segunda-feira, abril 30, 2007

Emoção ..

Grandes árvores ladeavam a casa pequena, fazendo-a parecer ainda mais pequena.
Uma casa simples, de telhado vermelho, chaminé fumegante.
Duas janelas viradas à estrada, com imaculadas cortinas brancas que cheiravam a sabão azul e branco.
As grandes árvores pendiam para o chão.
Ramos grossos que na Primavera se carregavam de pequenas, minúsculas, folhas verdes e brancas, varriam o chão em dias de vento.
Chorões, dissera-lhe a avó ensinando-lhe os nomes das coisas. Chorões? de chorar? de chorar .. e porque choram as árvores avó? Choram de emoção. Avó ? o que é a emoção?
E a avó apontava, o seu braço fino, a mão de dedos compridos, dedos de pianista, apontava o céu em noites escuras estreladas e desenhava histórias a negro e prateado.
Ali um cisne em voo .. aqui um guerreiro de arco e flecha .. mais além a Lua brilhante, vaidosa do seu Luar.
A avó tinha um nome para todas as coisas .. ensinava-as como quem aprende pela primeira vez. Cheia de pormenores, histórias e estórias que hoje não sei se reais ou inventadas.
Emoção? Avó o que é a emoção?
E a avó mergulhava as mãos na água cálida do mar em dias quentes de praia, deixava os salpicos soltarem-se dos dedos e molhava-lhe os olhos.
E procurava ninhos de andorinhas para que ela escutasse o piar fino das crias em busca de atenção. Ou pegava num bicho de conta para que observasse como se enrolava tentando passar despercebido.
Avó .. ?
E ajoelhadas no pequeno jardim que circundava a casa tratavam dos bolbos “bobos avó?” não querida .. bolbos.
Plantavam, cuidavam, viam crescer. Colhiam.
Joelhos no chão e unhas sujas de terra. “banho menina .. já para o banho!”
A emoção? .. e esperavam .. todo o Verão esperavam que a ginja se diluísse na garrafa de açúcar amarelo, colocada ao sol.
E no Inverno, antes do jantar, bebia um cálice à senhora crescida, um cálice da bebida mágica que aprendera a fazer. Ou a colher de xarope de cenoura quando a garganta arranhava. Uma colher de sopa bem medida do remédio dos Deuses. Tão doce.
E naqueles dias em que as grossas gotas de chuva faziam desenhos nas janelas e nada se podia fazer lá fora, cozinhavam os doces em grandes panelas, cheirosas, dedos mergulhados, peganhentos, caras enjoadas.
Avó ? mas .. e tricotavam.
Conjuntos para bonecas, verdadeiras peças de arte com as quais mimava a sua Nancy .. e via as mãos rápidas da avó num ponto mais complicado do bordado.
Esta é para ti.
A tua primeira toalha de mesa.

De que choram as árvores avó?
De emoção, querida
A emoção. Aprendia-a sentindo.

Speechless!

That's how i'm standing today .. ;)
Depois de ter tido a sorte de presenciar a nossa Companhia Nacional de Bailado na sua IV Grande Gala ontem à noite, no Teatro Camões, estou .. sem palavras.
A princesa, no seu mundo, enuncia-me em voz sussurrante os passos utilizados .. oiço-a debitar em francês, língua da qual não percebe uma palavra .. repara mãe, repara .. é a Ana Lacerda .. uma das primeiras bailarinas da Companhia .. repara nos braços .. perfeitos!
E a bailarina, magra de mais para o meu gosto ;) abana vertiginosamente os seus braços finos numa tentativa de voo interpretando, brilhantemente, um excerto do Lago dos Cisnes ..
Passos e rodopios, grandes saltos e coreografias complicadas, e a minha filha a abanar a cabeça e a levar as mãos à boca num assombro de quem vê algo que raramente vê .. Emocionada. Emocionando-me.
Bailarinos e Bailarinas inundaram o palco em poses de dança clássica, contemporânea, moderna .. palmas e bravos arrancados a uma assistência que no matter o grande derby que se decidia ontem (ainda não percebi em que é que ficámos .. !) encheu o Teatro Camões para aplaudir, ver, sentir .. ouvir.
Que bem se dança em Portugal!
Parabéns CNB!

sexta-feira, abril 27, 2007

Is it? ;)

"A inveja é o mais dissimulado dos sentimentos humanos, não só por ser o mais desprezível, mas porque se compõe, em essência, de um conflito insolúvel entre a aversão a si mesmo e o anseio de auto valorização, de tal modo que a alma, dividida, fala para fora com a voz do orgulho e para dentro com a do desprezo, não logrando jamais aquela unidade de intenção e de tom que evidencia a sinceridade."

Olavo de Carvalho, 29 de Abril de 1947, filósofo brasileiro


Be sensitive, sensible, and sincere .. and have a wonderful week end! ;)

No one said it would be easy ..

“Diz-me uma coisa feliz mãe ..” :) .. e eu puxo pela cabeça e descrevo-lhe anjos papudos a voar pelo céu (coisa idiota) ;) .. ela dá uma gargalhada, enche as bochechas de ar (qual anjo papudo) e sai do carro aos saltos e a abanar os braços num grande adeus .. “love you mummy” .. “love you sweetie” ..

A conversa desde casa era a marcação de dentista hoje.
Gosta do médico.
Da magia que se estabeleceu entre os dois na primeira consulta em que ele nada fez mas ela achou que tinha tratado os dentes todos. Da minúcia com que descreve os utensílios que utiliza e para o que servem. Do tratamento ”à senhora crescida” e dos parabéns no final de cada consulta (tendo ou não sido uma paciente quieta e sossegada) ;)
Mas .. o facto é que o dia da consulta de dentista reveste-se de algum nervosismo e quase sempre de um pedido de adiamento.
Hoje não vai ser fácil.
E por isso mesmo a conversa era no sentido de a convencer que aquilo que temos de fazer, sendo difícil, deve ser feito o mais depressa possível.
Para que termine. E continuo: “amanhã a esta hora estás a rir-te destes nervos e a dizer ainda bem que já acabou” .. “ se adiares a consulta, daqui a duas semanas passas por tudo outra vez!”.

Vencida pelo argumento mas, desconfio, não convencida, lá segue para o portão da escola em correria própria de quem quer brincar antes do toque para a entrada.
Eu venho a pensar no difícil das coisas, na antecipação de um sentimento pior em relação ao seu desenrolar, na necessidade que tenho de sempre terminar tudo o que é penoso, rapidamente e sem adiamentos.
De encarar a vida e as dificuldades que este percurso por vezes me coloca no caminho, de peito aberto, de raramente me ter escondido do que quer que fosse, procurando muitas vezes a razão do conflito falando dele e esmiuçando-o, quando normalmente a postura confortável seria a do “faz de conta”.

Mas essa, deixo-a para os contos que invento e para as estórias que conto com finais “e foram felizes para sempre” ;)

quinta-feira, abril 26, 2007

Be free (the last ..)

Em filosofia, há várias concepções de liberdade, umas bastante distintas das outras.
As teorias da liberdade dizem respeito à metafísica e à ética, à filosofia política.

A liberdade é uma noção que designa, de uma maneira negativa, a ausência de submissão, de servidão e de determinação, isto é, qualifica a independência do ser humano.
De maneira positiva, a liberdade designa a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional.
Para Kant, ser livre é ser autónomo, dar a si mesmo as regras a serem seguidas racionalmente. Todos entendem, mas nenhum homem sabe explicar.
Para Spinoza, ser livre é fazer o que segue necessariamente da natureza do agente.
A liberdade suscita ao homem o poder de se exprimir como tal, e obviamente na sua totalidade. Esta é também, a meta dos seus esforços, a sua própria realização.
Para Leibniz, o agir humano é livre a despeito do princípio de causalidade que rege os objectos do mundo material.
A acção humana é contingente, espontânea e reflectida
Para Schopenhauer, a acção humana não é, absolutamente, livre.
Todo o agir humano, bem como todos os fenómenos da natureza, até mesmo as suas leis, são níveis de objectivação da “coisa-em-si” kantiana que o filósofo identifica como sendo puramente Vontade.
O homem é capaz de viver a sua realidade num duplo registo: primeiro, o do fenómeno, onde todo o existente reduz-se, nesse nível, a mera representação. No nível essencial, que não se deixa apreender pela intuição intelectual, pela experiência dos sentidos, o mundo é apreendido imediatamente como vontade, Vontade de Vida. Neste caso, a noção de vontade assume um aspecto amplo e aberto, transformando-se no princípio motor dos eventos que se sucedem na dimensão fenoménica, segundo a lei da causalidade.
Em ética a liberdade costuma ser considerada um pressuposto para a responsabilidade do agente.
Desconhecendo quem seja ética ;) .. acabo por simplesmente concordar na íntegra com esta pequena frase de sua "autoria" .. e completá-la .. “ (...) para a responsabilidade (…)" e para a responsabilização do agente .. conhecendo os limites da sua própria liberdade .. não atropelando, ultrapassando, passando por cima dos limites alheios.
Velho e estafado princípio mas, ainda assim, válido para mim .. :)

Be free (II)

Escrever por encomenda como me referia há uns tempos um conceituado “parodiante” da nossa praça, é complicado.
Não deixar solta a veia e a via, subordinar letras a temas e a interesses, na maioria das vezes sem interesse algum, .. é duplamente complicado.
Escrever porque alguém pede, alguém quer ler algo sobre, alguém com menos habilidade talvez, .. é difícil.

Quando aqui há uns tempos me “sugeriram” que subordinasse o meu “humor” a umas linhas sobre determinados temas que me seriam fornecidos, ri-me.
A sério.
Aquilo em vez de me envaidecer por acharem que tenho algo a dizer, algo a escrever sobre, ou mesmo que alguém me queira ler (é sempre esta a questão de quem escreve, comercialmente falando, não é? .. felizmente não é o meu caso), fez-me rir a bom rir.
Eu .. que tenho a mania que sou independente, que tenho a mania que sei o que quero, que não só escrevo como pauto a minha vida por alguns princípios e valores, legado de uma família que de certa maneira mos soube transmitir, experiência vivida, que acho que este percurso a que chamamos vida acaba sempre cedo demais, quase sempre com tanto ainda por fazer, e que prezo a minha liberdade e a minha vontade como se vontade própria tivessem, subjugar as minhas pequenas, disparatadas, profundas, lamechas, jocosas, importantes e insignificantes letras a um qualquer propósito de alguém que nem da minha família é?

Podem esperar .. sentados .. e à sombra. ;)

terça-feira, abril 24, 2007

Be free (I)

- Mãe, o que é a liberdade, afinal?
Oh céus .. penso por um instante.
Todos sabem o que é mas como descrever o conceito a uma cabeça de nove anos de idade.
Ao longo de toda a primária foram férteis os trabalhos feitos pela turma no aproximar deste feriado. E de outros. Pesquisas, imagens, explicações. A revolução dos cravos, os militares ao lado do povo (sim mãe mas não é aí que devem estar sempre?) pois .. a queda do antigo Regime (se era antigo .. quer dizer velho ?) pois .. (II) .. enfim .. pequenos textos, power point de um lado para o outro, bandeiras e cravos desenhados nas folhas de papel.
Este ano (está a crescer não é?) faz-me a pergunta elaborada do que é afinal a Liberdade .. e porque se diz que é o dia da Liberdade .. quer dizer que as pessoas antes não eram livres mãe ? e porquê ? quem as impedia mãe ? e essa pessoa ou pessoas que as impediam de ser livres mãe, elas eram livres e queriam a liberdade só para elas era ? Mãe ?! Já sei, mãe !
(isto tudo de um só folego que é para perceberem bem a minha "angustia" crescente) .. Já sei!
A pessoa ou pessoas que não deixavam as outras serem livres eram como o Pipas de Massa, mãe. (O Pipas de Massa ? aquela personagem do livro lido já há uns tempos? ) Sim mãe, repara .. Ele queria ser feliz sem saber como e tornava infelizes todos os que vivam ao seu redor. É isso mãe. Essas pessoas também não eram livres e portanto não deixavam que as outras soubessem o que era a Liberdade.
Mãe ?
yes princess .. (eu calada .. ouvindo-a .. deliciando-me com as explicações arranjadas perante o meu silêncio .. deixando-a terminar ..)
Mãe .. não preciso de levar nada para a escola este ano. Vou simplesmente dizer, quando chegar a minha vez, que ainda bem que nasci em 1997.
Eu .. (lágrima no olho, sim .. podem sorrir) .. a dar graças por ela ter nascido em 1997.
Have a nice holiday* and .. do not forget to let the others be "free" ;)

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia do Livro


“Nunca deixo de ler o Suplemento Literário do Times. É uma disciplina salutar ver o grande número de livros que é escrito, as esperanças com que seus autores os vêem publicados e o destino que os espera.
Qual é a possibilidade que existe de um livro se destacar entre tantos? E os livros de sucesso são apenas sucessos de uma temporada? Sabe Deus o que o autor sofreu, por que experiências desagradáveis passou e que dores de cabeça teve, para dar a um leitor qualquer algumas horas de descanso, ou para aliviar o tédio de uma viagem. E pelo que posso julgar das críticas, muitos desses livros são bem escritos; exigiram muita reflexão na sua composição; muitos são mesmo o resultado de um trabalho angustioso de uma existência. A moral que deduzo daí é a de que o autor deve procurar a sua recompensa no prazer de executar a sua obra e na libertação do fardo dos seus pensamento; e, indiferente a tudo o mais, não se importar com os elogios ou críticas, fracasso ou sucesso.” - William Somerset Maugham (1874/1965)
leiam .. muito e tudo .. :)

Ficcionando .. ;)

(continuem a mimar-me assim e rapidamente me transformarei em algo insuportável ..) ;)

Cresceu com a estória que a história da família, lado paterno, se prendia com a chegada de um bravo cavaleiro em cavalo branco montado, vestes cerimoniosas, medalhas brilhantes.
Ou se assim não foi, foi tal e qual assim que pintou com cores e gestos de imaginação feitos, a raiz daquela parte da família.
Um cavaleiro valoroso, temerário, que teria vindo em auxílio do Rei .. ou era um muçulmano insistente em ficar mesmo após a reconquista ? Ai confusão .. Não interessa.
As raízes são abrilhantadas com pedaços de estória, e portanto: era um cavaleiro.

E como todos os cavaleiros almejava o amor e o conforto de uma dama.
Ela contudo arredia. E fracamente impressionada com os dotes do senhor. Não lhe apreciava a tez escura, nem a mania que tinha de largar a galope depois de atirada, com alguma pontaria, a rosa vermelha com que a brindava todas as manhãs. Irritava-a o facto de toda a gente naquela aldeia que era sua, lhe granjear as simpatias e lhe louvar os feitos equestres. Da leve subida de chapéus altos à saída da missa de Domingo num cumprimento solene, o rubor nas faces das damas que lhe captavam o olhar. Que coisa. Presunção e água benta .. que tal se trabalhasse? Ofendiam-se as outras damas perante a sua indiferença. Trabalhar? Não carece, minha senhora. É dono de uma imensurável fortuna feita além-mar. Ninguém sabia muito bem onde nem como e isso imprimia à personagem uma aura de mistério e desejo. Desejo de franquear as portas da mansão, que entretanto tinha mandado construir, no papel de primeira-dama. Só a ela não a impressionavam, por aí além, os dotes fabulosos que todos viam. Como podia?
Mas ela podia. E não só podia como fazia questão de ostentar um ar vagamente interrogativo perante a rosa recebida, como se não soubesse, não lhe conhecesse os cascos da montada na pedra da rua, o gesto displicente. De se obrigar a arvorar um ar de quem sempre se admira por o encontrar várias vezes no seu caminho ao longo do dia. Á porta da pequena escola onde leccionava, na esquina da íngreme rua que subia direita ao hospital onde voluntariamente ajudava.
Escondido por detrás das laranjeiras que franqueavam o portão da sua própria morada.
Que faz aqui senhor? atirava-lhe austera. Espero-a senhora, respondia-lhe de olhos no chão.
Conta a estória que anos mais tarde (alguns ainda assim..) comoveu-se de tanta insistência e fidelidade e acabou por sucumbir aos encantos que assegurava não lhe dizerem respeito, nem lhe fazer bater forte o coração.
Pais de uma prole considerável, passaram a história de raízes feita, alguma fibra .. e muita persistência.

Os longínquos descendentes abrilhantando-a como se pode ler .. ;)

sexta-feira, abril 20, 2007

:)

"In Roman mythology, Pales was a deity of shepherds, flocks and livestock.
Regarded as a male by some sources and a female by others, and even possibly as a pair of deities (as Pales could be either singular or plural in Latin), Pales was an obscure deity about which little information remains.
Pales' festival, called the Parilia, was celebrated on April, 21st.
Cattle were driven through bonfires on this day and favours were asked for."
Do not burn up anything, please ;) and have a very nice week end!

Back to the roots ..

A afilhada celebra a primeira comunhão.
Vestida de branco, cabelo arranjado, ar de anjo (tem mesmo!) a pequena afilhada celebra a primeira comunhão.
Que melhor motivo para uma ida às raízes? Nenhum.
A madrinha, orgulhosa do crescimento do rebento, lá estará na primeira fila para o beijo repenicado e o afago carinhoso e, entretanto, aproveita o fim-de-semana para uma “ida à terra” como se dizia quando ela própria era miúda.

E ir à terra revestia-se de uma verdadeira aventura. Pelo menos até se instalar a saudade do aparelho de TV e dos amigos que se deixavam no bairro. E isto só costumava acontecer bem no final das férias passadas na terra.
Madrugadores saíam de casa de manhã cedo, o regresso à tardinha para o banho do dia (abstenho-me de descrever a qualidade daquela água no “após”) .. ;)
As refeições eram em casa de quem se parava na procura de mais aventura, no grupo de primos e amigos da “terra”, eles próprios ansiando pela altura das férias quando vinham “os meninos de Lisboa”.
E os meninos de Lisboa não levavam play station nem game boys com trinta jogos, pilhas e carregadores. E muito menos um portátil! Não usavam óculos nem aparelhos nos dentes. E não tinham como novidades para contar o número de consultas no psicólogo nesse ano ou as notas (fantásticas!) da escola.
Uns e outros na descoberta das diferenças que pautavam as suas vidas, subiam ao castelo da aldeia, empoleiravam-se nos velhos canos de canhões, há muito adormecidos, do largo do pelourinho, faziam concursos para a apanha do maior ramo de papoilas ou para saber quem conseguia saltar o maior número de fardos de palha.
Corriam atrás dos tractores e das ceifeiras ou ajudavam na vindima com a sensação de que estavam a desempenhar um papel importante.

E no final eram compensados com a maior fatia de pão casqueiro e o queijo de cabra com casca (muito mais saboroso, para quem não o sabe).

De cada vez que me ausento à terra descrevo à princesa estas e outras sensações, cores, aventuras, quedas e joelhos esfolados, barrigadas de riso e ralhetes sobre horas de chegada tardias.
Que sorte! Diz-me ela .. e eu concordo intimamente. Que sorte.

quinta-feira, abril 19, 2007

Time for ..

É esta a altura. Sabe-o há muito. Antevê-lhe a chegada, precavendo-se.
Mansamente e como quem não quer .. lá se instala essa fogosidade, necessidade, vaidade, e outras características, não obrigatoriamente terminadas da mesma forma.
Altura em que é necessária uma atenção redobrada, um folgar de formalidades, um sorriso, há quem o considere matreiro, mas não é. Asseguro-o.

Tempo para um ar mais solto, mais desportivo, nada a ver com as casual Fridays há muito “impostas”.
Desportivismo de sentires e de falas.
Intimidades provocadas e procuradas.
Tiradas mais ou menos “machas” às quais ela, de experiência feita, acha graça e contrapõe.
Com aquela língua “mordaz” tão a seu jeito que quem conhece, admira e não “leva a mal”. Mesmo.
Nada que a natureza, essa mesma, a própria, não se encarregue de desmistificar, confia ;)
Nas reuniões e grupos de trabalho (constituídos por tudo e por nada, diga-se à laia de passagem ..) a coisa então é notória. Estranha até como ninguém mais repara. Será? talvez por ser a única female .. ai género a quanto obrigas ;) Não se ofendam os leitores do outro .. Mas perdoem .. isto do sexto sentido é nosso mesmo.

Nada de grave.
Apenas uma maior predisposição para a galhofa brejeira, inconsequente.
Um passar de tempo como se tempo houvesse para gastar assim ..
Ela aprecia-lhes os dons de humor e a gargalhada fácil calmamente abafados durante o resto do ano. Controlados?

Welcome Spring .. would you please do not stay too long ? ;)

quarta-feira, abril 18, 2007

Me too ..

"Desejaria contemplar um mundo no qual a educação visasse libertar o espírito da juventude e não aprisioná-lo numa armadura de dogmas destinada a protegê-lo, ao longo da sua existência, das flechas das provas objectivas.
O mundo tem necessidade de corações abertos, de espíritos francos, e não é por intermédio de sistemas rígidos, antigos ou novos,que se poderão obter."
Bertrand Russell (1872-1970) in Why I am not a Christian
Bertrand Arthur William Russell, matemático, filósofo, considerado "moralmente impróprio" para o ensino no City College de New York de onde se despede para regressar a Inglaterra, ingressando no Trinity College. Um dos mais importantes pensadores do século XX, liberal, activista, mediador do conflito dos misseis em Cuba em 1962, colaborador de Albert Einstein no movimento Pugwash ..
"moralmente impróprio" ? no wonder .. ;)
PS_ eu e a minha verdadeira admiração por todo o legado da humanidade .. principalmente o desta altura, ainda me vai trazer "penas" ... ai vai vai .. ;)

Oldie ;)

Recebo vários emails por dia .. não recebemos todos?

Entre as notícias dos amigos e família que está longe, os FW do nosso descontentamento de pessoas que não nos escrevem uma linha durante meses mas encaminham .. encaminham dezenas de mails por dia como se cumprissem uma missão, publicidade que não me lembro de ter subscrito em altura alguma, correntes a apelar a uma réstia de humanidade ou simplesmente a convidar os incautos para o prémio que se ganha por encaminhar, os euros creditados em conta, cêntimos por aderir, os de aviso que não se coma, não se beba, não se abra a porta, não se pare nos semáforos, ou até aqueles outros sobre aranhas que não existem, etc… etc… e claro, os mails de trabalho - devia ter começado por estes, acho ;) - com setas vermelhas a piscar no écran, como que para me lembrar que aqueles sim são importantes e carecem resposta imediata, recebo de facto vários mails por dia.

Confesso que quase todos têm uma resposta, resposta por vezes breve, sintética porque assim se impõe (nem calculam o que me custa que eu de sintética não tenho nada ..), por vezes longa, explanada e explicada porque assim é conveniente para que, julgo eu, não restem dúvidas.
Contudo, são estes últimos as verdadeiras caixinhas de surpresas.
Respondendo sucintamente (outra dificuldade minha ..) parece-me sempre não abarcar todas ou quase todas as hipóteses de dúvidas. Esticando-me em textos explicativos e morosos, acho quase sempre e sei que tenho razão, que o destinatário lerá na diagonal ao fim de quatro linhas .. e se percorrer atentamente essas mesmas quatro linhas posso considerar-me feliz ;)

Numa pequena acção de “formação” organizada há uns tempos sobre a finalidade e bom uso do email descobri umas coisas “engraçadas”.
Primeiro o alerta para o uso do “bcc” quando se circulam emails para fora da empresa.
Evidente, motor a utilizar para se evitarem as invasões, os spams, e outras coisas com nomes esquisitos que eu, de informática não tendo rigorosamente nada, nem sei pronunciar.
Depois que os emails enviados deverão sempre que possível primar pelo resumo.
Pela instrução. Pelo pedido. E mai nada .. parafraseando alguém .. ;)
Mais nada ? Então e o sff e o muito obrigada ficam aonde? E o cumprimento devido e imposto pela educação recebida? E aquela pergunta mais intima, quando a intimidade se instala sobre o fim de semana, os votos de boa semana, e outras coisas que gosto de escrever e de receber?
Mais .. não se assinam emails enviados.
As siglas em maiúsculas do nome do emissor são suficientes dado que o endereço comporta por norma um nome e um apelido, além da designação da empresa.
Siglas ? O meu espanto aqui converteu-se em antagonismo puro e duro.
Assinar os meus emails com uma sigla que se converte rapidamente em qualquer anúncio a transportes públicos, partido politico, moeda de outro país não aderente à zona do euro .. era o que mais me faltava!

Chamem-me .. antiquada, agora! ;)

terça-feira, abril 17, 2007

What?!

"O amor entre jovens é um negócio impiedoso.
Nessa idade bebemos de sede ou para nos embriagar; só mais tarde nos ocupamos com a individualidade de nosso vinho."
Isak Dinesen, pseudónimo da baronesa Karen von Blixen-Finecke
(17/04/1885 – 07/09/1962), escritora dinamarquesa.

A propósito da descoberta da princesa: a expressão era, desta vez, um pouco atrapalhada, corou levemente quando começou a falar e eu pensei num segundo “mau! Já?” ;) ..
“Mãe .. hoje descobri que há dois meninos da escola que gostam de mim. Sem falar do João (o eterno “namorado” desde os tempos da creche que lhe dá prendas no dia dos namorados e lhe traz lembranças dos locais onde passa férias) .. Dois?! Mais dois?!
E como descobriste isso? .. E lá me conta cheia de pormenores (a quem sairá?) ;) que o costume quando alguém quer saber se alguém gosta de si é trocarem-se bilhetes escritos com uma pergunta “Gostas de mim?” e dois quadrados – um para o SIM e outro para o NÃO.
Que prático .. À frente do SIM aparece a frase – que bom, eu também gosto de ti.
À frente do Não – que pena, é que eu gosto de ti.

Simples, tipo teste americano, cruzes para cá e para lá e sempre uma conclusão, neste caso simpática, seja qual for a resposta. É uma ideia ..
Caçadeira atrás da porta da rua. Impõe-se! Não, não me gozem!
Ainda só tem nove anos caramba…! ;)

segunda-feira, abril 16, 2007

E ..

porque é de "voz" que se fala hoje .. independentemente de não ser apologista de triologias e qualquer tipo de continuação (acalento o credo de que tudo é único .. ) comecei ontem a ler IMPERIVM (Robert Harris) que nos narra a ascensão de Cícero - senador de Roma, fraca figura e algo gago - que sem apoio militar ou qualquer tipo de riqueza, conquistou a qualificação de Imperium - o mais alto grau de magistrado .. somente à custa .. da sua voz e da sua brilhante retórica.
O relato é feito por Tirão seu escravo e secretário pessoal, que o acompanhou durante 36 anos.
Estou no início .. mas estou a gostar :)

E Porque não ..

De cada vez que lia isto “Não Entres tão Depressa Nessa Noite Escura de António Lobo Antunes lembrava-me disto .. Do Not Go Gentle Into That Good Night e hoje decidi ir à procura do poema .. e do poeta.
Num dia dedicado à "voz" .. porque não dar voz a um .. já ido :) .. original.

"Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light. "

Dylan Thomas (welsh poet – 1914-1953)

sexta-feira, abril 13, 2007

Homage

Era um lago pequeno.
Ladeado de árvores viçosas que cresciam em altura indiferentes às secas que se noticiavam nas gazetas. Indiferentes às lutas dos homens, entre os homens, em países distantes, difíceis de localizar no pequeno globo que mantinha sobre a grande secretária, ladeado pelas máquinas fotográficas, os rolos de papel, as tinas de água que enchia cuidadosamente na altura da revelação, as molas gastas, com que pendurava os trabalhos acabados, esperando pacientemente que secassem, na escuridão, gestos metódicos, aprendidos, feitos de cor ..
Era um lago pequeno por onde passeavam airosamente mãe pata e um rancho de pequenos filhotes amarelos e brancos, penas leves como nuvens, atarefados.. Mergulhavam à vez, abanavam-se como se de crianças se tratassem e a água estivesse gelada, numa onda de salpicos que alcançava a mãe. Nesse instante ela virava-se à procura do filhote mergulhador que lhe faltava na ninhada.
Quadro bonito. Fotografou-os individualmente. Em conjunto. Com a mãe. Sem a mãe.
A fotografia desse dia apareceu-lhe em imagem mental, perfeita ..A ninhada em mergulho simultâneo. Rabitos de pena no ar perante o ar condescendente da mãe que se bem que pata, era mãe e portanto .. condescendente e compreensiva como todas.
Esperou.
Pacientemente e durante longas horas que não deu por passarem, esperou acocorado à beira do pequeno lago. Posição mais desconfortável para quem via do que para ele próprio, absorto que estava na determinação de conseguir.
E conseguiu .. ! Incrivelmente, ao por do sol, sempre desconfiou que apercebendo-se da sua intenção, chegando à conclusão que não desistiria, se não hoje, amanhã ou em outro dia qualquer, a ninhada atrás de uma mãe orgulhosa e quiçá já um pouco cansada, mergulhou ao mesmo tempo. Como que numa despedida do primeiro banho de Verão .. à laia de prémio para tão persistente personagem.. :)

Prémio de Melhor Fotógrafo Amador (1951) – T. Arnold (my grandfather)
Nice week end to you all *

quinta-feira, abril 12, 2007

Crescendo ..

“What the superior man seeks is in himself; what the small man seeks is in others”
ConfuciusChinese philosopher & reformer (551 BC - 479 BC)

Chegadas a casa e passadas as rotinas do toma banho, prepara o jantar, um olho no gato, outro na princesa, esvazia a mochila para arrumar tudo de novo e supervisionar os trabalhos de casa que desta vez incluíam uma pesquisa oportuna: onde mora o Presidente da Republica? E o Primeiro Ministro? .. “Mãe, quando ele morrer passa a haver um Segundo Ministro”? (risos interiores .. é no que dá andar a estudar a história de Portugal com os I, II e III) “nops princess, quando o senhor morrer haverá de novo um Primeiro Ministro”..
Mais tarde enroscadas no sofá surgem as confissões do dia. Temos este hábito, que fazer ? eu conto o meu, ela interrompe com perguntas e observações, por vezes tão oportunas que gostaria de gerir o meu dia aos seus olhos, ela conta o dela, com as queixas do almoço que não prestava “quando chegou à mesas achámos que eram hamburgers .. hummm, mas quando começámos a comer mãe, era peixe!!” um peixe disfarçado de hamburger? Acho que me abstenho de tentar um dia provar tal mistela (arghhh) ;), os imensos trabalhos de casa que a professora marcou, mais os outros todos que têm de fazer nas aulas “ficámos de novo sem intervalo da manhã! Ninguém consegue acabar aquilo a tempo mãe!” mas .. valha-nos a “boa vontade” da senhora apostada que está em os preparar para o 5º ano, que os deixa comer na sala de aula enquanto trabalham .. bom hábito este .. bem ao nível do que os espera no dito 5º ano! Enfim ..

Anda ás voltas com assuntos menores, com aquela expressão que lhe conheço de cor e salteado de quem tem muito mais para dizer e simplesmente ainda não encontrou o fio por onde começar .. limito-me a atirar-lhe um “quando quiseres …” ela sorri, se a conheço bem, ela conhece-me de “ginjeira” ;) e desbobina: "são as amigas mãe, sempre o grupo de amigas e os ciuminhos." Ciuminhos? Como assim ? "ora .. de quem brinca com quem .. de quem passa os intervalos com quem (se calhar por isto a professora diligente acaba com os intervalos .. penso eu) Somos um grupo mãe, temos de brincar juntas. Mas todas elas querem brincar comigo só. Depois as outras ficam tristes e afastam-se e eu vou buscá-las. Hoje tive de me enervar (por isso a rouquidão?) e disse-lhes: se não brincarmos todas juntas, eu brinco sozinha!”

Temos estadista! ;)

Tenho sempre de controlar as minhas opiniões nestas questões, confesso que às vezes sem qualquer sucesso. Rebelde que era quando criança, muito mais do que a princesa, lembro-me que resolvia as coisas com mais puxão de cabelo ou canelada e sem grandes considerações sobre olhos tristes ou lágrimas de crocodilo (acho que hoje seria provavelmente considerada uma criança “violenta” e os meus pais já teriam recorrido a um qualquer psicólogo ;)
Deixo-a solta, contar e analisar o que se passa. Chegar a “conclusões” parecendo-lhe que o faz sozinha. Já por diversas vezes que esta situação se repete. Nas brincadeiras do intervalo, no sentar ao lado de uma ou outra a pedido, na companhia para passeios quando saem da escola. Não sei se doravante vai conseguir, com a diplomacia que a caracteriza, resolver situações desta forma. Estas ou outras. Mas não deixo de me admirar com a simplicidade com que o faz. Remetendo propositadamente para as outras a responsabilidade de se passar ou não um intervalo agradável, mesmo que isso signifique brincar sozinha, apelando desta forma a uma união de grupo que ela, do alto da sua ingenuidade, acha que tem de manter.

quarta-feira, abril 11, 2007

Barcelona .. the fairwell :)




Ao longo da cidade são vários os placards a apelar ao seu Oceanário .. a frase utilizada é "se não estiveste aqui .. não estiveste em Barcelona" .. o El Corte Inglês tem igualmente uma publicidade incisiva, apelando ao mais renitente dos consumistas, inegável.




A zona comercial está tão ou mais desenvolvida que a turística. E há muito por onde escolher. Tanto que o se torna difícil de decidir é tão somente .. a escolha.






Optámos por deixar tudo isto para trás sem mexer na carteira (herculeana a tarefa!) e partimos, no último dia, para aquilo que não podíamos mesmo deixar de visitar.








A Sagrada Família.












"Perguntam, com frequência, a Antoní Gaudi, para quando a finalização da Sagrada Família.

De sobrancelha levemente arqueada, levanta os seus grandes olhos ao céu e murmura: o meu cliente não tem qualquer pressa" ..


Porque palavras não há (eu não tenho) para descrever a magnificência de tal obra .. incompleta .. resta-me concluir que nós também não temos qualquer pressa .. :)

e voltaremos .. fica a promessa*

Barcelona (IV)

E em tempo de férias aproveitadas pelos turistas que visitam a cidade, proliferam obviamente possibilidades de "negócio"!

Independentemente de me ter sentido segura dada a quantidade de policias pelas ruas, foram várias as vezes que fui interpelada com pedidos de informação sobre a esquadra mais próxima em virtude de assalto recente.

Também por duas vezes dirigiram-se-nos as forças da autoridade com informações de "mantener la mala adelante y la mano en la niña" :) malas à parte, evidente que não larguei a niña ;)

Pequenos assaltos dos pick pockets que naquele mar de gente não deixam escapar a oportunidade de uns cobres a mais ..

Depois há outros negócios pela rua. Os homens estátua! Imensos. Para todos os gostos: os góticos vestidos de negro, aqueles que reproduzem passagens da história da cidade vestidos de ouro com grandes asas a imitar o temível dragão, os engraçados pintados dos pés à cabeça com cores garridas, os inventores que se contorcem dentro de uma caixa de onde surge uma cabeça ou uma perna, para gritaria da audiência, ao tilintar da moeda .. uma risota :)

Ora mirem ;)


terça-feira, abril 10, 2007

Barcelona (III)

Fruits & Flowers



Nas Ramblas de onde se avista o Mercado de la Boqueria era esta a visão na 5ª feira Santa .. bancas e bancas com verdadeiros arranjos artísiticos de frutas e flores em que nem apetecia pedir nada (e ao mesmo tempo apetecia provar de tudo) com medo que se estragasse o "quadro".


Linda, colorida e alegre esta cidade :)


Barcelona (II)




O Palau da Música é, em Barcelona, o expoente máximo do Modernismo.

Declarado património mundial pela Unesco, foi construído pelo arquitecto Domènech i Montaner em 1905. Esta verdadeira obra de arte levou três anos a construir e a empresa foi levada a cabo por apenas 20 pessoas. Toda a arte interior presente no Palau, desde os vitrais à decoração interior rica e colorida era feita externamente ao local de construção. Estaleiros e ateliers funcionaram 24h por dia durante o período da construção da estrutura fornecendo os artefactos prontos a ser instalados.

Montaner era um arquitecto. Não percebia rigorosamente nada de som. Portanto, rodeou-se de especialistas de forma a tornar o interior do Palácio num local de fina acústica e envolvente musical e cultural, onde o som não esbarrasse na decoração e fluísse de forma plena, como se ao ar livre estivessem os espectadores.
O local está ricamente decorado como se de um jardim se tratasse.
A filosofia subjacente à decoração prende-se com o facto de na altura Barcelona industrializada sofresse gradualmente da ausência de espaços verdes. Assim, o Palácio e o plano da sua construção reflectiria essa ausência de espaço ajardinado, criando no visitante a ilusão de se passear por um. A maioria das paredes são em vidro. Para aproveitar luz, para proporcionar a entrada do sol no jardim.
As rosas brancas e vermelhas que decoram todo o tecto do monumento reflectem as cores da bandeira de St. Jordi – o patrono da cidade. Reza a lenda que Jordi foi o único cavaleiro que conseguiu matar o dragão que assolava a localidade. Do seu sangue brotou uma rosa vermelha que Jordi ofereceu à filha do Rei, casando com ela.
É neste dia que em Barcelona se celebra o nosso dia de S. Valentim (23 de Abril). Os rapazes oferecem rosas vermelhas e as meninas livros. A cidade neste dia atapeta-se de flores e bancas de venda de livros (parecido connosco não é?) ;)
O ponto alto turisticamente falando da visita a este local culmina na audição do grande órgão colocado sobre o palco. Realmente tocado, como fez questão de nos informar a nossa simpática guia, e não em gravação, o som é avassalador. Toca-nos .. enche-nos .. como se por nós passasse e seguisse o seu caminho.
Foram minutos de comoção.
Quando olhei a princesa, chorava .. apercebi-me que eu também.
Terminada a pequena peça e, provavelmente habituada que está a estas reacções, para desanuviar, a guia lançou uma pequena piada: o custo monetário de cada uma das teclas maiores do órgão (são 3.000 ao todo, de diversos tamanhos) custa tanto como custou toda a construção do Palácio .. ;)
Saímos para a rua. É uma rua estreita, perpendicular à Via Layetana, quase um pequeno beco.
O verdadeiro sol apanhou-nos desprevenidas. Piscámos os olhos chorosos, sorrimos e continuámos .. estávamos certas que não iríamos encontrar nada tão belo, tão único, tão maravilhosamente mantido.
Estávamos enganadas .. ;)

segunda-feira, abril 09, 2007

Barcelona (I)



Prometido é devido e mais até para gozo pessoal e recuerdo .. os próximos posts vão ser dedicados às nossas aventuras nesta cidade que .. de adjectivo não encontro um tão completo, imenso e dedicado que a possa caracterizar em uma só palavra.
Chegámos a um aeroporto repleto de nacionalidades, mensagens em alta voz, barulho e animação, cores e corridas apressadas, parámos estáticas à procura do écran enorme onde se informavam os passageiros de em qual dos 40 tapetes rolantes íamos buscar a nossa afortunada mala :) Encontrámo-la sem dificuldade, saímos para o check out .. e eis-nos numa praça de táxis – todos pretos como os nossos, antigamente – onde embarcámos em direcção ao Hotel. Motorista simpático, arranhando o inglês, percorremos alguns quilómetros que o aeroporto é bem longe da cidade (quem diria? ;) e chegámos ao Hotel. Hotel Azul Barcelona, simpático, na Gran Via, a 100m da plaza de Espanya e do Museo D’Art de Catalunya. Bem recebidas e acomodadas, desfizemos a mala e partimos em busca das famosas tapas .. estávamos esfomeadas e com a diferença horária há muito que havia passado a hora de almuerzo :)
A recepcionista indicou-nos dois restaurantes perto do hotel, optámos por um e regalámo-nos!
Subimos à Pl. D’Espanya para nos depararmos com um edifício lindo, antigo, no cimo de uma álea cheia de verdura. É o Museo d’Art de Catalunya onde permanentemente estão exposições de Picasso, além de um sem número de outras permanentes e temporárias recontando de forma única qualquer coisa como 100 anos de história ..
O museu é em si uma verdadeira obra de arte. Perdemo-nos pelos corredores. Inspirámos aquele ar como se na altura da construção estivéssemos presente. Apreciámos as obras expostas, algumas perceptíveis outras nem por isso ;). Fotografámos, onde permitido. Indicações úteis e gente simpática disposta a ayudar duas estrangeiras, por todo o lado. Turistas nem por isso. Estávamos em dia de semana .. acho que os verdadeiros turistas preferem os fins de semana para estas aventuras.. O estilo gótico representado em duas grandes salas encantou-me. Desde a escultura, à pintura à fotografia. Um mundo.
Não admira que os bilhetes de ingresso sejam válidos por dois dias. Tivemos de voltar. Uma tarde é manifestamente insuficiente para tanta beleza.

À saída fomos brindadas com um pequeno "concerto" de música gótica.
Um só musico, sentado no chão e gente sentada na escadaria do museu atenta e envolta.
Atenta ao som suavemente dedilhado. Envolta numa aura de mistério, num tempo cinzento onde o sol teimoso deixava escapar, como que envergonhado, um pequeno raio que atravessava a cidade aos nossos pés, abrilhantando os seus pontos mais altos.
Divino.

Returning .. :)

mas devagarinho que isto de por os pés em terra .. tem que se lhe diga :)
E tanto .. mas tanto para contar!
Ainda estamos a organizar o diário da viagem por isso .. e entretanto .. uma reflexão :)


Misunderstood!
سوء الفهم
malentendu
Mißverständnis
Недоразумений
Malentendido
Mal entendido


Há-os em todas as línguas.
E enquanto o homem for homem, animal racional, ser pensante, motivado e motivador, nem sempre pelos mesmo princípios, com os mesmos objectivos .. mas, ainda assim.
É pena .. as letras, esses bem preciosos e luzidios, carregados de significado maior que as suas sílabas que quando bem arrumados e com música dão origem à maior das poesias, à mais brilhante serenata, à composição preciosa que se estuda hoje, feita, pensada, organizada há séculos atrás. À obra que se lê sempre, ontem tal como hoje aposto ainda que amanhã.
Quando mal arrumadas, colocando verbos sem substantivos, adjectivos sem nada para adjectivar, ausência de pronomes de posse ou pequenos artigos, fundamentais, .. ou simplesmente gritadas do alto de uma fúria, da ira, assumem a vez do agressor, ferem, magoam, pedras atiradas não ao charco mas contra a moral de alguém, o credo de alguém, a inocência de alguém, provocando danos maiores que os sinónimos, superiores aos antónimos, irreversíveis.
É pena .. mas acontece.

Pior: dizê-las com um determinado intuito oculto esperando, vã esperança, que o interlocutor não chegue lá, não alcance, não entenda, levá-lo por meandros, normalmente pouco claros, a aceitar o que se quer, a anuir a uma qualquer vontade que não a sua, a própria, indiferente ao seu querer, e depois, surpreendidos com a rapidez, o “golpe de vista”, o “vens de carrinho” alterar-lhes o sentido, a forma, o som e o tom, esperando de novo, esperança ainda mais vã, que nisso, também se creia.

É então a altura ideal para o “não queriam mais nada ..”! virar costas. E seguir.