PS_ alguém que me venha retirar a “baba” do teclado, por favor. ;)

terça-feira, junho 12, 2007

Enjoy *

Sentadas na esplanada mãe e filha entretidas a ler.
A princesa, os “descobrimentos portugueses” (anda encantada com as estórias da nossa história) eu mergulho na Pintora de Plantas, um dos vários livros que me encontro a ler de momento .. numa delícia de aventura em busca da ave de Ulitea versus conhecimento botânico, um tema que até agora me era desconhecido mas que me cativa à medida da mudança de página..
A esplanada fica directamente sobre o mar .. não se vê areia .. só muro e mar.
O dia está claro, não demasiado quente, um Verão tímido que tarda a instalar-se, um ar morno, ice teas em cima da mesa, ela de boné, eu de óculos escuros. Pernas estendidas, duas cadeiras para cada uma ..
Paro de ler e olho-a.
Absorta, olhos negros a percorrer as linhas, de vez em quando um sobrolho que se ergue, outras um sorriso nos lábios. Lê a vida de D. Fernando (o complicador como o apelidou em perfeito desrespeito pelo verdadeiro cognome ;). Entretenho-me a imaginar-lhe os pensamentos à medida da narrativa leve de um livro que independentemente de abordar temas complexos está escrito de uma forma apelativa, engraçada..
Olho o mar cujo reflexo não me permite tirar os óculos. Alguns barcos de madeira, ninguém na água .. ainda. A própria esplanada se por escondida ou desconhecida, pouco frequentada. A música baixa em tudo diferente das musicas que pautam as nossas esplanadas de Verão .. Gotan Project no seu melhor, talvez pela aproximação do concerto, não tarda ..
Fecho o livro e fecho os olhos.
Vida?
É .. sem dúvida .. cada vez mais .. o que dela fazemos. E os momentos? estes momentos? Verdadeiras câmaras de ar que nos permitem suster a respiração nos outros dias .. naqueles .. sem sol .. sem mar .. sem esplanadas .. e sem companheiras de leitura ;)

Enjoy*

segunda-feira, junho 11, 2007

Sonhos (V)

Reencontraram-se tempos depois. Bastantes.
Na adversidade da situação que vivia, foi curiosa a forma como preteriu os amigos mais íntimos ..
A decisão estava tomada. Ninguém consultou antes. Poucos foram os que informou depois.
Viver com o “melhor amigo” vivia-se em repúblicas de estudantes. Em casas partilhadas por vozes e quereres diferentes. Mantas de retalhos de percursos diversos, comuns nos serões passados a estudar .. e nos outros.
Fazer de conta deixou também, entretanto, de fazer qualquer sentido.
Os desejos eram superiores. A concretização de planos não passava pela metade da laranja que tinha ao seu lado .. sentia-se gomo alheio .. incompleto.
A decisão estava tomada.
Desabafar? Talvez .. não no procurar de aprovação para o acto de “loucura” cometido. Não no procurar consolo para a vivência que se adivinhava mais solitária ainda a partir de agora .. sê-lo-ia?
Desabafar simplesmente, poder falar sem que fosse a sombra a única coisa viva a ouvi-la.
Procurou-a.

Tinha-se coibido ao longo do último ano de voltar a pegar na caneta de escrita fina para escrever sobre aquele casal. Sobre o que chamara a “sua estória” até se aperceber que não o era.
Era sim a história de outro alguém.
Assustara-a a revelação daquela noite. Sentia-se como que a brincar “aos deuses” sem capacidade para .. sem direito a .. Ainda se atreveu a delinear uma história só feliz, só carregada de “coisas boas”, uma história optimista, fantástica .. como se pelas suas palavras no papel branco, imaculado, pudesse interferir em destinos alheios. Desistiu.
A responsabilidade era demasiada e a sua mente, o seu querer, não estavam no momento hábeis no pensamento de coisas boas .. SÓ coisas boas.
Quando lhe ligou, naquela manhã radiosa de fim de semana, acolheu-a uma voz simpática, um reconhecimento fácil, rápido convite “é desta que bebemos um café?” Combinada a esplanada onde se encontrariam, reconheceu facilmente esta sua amiga recente e distante.
À pergunta: “como estás?” .. recebeu todas as novidades dos últimos meses. Estavam bem .. muito bem .. Uma segunda gravidez a caminho “tentamos o rapaz agora ..” inerente mudança de apartamento para usufruir de mais espaço. A pequenita dos caracóis negros na infantil de um colégio na zona. O Miguel convidado para sócio de um outro bar em Lisboa, ela mantendo-se no escritório onde trabalhava mas com outras responsabilidades. Os Pais finalmente e ao fim deste tempo todo a acreditarem que ela tinha tomado .. uma decisão para a vida. Entre as piadas da pequerrucha que todas as mães gostam de relatar pormenorizadamente e um telefonema tardio à sua procura, passou-se a tarde .. “nem te perguntei se estás bem ? noto-te ainda mais magra do que quando nos encontrámos pela última vez” comentou já a vestir o casaco. “Eu? Que ideia! Muito trabalho só isso! De resto .. tudo a rolar
Sortuda! o Miguel contou-me. Vieste agora de Nova Iorque, não foi? Eu gostava de ter assim um trabalho como o teu. Ou por outra .. riu-se .. a tua vida mesmo! “ Não acredito que gostasses, absteve-se de responder.
No abraço de despedida continuou a senti-la feliz.
E deu graças por não ter afinal desabafado rigorosamente nada.
A sua sombra continuaria viva e perfeitamente apta para o efeito .. e a vida ?
Não é ela o que dela fazemos?
Olhou distraidamente o relógio e apressou o passo.
Singapura era o novo destino .. um longo mês de ausência que lhe saberia .. a pouco.

Mille Collines

Vi-o ontem ..
Pela primeira vez e em casa .. Hotel Rwanda
E hoje só me apetece que alguém aqui na pequena caixa de comentários ao serviço deste meu diário me escreva que não, não foi a humanidade à qual me orgulho de pertencer capaz de perpetuar tal crueldade .. e que aquilo que vi, chorei e senti .. não passa de uma bem conseguida ficção.
"Why are people so cruel?" .. dube asked ..
Why?

sexta-feira, junho 08, 2007

Dickens' wise words..

"To conceal anything from those to whom I am attached, is not in my nature.
I can never close my lips where I have opened my heart."
Charles Dickens (1812 – 1870)

Não consta que o senhor bebesse café mas .. aposto que ainda assim, me compreenderia também ;)

Bom fim de semana *

quarta-feira, junho 06, 2007

Feliz Acaso .. :)

"Marcelino Mesquita
Escritor português, natural do Cartaxo.
Fez os seus estudos liceais em Santarém e Lisboa. Depois de uma breve passagem pela Escola Politécnica, acabou por se formar em Medicina pela Universidade de Lisboa. Estreou-se nas letras com as peças O Senhor Barão (1887), que não obteve grande acolhimento, e com o drama histórico Leonor Teles (1889), peça escrita em versos alexandrinos e com a qual alcançou o seu primeiro êxito. Mais tarde, transformou a peça num romance histórico de três volumes, também intitulado Leonor Teles (1904-1905), onde romanceou a vida da célebre figura histórica. Durante a frequência do último ano do curso publicou o livro de poemas Meridionais (1882).
Três anos mais tarde, provocou um escândalo, com repercussões na imprensa, ao dar a conhecer a sua comédia em cinco actos A Pérola (1885). Considerada imoral, esta peça abordava o tema da prostituição e os ambientes boémios frequentados pelos estudantes, ambientes que o autor conhecia muito bem. Apesar do escândalo, o seu nome já estava definitivamente lançado no meio teatral. A partir de então e até à data da sua morte obteve inúmeros êxitos de crítica e de público, não só em Portugal, mas também no Brasil."

Chegou-me agora às mãos (que ainda tremem .. a sério!) um exemplar original do primeiro volume da história escrita sobre Leonor Teles .. todo ele uma verdadeira obra de arte, um humor fino e por vezes "imperceptível", uma visão detalhada, uma narrativa que nos transporta para a época, para a cor do cortinado e a quantidade de folhos do vestido .. uma crítica velada, sub-reptícia .. um português antigo .. cheio de outros significados, de outros termos, de outra mente, numa palavra .. estou encantada com a descoberta e dou graças pelo feliz acaso que fez com que este livro .. me encontrasse ..

terça-feira, junho 05, 2007

Days .. happy ones ..

Comemora-se o dia do ambiente e eu, arredia que sou de dias e comemorações propositadas que passem por algo mais que o dito do aniversário, dou por mim a pensar que o ambiente é de facto algo a preservar e a comemorar não hoje especificamente com cerimónias “empalestradas” a pedido mas todos os dias e a toda a hora.

Contudo, logo de seguida, a minha rádio favorita “música para respirar” ;) fiel ao programa das pequenas notícias das 09 a.m. traça um cenário negro para as famílias devedoras de crédito à habitação com o aumento do preço do dinheiro e qualquer coisa como mais € 25 por mês para um empréstimo de nãoseiquantos mil euros ..

Ambiente? de que se fala? do familiar? Da estabilidade das famílias? Do esforço cada vez mais inglório de tentar com que não “sobre mês” ao fim de alguns dias sobre o recebimento do ordenado? Da publicidade “enganosa” sobre a concessão de crédito .. o difícil e o fácil? Balões de oxigénio através dos quais alguns respiram, tapando um “buraco” aqui com a abertura de um outro lá mais à frente .. comece a pagar em 2008?

Desculpem .. mas não há “ambiente” que resista a isto!

segunda-feira, junho 04, 2007

Sobre os Sonhos ..

Independentemente de achar pessoalmente que não está assim tão bem escrito, tão bem delineado, tão claro e pouco freudiano (risos) .. não posso deixar de vos agradecer os comentários deixados aqui e pelas Notas de LB sobre a tentativa de conto que ando a “tentar” compor .. tantos “tentos”? ;) de facto ..

Contudo, questões houveram que por pertinentemente colocadas não me passaram “ao lado” .. logo eu, que dou importâncias às vírgulas ;)
São só sonhos? Pergunta-me uma prezada leitora .. noto algo de realidade ali ..
Acho que na vida de quem escreve, e não na vida de quem vive da escrita, o que quer que isto queira dizer, há sempre um pouco de realidade nas letras e nos significados que se utilizam.
Há obrigatoriamente algo de nós que se deixa transparecer numa pequena opinião sobre algo, num retrato que se detalha, numa paisagem que se descreve. Poucas vezes da nossa vivência, mas muitas vezes de como queríamos que ela fosse. Pinturas optimistas ou pessimistas, de acordo com o feeling de momento, de situações vividas ou não, experimentadas desta ou daquela forma.
Nem um tradutor, digo eu, consegue, mesmo fiel ao texto a traduzir, evitar colocar algo de seu na forma como reproduz a língua estrangeira – a escolha de uma determinada palavra para colocar naquele significado específico .. a noção mais lata ou redutora de um determinado termo.
Há algo de mim nos sonhos? Há definitivamente sempre algo de mim neste canto .. ou não fosse ele o “meu diário” .. mesmo sem idade para .. :)

Aos que leram e gostaram e aos que leram e não gostaram .. Obrigada ;)

Aos que me pedem para continuar, prática que sou na escrita do momento e sobre o momento, confesso alguma dificuldade no exercício da sequência “lógica” mas .. vou tentar.

sexta-feira, junho 01, 2007

A ler .. (II)

A fabulosa novela da qual já tinha falado aqui, terminou aqui pela mão mestre de Luís Naves.
Tendo acompanhado episódio a episódio e comentando na qualidade de aprendiz de letras que me considero, imprimi todos os vinte e cinco episódios e reli de uma só vez.
A opinião mantém-se.
Fantástico articular de episódios, tema difícil, atraente a forma como tudo se interliga, a interrogação que se forma no espírito do leitor, a quase necessidade de se continuar a ler para confirmar ou não as suspeitas ..

Gostei.
Muito mesmo.
E como tal .. recomendo :)
E aproveito (poupada eu ;) para vos desejar além de uma leitura "inquietante" um excelente fim de semana *